Ele chegou em casa como chegava todos os dias naquela época da vida, com o corpo cansado de um turno longo na fábrica e a mente já meio desligada, pensando no banho quente, no cheiro de comida simples e na voz de Marlene perguntando como tinha sido o dia, como se aquilo ainda fosse a parte mais sólida do mundo dele. Era véspera de Natal, e havia uma ironia amarga nisso que ele só perceberia depois, como se a própria data tivesse esperado ele virar a esquina errada da vida para então revelar o que realmente era: apenas mais um dia em que coisas ruins também aconteciam, mesmo quando as pessoas fingiam que não podiam acontecer.
A rua estava silenciosa daquele jeito que engana, com luzes piscando em algumas casas e outras completamente apagadas, como se o bairro inteiro estivesse prendendo a respiração. Ele subiu os poucos degraus da entrada sentindo o peso habitual nas pernas, o som da chave girando na fechadura mais alto do que deveria ser, e por um instante pequeno demais para ser notado conscientemente, algo dentro dele hesitou. Não foi pensamento claro, não foi pressentimento heroico como em filmes; foi só uma leve sensação de que a casa estava diferente, como se o ar do outro lado da porta tivesse mudado de textura.
Ele abriu.
O que viu não se encaixou imediatamente na mente. O cérebro dele tentou, como sempre tenta, reorganizar o impossível em algo aceitável: uma sombra no lugar errado, uma confusão de corpos, um erro de leitura. Mas não havia erro de leitura. Havia Marlene no chão da sala, imóvel, de um jeito que o corpo humano reconhece mesmo sem experiência prévia, e havia um homem ali dentro também, um desconhecido ofegante, desorganizado, como um animal encurralado que ainda não tinha decidido se era ele o predador ou a presa.
O impacto não foi imediato. Primeiro veio o silêncio interno, uma espécie de suspensão em que o mundo deixa de fazer sentido por alguns segundos. Depois veio o som, o sangue, o coração dele batendo tão forte que parecia ocupar toda a cabeça. E então veio o corpo, finalmente obedecendo, avançando sem pedir permissão à parte racional da mente.
Ele atravessou a sala como alguém que não está mais tomando decisões. A mão fechou no homem e o arrancou de cima de Marlene com uma força que ele não sabia que tinha, jogando-o contra a parede com um estrondo seco que pareceu exagerado demais para ser real. Mas nada naquele momento parecia real de um jeito confiável. Era como se a casa tivesse se transformado em um cenário mal iluminado, e ele estivesse apenas interpretando uma versão distorcida de si mesmo.
Marlene não respondeu.
Ele não quis olhar por muito tempo, mas olhou mesmo assim. Porque o cérebro humano insiste em confirmar o pior antes de aceitar. E quando confirmou, alguma coisa dentro dele quebrou de um jeito definitivo, não como vidro estilhaçando, mas como algo orgânico cedendo sob pressão contínua. Ele não gritou. Não naquele instante. O som ficou preso em algum lugar profundo, substituído por uma raiva fria que parecia crescer ao mesmo tempo em que ele entendia que não havia mais nada para salvar.
O homem encostado na parede riu.
Não foi uma risada alegre. Foi uma risada curta, quase automática, como se ele também estivesse tentando se convencer de que ainda tinha controle sobre alguma coisa naquela sala. Ele procurou algo na mesa, uma jarra de vidro pesada, e o movimento dele foi rápido demais para quem deveria estar em desvantagem. O objeto subiu no ar e desceu.
O mundo de Pedro ficou branco por um instante, depois escuro.
A dor veio depois, atrasada, como se o corpo precisasse de tempo para aceitar que tinha sido ferido. Ele caiu de joelhos sem entender exatamente quando tinha deixado de estar de pé. O braço latejava, uma dor que parecia vir de fora do próprio corpo, como se alguém estivesse batendo nele por dentro. Mas ainda assim, ainda assim, aquilo não era o centro de tudo. O centro de tudo era Marlene no chão, imóvel, e o homem respirando como um animal preso.
VOCÊ ESTÁ LENDO
SOMBRAS DA NOITE
HorreurEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
