Cheguei em casa depois de um dia inteiro de trabalho duro na fábrica e peguei minha esposa sendo estuprada por um filho da puta. Era véspera de natal e nem mesmo nesta data sagrada eu tinha paz.
Abri a porta de assalto sem acreditar no que estava acontecendo, o coração palpitava e meus olhos já marejados ardiam. Tirei o desgraçado de cima dela com tanta raiva que o joguei na parede. Mas Marlene já estava morta. Asfixiada. O maldito tentou escapar.
– O que você fez com minha mulher seu filho da puta?
Ele riu como um demônio. Depois pegou uma jarra de vidro que tinha na mesa da sala e tentou acertar minha cabeça. Eu levantei meu braço na hora e a pancada destruiu meu antebraço. Agonizei de dor, mas o que era aquilo perto da dor de ter perdido minha mulher sem poder fazer nada. Eu só queria mata-lo, fazer a justiça com as minhas próprias mãos. Eu olhava para o corpo de Marlene inerte e aquilo só me dava mais força e ódio. Mas o sujeito tinha tanto ódio quanto eu. Talvez estivesse precisando sobreviver, saciar seus desejos mais primitivos que lhes foram negados ou talvez fosse apenas mais um viciado sem rumo na vida. Um marginal, vagabundo e sem futuro. Que justiça poderia ser feita a ele? Seu rosto era marcado pela dor, vergonha e ódio de mim. A jarra ainda estava em suas mãos e ele queria me matar.
Dei um passo para trás.
– Vá se foder seu puto desgraçado – disse ele levantando a jarra mais uma vez, seus olhos injetados de sangue e droga. – Onde está a porra da grana?
Pior que não tinha mais grana. As contas do mês sugaram todos os meus rendimentos que já não eram muito. E ainda estava devendo os juros do cartão de crédito que não paravam de subir. O segundo golpe me acertou a fronte e tudo virou breu.
Depois de meses em coma, quando acordei, fiquei sabendo que o filho da puta estava preso, mas ainda seria julgado. Depois que sai do hospital, mal tive tempo para chorar meu luto por Marlene e fui convocado para o julgamento do desgraçado que acabou com a vida da minha amada esposa. Mas minha via também estava acabada. O que seria de mim sem Marlene, minha primeira e única paixão? Não tínhamos nada. Não éramos ricos, mas o que tínhamos de valioso era nosso amor e parceria. Eu lutava para dar uma vida àquela mulher que sempre me apoiou quando ninguém mais acreditava em mim. Ela era uma princesa em minha vida. E eu fazia de tudo para agrada-la. Estávamos planejando um filho e talvez viajaríamos para o Sul como ela sempre sonhara. Ver a geada e a neve...não mais...
O julgamento foi rápido. Ele era o filho bastardo do deputado mais votado na ultima eleição. O político com a ficha mais suja que o poleiro de um galinheiro.
– Carlos Inácio, – proferiu o juiz indiferente a minha dor e perda. Para ele eu era apenas mais um bastardo na sua grande lista de processos a serem julgados e que com toda certeza ele não dava a mínima – devido a falta de provas contundentes a vosso respeito, eu o considero inocente. Está sessão está encerrada.
Bateu martelo e levantou-se as pressas.
Então eu vi o desgraçado comemorar com o puto do advogado dele. Depois ele chegou perto de mim e riu na minha cara. Não pude fazer nada. Derrotado, eu já descia as escadas do tribunal de justiça, quando vejo o assassino da minha esposa abraçando e rindo com o juiz que o considerou inocente.
O sangue ferveu.
Havia um policial próximo de mim. Tirei a arma da cintura dele e dei um tiro no peito de Carlos Inácio Filho da Puta. Com todos horrorizados com a cena, me aproximo para ver a vida esvair de seu corpo e descarreguei o pente.
Agora podem me prender.
Vários policiais me seguraram. Desnecessário. Eu já tinha perdido tudo naquela vida. Primeiro eu perdi o amor. Depois minha sanidade porque não existe justiça nem sonhos para gente como eu.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
