Lena havia acabado de se mudar para aquela cidade, a sensação de desconforto ainda marcando os primeiros dias de sua nova vida. Era uma cidade pequena, com ruas estreitas e uma sensação de mistério que parecia pendurar no ar, como a névoa densa que encobria a cidade ao amanhecer. Ela se sentia estranha, deslocada, como se algo invisível estivesse à espreita, esperando o momento certo para se revelar. Quando conheceu Tomás, ele parecia ser a resposta para sua solidão, com seu sorriso enigmático e jeito de quem sabia mais do que deveria. Tomás, com seus olhos profundos e seu jeito tranquilo, a convidou para uma festa em uma mansão antiga, no topo da colina. Ela não pensou muito antes de aceitar. Às vezes, tudo o que se precisa é de um empurrão para se afastar da solidão, e aquela mansão parecia ser o lugar certo para isso.
A mansão estava tão velha quanto as histórias que falavam dela. As paredes rangiam e a madeira da escada tinha uma coloração escura, quase preta, como se tivesse sido corrompida pelo tempo. Ao entrar, Lena foi recebida pelo som abafado de música alta e risadas, mas havia algo errado com aquela festa. Havia algo de desconcertante na atmosfera, como se o próprio lugar estivesse respirando, aguardando o momento certo para engolir todos os presentes. As pessoas estavam ali, se divertindo, mas elas pareciam... distantes. Os olhos delas não estavam realmente ali. E Tomás? Já não estava mais ao seu lado.
Com uma sensação de apreensão crescente, Lena se afastou da multidão e caminhou pelos corredores escuros da mansão. As portas de madeira rangiam a cada passo que ela dava, e o ar parecia pesado, como se tivesse absorvido o medo dos que haviam passado por ali. Quando ela se deparou com uma porta trancada, a curiosidade foi mais forte do que o medo. Ela tentou abrir a maçaneta, mas estava emperrada. Então, foi quando ela ouviu. Um sussurro, baixo, vindo de dentro do quarto. Um sussurro suave, mas que a fez gelar os ossos. Era seu nome. "Lena..." Ela estremeceu. Seus cabelos se arrepiaram. O som era real, como se alguém estivesse atrás dela, tocando sua pele com a ponta dos dedos. Lentamente, ela se afastou da porta, o medo tomando conta de seu corpo, mas, ao dar o primeiro passo de volta, uma sensação pesada a atingiu: ela estava sendo observada.
De volta à sala principal, Lena parou. As risadas haviam cessado. O som da música se extinguiu, como se o ar tivesse congelado. Ela olhou ao redor, atônita, e percebeu que a festa inteira havia desaparecido. Os jovens, as luzes piscando, o cheiro doce de álcool no ar, tudo isso tinha sumido. A mansão, agora, parecia mais como uma prisão, com suas paredes, seus corredores, seus espaços abafados e sombrios. O medo apertou seu peito como uma mão fria e invisível.
Tentando controlar a respiração, ela avançou para os corredores escuros, o som de seus passos ecoando nas paredes, como um lamento distante. Não havia mais ninguém. Nenhum rosto conhecido. Nenhum sussurro. Apenas o silêncio. Então, ela o viu. O espelho. Era grande, emoldurado com um ouro envelhecido, os vidros cobertos de manchas e embaçados, como se tivesse sido deixado ali há séculos. Ao se aproximar, seus olhos buscaram seu reflexo, mas o que ela viu... não era ela. Não exatamente. Havia algo atrás de sua figura no espelho. Algo escuro, imenso e faminto. Quando ela se virou para encarar aquilo que estava atrás dela, não havia nada. O vazio se estendia na sua frente, mas, ao olhar novamente para o espelho, a figura sombria permanecia, imóvel.
E foi ali, naquele momento de puro terror, que Lena entendeu. A mansão não era apenas velha e decadente. Ela estava viva. E mais do que isso, havia algo lá, algo que não deveria estar ali. Um espírito maligno, corrompido por anos de solidão, alimentado pelo medo, pelo sofrimento dos que passavam por ali e nunca saíam. Ele queria ela. Queria a alma dela, aprisionada naquele lugar, onde a linha entre o mundo dos vivos e o dos mortos era tênue e frágil.
Lena correu pelos corredores, sentindo o espírito atrás dela, uma presença crescente que sussurrava seu nome em sua mente, uma voz baixa e velada que lhe cortava os pensamentos. Ela sentia sua respiração ofegante, a boca seca, mas não conseguia parar. O ar parecia se tornar mais denso, como se as paredes estivessem se aproximando, como se a própria mansão estivesse se fechando sobre ela. Seus pés batiam no chão de madeira, fazendo um som macabro, e a cada passo ela sentia o peso do espírito se aproximando mais, mais próximo, até que, finalmente, ela viu a porta. A saída.
Quando Lena alcançou o lado de fora, o alívio foi instantâneo. Ela estava livre. Mas o alívio logo se transformou em horror, quando percebeu que a cidade havia desaparecido. Não havia mais ruas. Não havia mais casas. O mundo que ela conhecia tinha sumido, como se fosse um pesadelo que desvanecia ao amanhecer. A mansão estava ali, no topo da colina, mas a colina agora não estava mais onde ela se lembrava. Estava em outro lugar, em um lugar onde a escuridão se estendia para sempre, onde o espírito maligno reinava supremo, e onde ela estava presa.
Lena sabia, com uma clareza horrível, que jamais sairia dali. Ela estava no limbo, uma alma perdida, uma prisioneira de um lugar que nunca deveria ter existido. A mansão, agora, não a deixaria ir. O espírito, com seus olhos escuros e sua voz sibilante, tinha o que queria. E Lena seria sua, para sempre.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
