Lena tinha chegado naquela cidade com a sensação incômoda de que havia tomado a decisão certa tarde demais, como se o próprio ato de se mudar tivesse sido uma reação atrasada a algo que já vinha dando errado há muito tempo. O ônibus deixou-a na rodoviária numa manhã úmida, o céu cinza sem promessas, e desde então ela carregava aquela impressão persistente de deslocamento, como se as ruas não fossem feitas para recebê-la de fato. Não era uma cidade grande, mas isso não ajudava; pelo contrário, havia algo na calma excessiva dos bairros, no ritmo contido das pessoas, que fazia tudo parecer observado de volta, como se cada janela guardasse um julgamento silencioso. Lena tentava racionalizar, dizer a si mesma que era só adaptação, mas à noite, no pequeno apartamento alugado, o silêncio tinha uma densidade que parecia ocupar espaço físico ao redor da cama.
Nos primeiros dias, ela se agarrou à rotina como quem se segura em algo que pode quebrar a qualquer momento. Trabalho remoto, café barato, caminhadas curtas até mercados quase vazios onde os funcionários falavam pouco e olhavam menos ainda. Mas havia momentos em que ela se pegava parando no meio da rua sem motivo, com a estranha sensação de que tinha esquecido algo importante, algo que não era um objeto, mas uma parte de si mesma. Às vezes, ao virar uma esquina, tinha a impressão rápida de ver alguém parado do outro lado da rua, imóvel demais para ser apenas um transeunte, mas quando olhava de novo não havia ninguém. Ela começava a desconfiar da própria percepção, o que a deixava mais inquieta do que qualquer ameaça concreta poderia deixar.
Foi num desses dias comuns demais que ela conheceu Tomás. Ele estava numa pequena padaria do centro, encostado no balcão como se já fizesse parte daquele lugar, apesar de não parecer pertencer a nada específico. O jeito como ele a olhou foi direto demais para um estranho, como se reconhecesse nela algo que não deveria ser óbvio. A conversa começou banal, café, clima, comentários sobre a cidade, mas havia uma fluidez estranha na forma como ele conduzia as palavras, como se sempre soubesse qual resposta ela daria antes mesmo de ela pensar. Quando ele sorriu, Lena sentiu um alívio quase imediato, seguido de uma leve culpa por se sentir tão visível para alguém que conhecia há poucos minutos. Ela não percebeu, naquele momento, que esse tipo de alívio às vezes é só outra forma de armadilha.
Tomás apareceu de novo dois dias depois, perto do prédio dela, como se aquilo fosse coincidência suficiente para não levantar perguntas. Ele falou da cidade com uma familiaridade que parecia ensaiada, mencionou lugares que ela ainda não conhecia como se já tivesse estado com ela neles, e então, quase casualmente, mencionou uma festa numa mansão antiga na colina. Disse que era algo pequeno, gente conhecida, música, bebida, nada que exigisse compromisso real. Lena hesitou por tempo suficiente para perceber que a hesitação vinha mais do medo da própria solidão do que de qualquer desconfiança dele. Quando aceitou, viu algo parecido com satisfação atravessar o rosto dele, rápido demais para ser conforto.
A estrada até a mansão parecia mais longa do que deveria, embora Lena não conseguisse lembrar exatamente de quantos minutos haviam passado. O carro de Tomás seguia com uma tranquilidade quase irritante, como se o mundo ao redor não tivesse importância alguma. A cidade ficou para trás sem transição clara, substituída por trechos de mata fechada e uma neblina baixa que se acumulava entre as árvores. Lena olhava o perfil de Tomás enquanto ele dirigia e tentava decidir se aquilo era apenas nervosismo dela ou se havia algo errado no modo como ele parecia completamente à vontade naquela estrada vazia. Em algum ponto, ela teve a impressão de que ele não piscava há tempo demais, mas quando ele virou o rosto para ela, o pensamento se desfez antes de ganhar forma.
A mansão surgiu sem anúncio, como se sempre tivesse estado ali e apenas tivesse decidido se tornar visível naquele instante. Era grande de um jeito que não parecia arquitetônico, mais como algo que cresceu ao longo do tempo sem planejamento, absorvendo partes de si mesmo. As janelas refletiam pouco a luz externa, e havia uma sensação de peso no ar ao redor dela, como se a própria gravidade tivesse mudado discretamente. Dentro, a festa parecia normal à primeira vista: música alta demais, pessoas demais, risadas que se sobrepunham. Mas Lena percebeu, quase imediatamente, que ninguém realmente a olhava por inteiro; os olhos passavam por ela como se registrassem apenas uma forma sem importância. Quando se virou para procurar Tomás, ele já não estava ao seu lado.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
