SERRA DO CARAMBA

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Era segunda-feira de manhã e Heitor Alvarenga ainda não tinha decidido se já estava acordado ou apenas funcionando no modo automático. O café fumegava sobre a mesa de metal da delegacia enquanto o computador insistia em demorar para terminar o login, como se até a máquina compartilhasse do mesmo desânimo do início da semana. Heitor odiava segundas-feiras não por falta de vocação, mas porque elas sempre começavam com a ilusão de controle, e controle era uma coisa que a polícia fingia ter até que alguém batia na porta trazendo o caos embrulhado em forma humana.

Foi exatamente isso que aconteceu quando trouxeram a garota.

Ela foi colocada na cadeira diante dele como se tivesse sido recolhida de algum lugar que o mundo preferia não nomear. Estava suja, com o cabelo escuro embaraçado em nós pesados, a pele marcada por uma mistura de poeira, suor e algo que parecia semanas sem contato com qualquer coisa minimamente humana. O cheiro dela preenchia o ambiente com uma presença quase física. Mesmo assim, o que incomodava Heitor não era a sujeira. Era o olhar. Vazio demais. Fixado em lugar nenhum, como se ainda estivesse presa em algum ponto que não existia mais no mapa do mundo real.

— Estão todos mortos — ela disse, sem introdução, sem contexto, como se estivesse repetindo uma frase que alguém havia colocado dentro dela.

Heitor suspirou, girou levemente a cadeira e tomou um gole do café ainda quente demais. Já tinha visto muita coisa em mais de vinte anos de polícia, coisas que ele preferia não lembrar quando chegava em casa e via os filhos correndo pela sala, mas aquilo tinha o cheiro de algo diferente. Não necessariamente sobrenatural, pensou ele, só humano o suficiente para ser confuso.

— Nome — ele disse, abrindo o sistema no computador.

— Ellen — respondeu ela, depois de um atraso estranho, como se tivesse que buscar o próprio nome em algum lugar distante. — Ellen Rocha.

Ele digitou devagar, sem pressa, tentando organizar mentalmente o caso antes mesmo de ouvir o que quer que fosse.

— E quem está morto, Ellen?

Ela piscou lentamente, como se a pergunta abrisse uma porta dentro dela.

— Todos eles.

Heitor ergueu os olhos por um instante.

— Quem matou?

A resposta veio como uma rachadura.

— Foram elas.

— Elas quem?

A garota começou a tremer, e por um segundo pareceu que não conseguiria continuar. Heitor já conhecia aquele tipo de colapso: trauma, drogas, delírio, ou uma combinação inconveniente de todos. Encostou-se na cadeira, tentando manter o tom profissional.

— Respira e fala devagar.

Ela respirou, mas não devagar. Foi como se puxasse algo pesado demais de dentro da própria memória.

— A gente subiu a Serra do Caramba — ela disse finalmente.

Heitor parou de digitar.

A Serra do Caramba não era apenas um ponto no mapa. Era o tipo de lugar que aparecia em conversas de bar com risos nervosos e advertências exageradas demais para serem só superstição. Um lugar onde sempre havia histórias demais e provas de menos.

— Vocês subiram aquilo? — ele perguntou, mais seco do que pretendia.

— Subimos.

Ela começou a falar, e a voz dela mudou. Já não era apenas a de uma jovem assustada, mas a de alguém tentando segurar algo que escapava pelos dedos da mente.

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