ANIVERSÁRIO

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Henrique nunca gostou de aniversários. Nem quando era garoto, nem agora, quando o número já tinha deixado de fazer sentido e virado só um ruído no papel. O calendário dizia uma coisa. O corpo dizia outra. A memória, então, mentia como queria.

Na infância, o ritual era sempre o mesmo: o chapéu de papel que pinicava a testa, o bolo barato com cobertura doce demais, quase enjoativa, e a voz da mãe insistindo para ele sorrir enquanto vizinhos cantavam fora de tom do outro lado da mesa. Ele lembrava disso com uma clareza irritante, como se não fosse memória, mas repetição. O som das vozes parecia sempre um pouco errado, como se alguém tivesse errado o tempo da realidade e ninguém tivesse percebido.

Agora, velho, sentado no apartamento apertado, ele tentava convencer a si mesmo de que isso tudo não tinha importância. O aniversário que viria amanhã — ou já tinha vindo? — era só uma marca arbitrária, uma invenção para fingir que o tempo era organizado. Mas o tempo, ele sabia, não era organizado. O tempo era um bicho que roía devagar, paciente, e deixava só o que não prestava.

Dona Jacinta, do 418, não entendia isso. Ela falava em gratidão com uma facilidade que o irritava em silêncio. Era uma mulher boa, sim. Isso ele reconhecia. Tinha uma presença quente, quase sólida, como café recém-passado enchendo a cozinha. E havia nela uma espécie de estabilidade que Henrique não confiava. Pessoas estáveis demais pareciam sempre prestes a quebrar de um jeito errado. Ainda assim, era a única pessoa no prédio que ele tolerava por mais do que alguns minutos. Talvez porque ela não perguntasse demais. Ou talvez porque ele não queria admitir que gostava da voz dela quando dizia seu nome.

Mas nem ela entendia o essencial: o tempo não dava nada. Só tirava. E no fim, deixava a pessoa ali, sobrando nela mesma.

Henrique já tinha sido policial. Isso ainda vinha às vezes, sem convite, como cheiro que sobe pelo ralo. Um trabalho que, na época, parecia simples: havia os que obedeciam e os que não obedeciam. E ele fazia parte da engrenagem que resolvia isso sem muitas perguntas. Lembrava de noites longas, de decisões rápidas demais para serem chamadas de decisões. Lembrava de rostos. Sempre os rostos voltavam depois, não durante. Durante era só ação. Depois era o problema.

Diziam que ele era duro. Ele aceitava isso como quem aceita um diagnóstico antigo. Monstro, uma vez alguém disse. Talvez fosse verdade. Ou talvez fosse só o tipo de palavra que as pessoas usam quando precisam fingir que o mundo é simples o bastante para caber em categorias.

Agora o corpo dele doía com uma honestidade quase ofensiva. Os ossos pareciam objetos mal encaixados, rangendo em silêncio. A velhice tinha essa crueldade discreta: não precisava de violência, só persistência.

Na gaveta do criado-mudo, o revólver ficava guardado como sempre esteve. Não por impulso, mas por hábito. Hábitos são coisas perigosas quando se vive sozinho tempo demais. Ele o limpava às vezes sem necessidade, como quem repete um gesto antigo só para confirmar que ainda sabe quem foi. Havia uma calma estranha nesse ritual, uma ordem que o mundo fora da gaveta já não tinha.

Naquela noite, ele o tirou de novo. O metal parecia mais frio do que deveria. Ou talvez fosse ele que estivesse mais sensível ao frio, agora que tudo nele parecia ficar mais fino, mais exposto. A janela mostrava o estacionamento do prédio: concreto manchado, dois carros parados há meses como se tivessem desistido também. Nada ali parecia vivo. E isso, de algum modo, era reconfortante.

Foi então que o som veio.

Primeiro, quase nada. Um ruído leve no corredor. Um arrastar que poderia ser encanamento velho, poderia ser alguém passando devagar demais. Henrique ficou imóvel sem perceber que tinha parado de respirar por alguns segundos. O tipo de atenção que o corpo aprende sozinho quando alguma coisa está errada, mesmo antes da mente aceitar.

Depois veio o riso.

Não era o riso de Dona Jacinta. Isso ele soube imediatamente. O dela era quente, humano, com falhas simpáticas. Esse não. Esse parecia... distante. Como se tivesse sido ouvido através de uma parede molhada, ou de um sonho mal lembrado. E havia algo nele que não combinava com o corredor do prédio. Como se o som tivesse vindo de um lugar que não devia existir ali.

Henrique olhou para a porta.

Fechada.

Trancada.

Mesmo assim, o riso continuou, mais próximo agora. Não em distância física, mas em outra coisa, mais difícil de nomear. Como se estivesse aprendendo o caminho até ele.

— Feliz aniversário, Henrique — disse uma voz.

Ele conhecia aquela voz. Ou achava que conhecia. O problema era esse: a sensação de reconhecimento vinha antes da lembrança, e isso era errado. Memória não funcionava assim. Não devia funcionar assim.

O revólver ainda estava na mão dele, mas parecia ter mudado de peso. Não mais objeto, mas presença. Como se estivesse sendo segurado de volta por alguma coisa do outro lado.

E então o riso mudou.

Não vinha mais do corredor.

Nem da porta.

Agora parecia vir de dentro da cabeça dele, ocupando o espaço entre um pensamento e outro, como se sempre tivesse estado ali e só agora tivesse decidido se apresentar.

Henrique sentiu o peito apertar, não exatamente como medo, mas como reconhecimento de algo que ele não queria reconhecer. Rostos. Aqueles rostos antigos, que voltavam nos sonhos sem pedir licença. Mas agora não eram só imagens. Tinham som. Tinham intenção.

Ele piscou devagar.

O apartamento continuava o mesmo. A janela, o estacionamento morto, a porta fechada. Tudo normal. E ainda assim nada estava normal, porque a sensação de normalidade parecia falsa, como cenário montado às pressas.

O riso cresceu mais uma vez, e dessa vez não havia dúvida: não era só lembrança. Era presença.

Henrique baixou o olhar para o revólver na mão, e por um instante absurdo teve a impressão de que ele não era mais dele. Como se tivesse sido apenas emprestado por um tempo que agora estava acabando.

Algo do outro lado da porta — ou do outro lado do pensamento — pareceu esperar.

E ele não entendeu por quê, mas sentiu que qualquer escolha naquele momento já tinha sido feita antes dele pensar em escolher.

O riso cessou.

E o silêncio que ficou depois foi pior do que qualquer som.

Henrique permaneceu imóvel, respirando devagar, como se qualquer movimento pudesse confirmar alguma coisa que ainda não tinha terminado de se formar.

E pela primeira vez em muito tempo, ele não tinha certeza se estava sozinho no apartamento.

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