Aniversário. Que bela porcaria. Nunca gostei dessa palhaçada. Nunca. Desde garoto, quando minha mãe insistia em colocar aquele chapéu ridículo na minha cabeça e fazer bolo com chantilly barato. Ela me fazia soprar as velas, sorrir para uma câmera que eu odiava, enquanto os vizinhos cantavam desafinados como corvos bêbados. Comemorar ficar mais velho. Pra quê? Você só está andando na direção de um buraco na terra. Um bolo de aniversário é só a prévia do bolo de sete palmos que te espera.
Agora, aos 84 anos—ou seriam 85? Preciso conferir no RG—não vejo sentido nenhum nisso. Dona Jacinta do 418 insiste que devemos dar graças a Deus por mais um ano de vida. Ela é uma mulher boa, Dona Jacinta. Pele negra como a noite, daquelas que faz a gente pensar em como o escuro pode ser confortável. Eu sou branco, do tipo que os outros chamam de "velho elegante", mas quem se importa? Ela é mais jovem que eu, uns dez anos talvez, mas madura o suficiente pra saber das coisas. Tem uma risada quente, como café fresco. É a única pessoa que eu tolero nesta droga de prédio. Mas até ela não entende. Não entende que o tempo não é um presente, é um ladrão. Rouba tudo de você, e no fim, só deixa o eco do que já foi.
Amanhã é meu aniversário. Dizem. Quem conta essas coisas? Ah, sim, o calendário. Amanhã completo 85, eu acho. Não importa. Não tem ninguém pra se lembrar mesmo. Meus parentes se foram, todos. Uns morreram, outros simplesmente pararam de ligar. Melhor assim. Quando se vive tanto quanto eu, você aprende que as pessoas que se aproximam muitas vezes só querem tirar um pedaço de você. O pior é que deixam a casca, só levam o que realmente importa.
Eu era policial, sabia? Um dos bons. Meu dedo era pesado no gatilho. Não ficava filosofando sobre direitos humanos ou essa bobagem. Bandido era bandido, e meu trabalho era mandá-los para o inferno, rápido e eficiente. Dei muito tiro na minha vida, vi muitas cabeças explodirem como melancias maduras, a carne e os vermes se misturando. Às vezes, ainda vejo esses rostos nos meus sonhos. Eles me olham, mas não falam. Sabem que foram merecidos.
— Você era um monstro, Henrique — disseram uma vez. E quer saber? Eu era. Mas o mundo precisa de monstros às vezes. Alguém tem que fazer o trabalho sujo. Agora, o monstro está velho. A carne dói. Os ossos rangem como madeira velha. Meu tempo passou.
Na gaveta do meu criado-mudo tem um 38. Um bom revólver, ainda brilhante como quando o comprei. Manutenção é importante. Sempre limpei minhas armas, mesmo depois de aposentado. Há algo de meditativo nisso, de ritual. Você desmonta, limpa, lubrifica, monta de novo. É quase como desmontar sua própria vida e tentar encaixar as peças de volta, só que nunca dá certo. Tem sempre algo que não volta para o lugar certo.
Talvez seja hora de comemorar, sim. Comemorar do meu jeito. Sem velas, sem bolo, sem o canto desafinado de vizinhos idiotas. Uma festa só para mim. O cano frio do revólver será a única vela que preciso, e o som do disparo será meu "parabéns pra você". Não é algo triste. Triste é o que vem depois do bolo, quando você percebe que está só mais perto do fim.
Sentei na poltrona da sala, meu lugar favorito. A janela dá para o estacionamento do prédio, um lugar deprimente com dois carros batidos que ninguém se incomodou de consertar. É o mundo perfeito para mim agora. Peguei o 38 e o deixei repousar no colo. Era quase como segurar a mão de um velho amigo.
E então ouvi algo. Um som suave. Um riso. Parecia vir do corredor, mas não era o riso quente de Dona Jacinta. Era algo mais... frio. Frio como o cano do revólver. Olhei para a porta, mas ela estava trancada. E mesmo assim, o riso ficou mais alto.
— Feliz aniversário, Henrique — sussurrou uma voz.
Meu coração disparou, mas não era medo. Era... reconhecimento. Talvez os rostos dos sonhos estivessem finalmente me alcançando. Afinal, eu os matei, não matei? Por que eles não teriam direito a um último parabéns?
O 38 ainda estava na minha mão, mas agora parecia mais pesado. Pesado como as memórias, como os anos que arrastei até aqui. E o riso continuava, agora vindo de dentro da minha cabeça.
Talvez seja assim que termina. Talvez seja o começo de algo novo.
Coloquei o revólver de lado e fechei os olhos. Amanhã, posso decidir se apago as velas ou não.
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SOMBRAS DA NOITE
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