A cidadezinha era pequena, como uma célula isolada de um organismo maior. Um lugar onde todos se conheciam, mas onde as histórias de um se perdiam rapidamente nas bocas dos outros, como ecos desvanecendo-se no vento quente. Quase não havia segredos, mas ainda assim, havia o suficiente para que os habitantes se distraíssem com as suas pequenas mentiras, suas grandes frustrações. E, de alguma forma, isso era o que fazia a vida ali suportável.
Carla não queria mais saber de segredos. Ela estava cansada deles. Cansada das mentiras. Cansada de ser enganada. Como se uma pedra tivesse sido erguida do fundo de sua alma, ela respirava pela primeira vez depois de meses afundada naquilo que chamavam de dor de corno. E não estava nem um pouco preocupada com o que os outros pensariam dela. A tristeza de Fernando ainda a rondava, mas ela já não queria ser a boa menina que ele sempre quis que fosse. Ele a trocara por uma amiga da academia, uma mulher casada que tinha mais de quarenta, como se fosse alguma grande novidade. "O nosso santo não bateu" ele dissera, e a estúpida ainda acreditou. Carla não queria mais nada daquele tipo de vida. Ela estava disposta a viver a sua, sem amarras, sem as correntes invisíveis de um amor que não a valorizava. Agora era só ela, o álcool e as baladas.
Ela tinha se transformado em algo que mal reconhecia. As madrugadas se tornaram um campo de batalha onde ela buscava novos vícios, novas formas de esquecer. Não tinha amigos de verdade, apenas caras que passavam pela sua cama. Nada importava. Nada. Até o dia em que recebeu o convite.
Humberto, o primo de um amigo antigo de escola, o tipo de cara que passava a vida fazendo piadas de mau gosto, cheio de gente que a deixava desconfortável, mas que de alguma forma a atraía. Ela aceitou o convite, mesmo sem saber o que esperar. Talvez ela precisasse disso, talvez fosse só mais uma forma de se perder no meio daquelas noites sem fim.
O carro de aplicativo a levou até lá. O caminho era tortuoso e a estrada estreita, serpenteando entre os campos que se estendiam como uma pintura sem vida. Na cabeça de Carla, um filme rodava incessantemente. Fernando e suas palavras vazias. A traição. Como ele sorria, como ela queria ter o poder de esbofeteá-lo de novo. Mas não importava. Nada importava mais.
A chácara surgiu diante dela como um pesadelo disfarçado de luxo. O lugar era isolado, distante do resto da cidade, em um campo onde o verde se misturava com o cinza das nuvens. Ela sentiu uma onda de desconforto subir pelo pescoço, mas tentou se afastar da sensação. Carla pagou a corrida e entrou, os olhos buscando as primeiras figuras conhecidas. Humberto estava lá, sorrindo, rodeado por outros homens com a expressão que ela tanto conhecia. Homens como Fernando, homens que se achavam acima de tudo. Homens canalhas.
Ela não estava interessada em nada disso. Estava ali para se distrair, para se perder mais uma vez. A bebida já estava entrando em seu sistema, e logo as batidas da música a envolveram, a fizeram se sentir viva. Dançou como nunca antes, com a liberdade que não conhecia. Sentiu os olhos sobre ela, sentiu os olhares de desejo, e aquilo, de alguma forma, a excitava. Não pensava nas consequências. Ela queria apenas sentir algo, qualquer coisa.
Mas foi quando Humberto se aproximou que algo mudou. O sorriso dele era estranho. Como se ele soubesse algo que Carla ainda não sabia.
– Você está ótima, Carla. Vai ser uma noite especial.
Ela riu, um pouco nervosa, ainda tentando entender se ele estava flertando ou apenas falando. Mas não deu tempo de digerir o que ele disse. Algo estava errado, ela podia sentir. Algo se movia no ar, como se houvesse uma tensão crescente.
– Quando as meninas vão chegar? – ela perguntou, tentando quebrar a sensação incômoda que começava a engolir o ambiente.
Os homens riram. Riram demais, e o som não parecia natural. Algo ali estava errado, muito errado.
– Elas não vão vir. – Humberto falou com um sorriso cruel. – Não precisa delas. Você já está aqui. E é você quem vai fazer todos nós muito felizes essa noite.
O coração de Carla afundou. Ela olhou ao redor, tentando entender, tentando processar. Mas os homens se aproximaram, e seus sorrisos agora eram predatórios, vazios. Algo na expressão de Humberto a fez perceber o que estava prestes a acontecer, mas já era tarde demais. Antes que ela pudesse reagir, sete sombras encapuzadas se aproximaram, suas mãos fortes e implacáveis. Alguém apagou as luzes, e o mundo se tornou um borrão de corpos, de mãos, de toques sujos, de sussurros.
Carla tentou gritar, mas sua voz foi engolida pela escuridão.
A música, antes pulsante, agora parecia distante, como se tudo se tornasse irrelevante. Seu corpo foi arrastado, amarrado, violado. E a dor, aquela dor que ela nunca imaginou sentir, atravessou sua carne e penetrou em sua alma. Mas havia algo mais ali. Algo muito mais profundo. Ela sentiu que estava perdendo o controle, a consciência escorrendo entre os dedos. A última coisa que ela pensou foi em sua mãe, uma notificação perdida em seu celular, que ela nunca escutou. Era tarde demais para salvar alguém.
Quando o dia finalmente chegou, o corpo de Carla foi encontrado às margens de uma estrada de terra, abandonado e mutilado. O que antes parecia uma cidade tranquila, uma pequena célula de normalidade, estava agora marcada por uma brutalidade que nenhum de seus habitantes poderia compreender. O mistério envolvia os rostos conhecidos, os homens que ela pensou que conhecia, mas agora se tornavam apenas sombras.
E a cidadezinha, com seus segredos enterrados nas profundezas do concreto, não era mais a mesma. As portas se fecharam. O silêncio se fez. O medo se espalhou, porque, no final das contas, ninguém jamais sabia realmente quem estava ao seu lado.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
