Era uma noite fria, gelada até os ossos, como se o próprio inverno estivesse tentando sufocar a terra. Paulo, com os ombros tensos e o corpo exausto, deixou o escritório às 11h30 da noite, o relógio parecia zombar dele com seu tic-tac incessante, marcando o fim de mais um dia sem fim. O projeto estava finalmente concluído, mas a sensação de vitória era ofuscada pela fadiga, e pelo peso da responsabilidade que ele carregava. Agora, ele só queria uma coisa: chegar em casa. Se jogar na cama e esquecer do mundo, esquecer da pressão, dos números e das reuniões intermináveis. Mas a estrada, ah, a estrada era um obstáculo que parecia sempre ampliar a distância entre ele e o conforto do lar.
A bicicleta de Paulo, sua velha companheira, estava com os pneus levemente carecas, mas ela sempre o havia levado aonde ele precisava. Ele a montou com um movimento automático e começou a pedalar, o som das rodas no asfalto quebrava o silêncio da noite, mas de alguma forma esse silêncio parecia ainda mais opressor. O vento cortante, com sua lâmina gelada, fazia o rosto de Paulo arder, mas ele não parou. O caminho, longo e sinuoso, parecia familiar demais, mas agora, à noite, ele tinha um peso novo, uma sensação de solidão sufocante.
À medida que avançava, Paulo começou a sentir algo estranho, como se os olhos das árvores, invisíveis na escuridão, o observassem. Ele sacudiu a cabeça, tentando afastar o pensamento. Era apenas a fadiga, ele pensava. Era só isso. Mas então, o sentimento de ser observado se intensificou, e não havia razão alguma para isso. Ele olhou ao redor, tentando enxergar algo em meio à escuridão densa que cercava a estrada, mas tudo o que viu foram sombras e mais sombras.
A sensação de desconforto crescia. Ele acelerou o passo, empurrando os pedais com mais força, tentando espantar a inquietação crescente. Foi quando ouviu o som. Algo estranho, um barulho abafado, como o estalo de galhos secos quebrando sob o peso de algo pesado. A princípio ele pensou que fosse o vento, mas então o som se repetiu, mais próximo, mais claro, mais intenso. A princípio era apenas um eco, mas logo se tornou um som agudo e penetrante, como uma respiração forçada que o perseguia, cada vez mais forte, cada vez mais insuportável.
Ele olhou para trás, tentando vislumbrar alguma coisa, mas não havia nada. O caminho estava vazio, apenas a escuridão preenchia a noite. Ele pedalou mais rápido, o medo começando a apertar seu peito, as pernas tremendo com o esforço. O som aumentava, como se algo o estivesse seguindo, ficando mais perto a cada segundo. O vento cortava seu rosto, mas ele não sentia frio. Só sentia a pressão no peito, a angústia se espremendo em seu coração. Quando olhou novamente para trás, seu estômago deu um salto.
Aquela coisa... aquela figura.
Ela surgiu da escuridão, como se estivesse saindo das sombras. Alta, esquelética, seus membros longos e distorcidos pareciam não pertencer a um corpo humano. O rosto era uma máscara grotesca de pele pálida e fina, esticada sobre ossos proeminentes. Cabelos negros, como fios de um pesadelo, caíam até os ombros da criatura, seu olhar fixo em Paulo. Não havia olhos, apenas buracos negros, vazios, que pareciam querer devorar a alma de quem os encarasse.
Paulo tentou gritar, mas sua garganta estava apertada, como se uma mão invisível a estivesse estrangulando. Sua respiração se tornou ofegante, o som do seu peito batendo como um tambor, ensurdecedor. Ele tentou se mover, mas seu corpo estava paralisado, como se algo invisível o segurasse no lugar. A figura se aproximou lentamente, seus passos ecoando pela estrada deserta. A risada, então, começou.
Era um som frio, cruel, como o estalar de ossos quebrando, um riso sem vida, sem misericórdia. Ela se aproximou mais, uma onda de gelo emanando de seu corpo, invadindo a pele de Paulo e fazendo-o tremer. Ele fechou os olhos, desejando não estar ali, desejando desaparecer. Mas nada aconteceu. Ele ainda estava lá, sentindo a presença da criatura se aproximando cada vez mais.
Ele tentava se mover, gritar, mas tudo o que conseguia era sentir a pressão de sua própria impotência. O riso foi aumentando, preenchendo seus ouvidos, até que tudo o que ele ouviu foi um eco vazio, sem significado. Ele estava ali, na estrada escura, com a sensação de que o tempo não passava, como se a noite tivesse se esticado até se tornar eterna.
E então, como se nada tivesse acontecido, ele abriu os olhos novamente.
A figura havia desaparecido. A estrada estava vazia, a escuridão ainda imensa e sufocante. Paulo estava deitado no chão, sua bicicleta danificada ao lado, sua respiração ainda rápida, como se tivesse corrido uma maratona. Mas o medo não havia ido embora. Ele sentiu como se algo tivesse ficado com ele, algo invisível, algo que o seguia em cada passo.
O medo não era só o que ele tinha vivido naquela noite. O medo estava no ar, em sua pele, no som do vento. Paulo sabia, com uma certeza aterradora, que não seria a última vez que aquela figura o encontraria. A estrada escura agora tinha algo a mais, algo que não podia ser explicado, algo que lhe tirava a paz.
Ele pedalou de volta para casa, mas o medo não se afastou. No fundo de sua mente, uma pequena voz sussurrava que ele nunca mais seria o mesmo. Que havia algo ali, naquela estrada, esperando por ele. E ele sabia que, a partir daquele momento, todas as suas noites seriam solitárias e vigiadas, como a estrada escura que ele agora teria que atravessar para sempre.
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SOMBRAS DA NOITE
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