NOITE ATERRORIZANTE

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Paulo saiu do escritório como quem abandona um lugar que já não lhe pertencia há horas, embora ainda tivesse passado a última hora fingindo que pertencia. O prédio corporativo havia esvaziado aos poucos, luzes sendo apagadas em sequência como se alguém estivesse fechando pálpebras cansadas de uma mente maior, indiferente a tudo aquilo que acontecia lá dentro. Ele carregava o laptop na mochila, os ombros levemente tortos pelo peso acumulado de dias iguais, e o frio da noite parecia mais agressivo do que deveria ser possível naquela época do ano, como se o mundo tivesse decidido punir os que saíam tarde demais. O relógio na portaria marcou 23h30 com um clique seco, e Paulo teve a sensação irracional de que aquele som tinha sido mais alto do que deveria, como se o prédio estivesse satisfeito por finalmente expulsá-lo.

Do lado de fora, a rua estava quase vazia, iluminada por postes com luz amarelada que não alcançava os cantos mais escuros, deixando tudo com um aspecto incompleto, como uma lembrança mal formada. Ele caminhou até onde havia deixado a bicicleta encostada numa grade, sentindo o vento atravessar sua camisa e entrar pela pele com uma intimidade desagradável. Enquanto destrancava a corrente, percebeu que suas mãos tremiam levemente, mas não sabia dizer se era frio, cansaço ou algo mais difícil de nomear, algo que parecia ter começado ainda dentro do escritório, quando ele percebeu que era o único andar ainda aceso. Ele montou na bicicleta sem pensar muito nisso, como sempre fazia, confiando no automatismo que o levava para casa todas as noites, como se o corpo soubesse o caminho melhor do que a mente.

O início do trajeto era sempre o mesmo, ruas conhecidas, algumas lojas fechadas, cães latindo ao longe e o som ocasional de um carro passando rápido demais, como se quisesse escapar da própria noite. Mas naquela noite havia algo diferente, ainda que ele não conseguisse identificar de imediato o que era. Talvez fosse apenas o silêncio mais profundo entre os sons, ou a maneira como as sombras pareciam mais densas nos cantos das ruas, como se tivessem sido colocadas ali com intenção. Paulo tentou ignorar a sensação, atribuindo tudo ao cansaço acumulado, às horas em frente à tela, à pressão constante que vinha se acumulando nas últimas semanas. Mas havia um tipo de cansaço que não explicava tudo, e ele sabia disso mesmo quando se recusava a admitir.

Quando entrou na avenida que levava para fora do centro, o vento ficou mais forte e mais frio, e as árvores ao longo do canteiro começaram a formar silhuetas que se mexiam de maneira quase imperceptível. Ele manteve os olhos fixos à frente, mas não conseguiu evitar a sensação de que havia algo acompanhando seu movimento, não exatamente atrás dele, mas ao redor, como se o espaço estivesse sendo reorganizado discretamente enquanto ele avançava. Em certo momento, ele chegou a pensar em parar, apenas para se certificar de que não havia nada, mas essa ideia trouxe um desconforto maior do que seguir em frente, como se olhar diretamente pudesse tornar aquilo real. E então ele continuou pedalando, um pouco mais rápido do que antes, embora não tivesse percebido a decisão conscientemente.

Foi nessa parte do caminho que ele ouviu o primeiro som que não pertencia à estrada. Um estalo seco, como galhos sendo pressionados com força demais, vindo de algum ponto lateral, onde a vegetação se fechava em uma massa escura. Paulo reduziu levemente a velocidade, franzindo a testa, tentando decidir se tinha ouvido mesmo aquilo ou se era apenas o vento interagindo com alguma coisa invisível. Ele olhou rapidamente para o lado, mas tudo o que viu foi escuridão entre as árvores e o reflexo fraco da luz dos postes distantes. Continuou, então, mas o som voltou, mais próximo, mais definido, como se algo estivesse acompanhando seu ritmo sem esforço algum.

O desconforto que até então era difuso começou a se transformar em algo mais concreto, algo que pressionava sua respiração de dentro para fora. Ele tentou se convencer de que era impossível, que ninguém estaria ali àquela hora, naquela estrada secundária pouco usada. Mas o corpo não aceitava argumentos racionais com facilidade quando o instinto começava a se manifestar de forma mais clara. O som se repetiu novamente, agora com uma espécie de continuidade irregular, como passos que não se ajustavam ao padrão humano. Paulo sentiu um arrepio que não tinha relação com o frio, e sem perceber começou a pedalar mais forte, o coração acelerando antes mesmo de sua mente admitir que havia motivo para isso.

Ele olhou para trás pela primeira vez e não viu nada além da estrada vazia, iluminada em pedaços irregulares pelos postes distantes. Ainda assim, a sensação de presença não diminuiu, pelo contrário, parecia ter se intensificado exatamente por causa da confirmação visual de que não havia nada ali. Foi nesse momento que ele percebeu algo ainda mais perturbador: o som não tinha parado. Ele não vinha de um ponto específico atrás dele, mas parecia existir em múltiplos lugares ao mesmo tempo, como se a própria estrada estivesse produzindo aquilo. Paulo engoliu em seco, sentindo a garganta seca de repente, e tentou manter o foco à frente, mas a respiração já não seguia o mesmo ritmo das pernas.

A figura surgiu sem transição clara, como se já estivesse ali desde o começo e apenas tivesse decidido se tornar visível naquele instante. Não havia um movimento de aproximação tradicional, apenas uma reorganização da escuridão que resultou em algo que não deveria ser humano, mas que também não parecia completamente outra coisa. Era alto demais, com proporções que não se encaixavam corretamente no espaço da estrada, e havia uma rigidez estranha na forma como se mantinha de pé, como se estivesse aprendendo a ocupar aquele lugar. Paulo sentiu o corpo falhar em alguma parte interna, como se o cérebro tivesse tentado desligar certas funções ao mesmo tempo em que insistia em permanecer consciente.

Ele tentou gritar, mas o som não saiu, e essa ausência foi mais assustadora do que qualquer reação exagerada teria sido. A figura parecia não se apressar, mas também não hesitava, aproximando-se com uma lentidão que distorcia a percepção de distância. E então veio a sensação mais perturbadora de todas, não visual nem sonora, mas física, como uma mudança na densidade do ar ao redor dele, como se o espaço estivesse ficando mais pesado, mais fechado. Paulo tentou pedalar, mas as pernas não respondiam com a coordenação habitual, como se o corpo estivesse atrasado em relação à própria vontade.

A risada veio depois, não como som alto, mas como algo que parecia se infiltrar diretamente na percepção, sem necessidade de atravessar o ar. Era irregular, quase mecânica, mas havia algo nela que sugeria consciência, uma compreensão distorcida de algo que Paulo não queria compreender. Ele fechou os olhos por um instante, um reflexo inútil, e quando abriu novamente, a estrada estava vazia. A bicicleta estava caída de lado no asfalto, e ele estava no chão, sem lembrar exatamente como havia chegado ali, com o peito doendo como se tivesse corrido sem parar por muito tempo.

Ele ficou alguns segundos imóvel, tentando reorganizar os próprios pensamentos, enquanto o vento continuava passando como se nada tivesse acontecido. Aos poucos, a racionalidade começou a retornar, trazendo junto uma sensação perigosa de dúvida. Ele olhou ao redor novamente e não viu nada além da estrada vazia e das árvores imóveis. Ainda assim, algo nele se recusava a aceitar que aquilo havia sido apenas imaginação. Quando finalmente se levantou, suas mãos estavam sujas de poeira e pequenas pedras estavam presas na pele, mas ele não se lembrava de ter caído de forma consciente.

— Foi só cansaço — ele murmurou para si mesmo, mas a voz não soou convincente nem para ele.

Ele montou novamente na bicicleta, mais devagar agora, e seguiu o caminho restante em silêncio absoluto, sem tentar entender o que tinha acontecido. Porém, conforme se aproximava de casa, começou a perceber algo ainda mais desconfortável: a sensação de estar sendo observado não tinha diminuído. Ela apenas havia mudado de lugar, como se não estivesse mais atrás dele, mas junto dele. E quando finalmente chegou à rua onde morava, teve a impressão clara, irracional e impossível de que as luzes dos postes estavam mais fracas do que deveriam estar.

Naquela noite, Paulo demorou muito mais para dormir do que o habitual, e mesmo quando finalmente fechou os olhos, permaneceu com a estranha certeza de que a estrada não tinha terminado quando ele chegou em casa.


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