ASSASSINO APOSENTADO

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O beco parecia mais estreito do que deveria ser, embora Marcus soubesse que isso não fazia sentido. Ele já estivera ali antes, ou em lugares muito parecidos, corredores urbanos de concreto úmido onde a cidade fingia esquecer o que colocava para trás. Mesmo assim, havia algo errado na forma como o espaço se fechava ao redor dele, como se as paredes de tijolos sujos tivessem se inclinado alguns graus a mais desde a última vez que ele respirara ali. A luz distante da rua não entrava como deveria, não iluminava o suficiente para dar qualquer sensação de saída, e isso o incomodava de um jeito que ele não queria reconhecer.

Marcus segurava as duas pistolas com firmeza, mas não era uma firmeza tranquila. Era uma memória muscular antiga, quase automática, construída em anos que ele fingia não lembrar mais. O peso das armas era familiar, confortável até, e isso por si só já lhe causava um incômodo que ele preferia ignorar. Havia um tipo de silêncio dentro dele que nunca era realmente silêncio, algo que observava e calculava mesmo quando ele tentava não pensar. E agora esse silêncio estava mais atento do que o normal.

O cheiro do beco era denso, uma mistura de óleo velho, urina seca e metal enferrujado, mas havia algo mais ali também, algo que ele não conseguia identificar de imediato. Era quase como um cheiro de lembrança estragada, como se aquele lugar tivesse sido usado tantas vezes para violência que a própria atmosfera tivesse aprendido a esperar por ela. Marcus respirou fundo e sentiu o peito apertar, não por medo — ele não gostava de chamar aquilo de medo — mas por uma antecipação que ele não queria nomear.

Os quatro homens surgiram no limite da luz como se já estivessem ali antes mesmo de aparecerem. Ele percebeu o detalhe estranho da forma como eles caminhavam, não exatamente juntos, mas também não separados, como peças de um mecanismo que já sabia o resultado. Marcus ajustou a postura sem perceber que o fazia. O corpo sempre lembrava primeiro. A mente vinha depois, tentando justificar.

— Ele tá aqui — um deles disse, mas a voz pareceu distante, como se viesse do fundo de um corredor muito maior do que aquele beco poderia comportar.

Marcus não respondeu. Ele não tinha o hábito de responder nessas situações. Parte dele ainda tentava insistir que aquilo era apenas mais um trabalho que deu errado, mais uma consequência previsível de escolhas antigas, mas outra parte, mais silenciosa e persistente, começava a notar pequenas falhas na cena. O modo como o som parecia atrasado. O modo como o vento soprava sem mexer nada realmente.

O primeiro disparo veio sem aviso claro. Não houve aquele momento cinematográfico de intenção, apenas o som seco rasgando o ar e ricocheteando nas paredes estreitas. Marcus se moveu antes mesmo de pensar, não porque viu o tiro, mas porque algo dentro dele já esperava por ele. O corpo se deslocou para o lado, encostando parcialmente em uma parede úmida que deixou um frio imediato atravessando seu casaco. Ele respondeu com dois disparos quase automáticos, e um dos homens caiu com uma lentidão estranha, como se o chão tivesse decidido puxá-lo com mais paciência do que o normal.

O som do impacto demorou a chegar.

Isso foi o primeiro detalhe que ele realmente percebeu.

Marcus não pensou nisso por muito tempo, porque pensar demais sempre foi perigoso. Ele avançou, usando o beco como cobertura, mas o espaço parecia responder de maneira irregular, como se as distâncias mudassem discretamente entre um passo e outro. Um dos homens gritou algo que Marcus não entendeu, não por causa do idioma ou do ruído, mas porque parecia que as palavras não se encaixavam corretamente na realidade.

Ele disparou novamente.

Outro corpo caiu.

E, ainda assim, a sensação de que nada estava sendo reduzido permanecia. Como se o número de inimigos fosse menos importante do que a própria ideia deles estarem ali.

O terceiro homem veio com uma faca, e havia algo quase familiar naquele gesto, algo que Marcus reconheceu sem querer. Não era coragem nem desespero, mas uma espécie de obediência. O homem avançou como se já tivesse feito aquilo antes, talvez muitas vezes, talvez sempre, e Marcus sentiu um leve atraso emocional em si mesmo, como se sua reação estivesse presa em uma versão antiga dele.

Ele desviou com precisão e desarmou o atacante com um movimento limpo. O corpo do homem respondeu de forma exagerada ao golpe, caindo com uma força que parecia maior do que o impacto real deveria causar. Marcus percebeu o som da queda tarde demais, como se a física estivesse ligeiramente fora de sincronia.

O quarto homem não hesitou. Isso era o mais estranho. Não havia hesitação suficiente em nenhum deles. Era como se todos já soubessem o final, mas ainda assim precisassem encená-lo.

Marcus disparou de novo, e o último homem caiu também.

O silêncio que seguiu não foi imediato. Primeiro veio uma espécie de eco atrasado dos sons, depois uma compressão estranha no ambiente, como se o próprio beco estivesse tentando reorganizar o que acabara de acontecer. Marcus ficou parado, pistolas ainda levantadas, sentindo o coração bater forte demais para algo que teoricamente já deveria ter terminado.

Mas não parecia terminado.

Ele olhou os corpos no chão e percebeu que não conseguia contar corretamente quantos eram sem desviar o olhar várias vezes. Havia uma inconsistência leve, quase imperceptível, como se o número estivesse mudando dependendo de como ele piscava.

Marcus engoliu em seco e forçou a mente a voltar ao controle. Ele já tinha visto coisas piores. Ele repetia isso para si mesmo como um argumento antigo, desgastado, que já não tinha a mesma força de antes.

Ele começou a caminhar em direção à saída do beco.

A rua estava ali. Ele conseguia ver. Luzes normais, som distante de carros, o tipo de realidade que deveria ser reconfortante. Mas quanto mais ele se aproximava, mais difícil era convencer o corpo de que aquilo era uma saída e não outra variação do mesmo espaço.

Atrás dele, o beco permaneceu silencioso.

Silencioso demais.

E isso o fez olhar uma vez por cima do ombro.

Os corpos ainda estavam lá.

Mas por um instante muito breve, quase imperceptível, Marcus teve a impressão de que um deles havia virado a cabeça na direção dele.

Ele parou.

Seu cérebro tentou rejeitar a informação imediatamente, atribuindo aquilo à fadiga, à adrenalina, ao hábito de ver ameaça onde não existe mais. Mas havia uma parte dele, mais antiga e mais honesta, que não descartou tão rápido assim.

Ele continuou andando mesmo assim.

Porque sempre continuava.

A rua o recebeu como uma lembrança mal resolvida. O ar ali parecia mais leve, mas isso não significava seguro. Marcus manteve as armas baixas, mas não completamente relaxadas. O corpo dele não sabia mais como relaxar de verdade. Talvez nunca tivesse sabido.

Ele caminhou alguns metros sem direção definida, apenas tentando deixar o beco para trás fisicamente, como se distância resolvesse alguma coisa. Mas a sensação de que algo estava fora de ordem não diminuía. Pelo contrário, parecia acompanhar ele agora, como uma sombra que não dependia de luz.

Ele passou por um reflexo em uma vitrine quebrada e viu seu próprio rosto por um instante.

E teve a estranha impressão de que o rosto demorou um pouco para acompanhá-lo.

Marcus parou de novo.

Dessa vez, o silêncio dentro dele não comentou nada. Ele percebeu isso com clareza. O silêncio estava quieto demais, como se estivesse esperando.

Ele respirou fundo.

E decidiu seguir.

Porque era isso que ele sempre fazia.

Mesmo quando não havia certeza de que ainda estava indo para algum lugar que fazia sentido.

E, atrás dele, muito longe ou talvez não tão longe assim, o beco parecia continuar existindo do mesmo jeito.

Ou talvez um pouco diferente.

Ele não olhou de novo para ter certeza.


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