O beco estava escuro, quase impenetrável, a luz da rua distante mal tocando as paredes de tijolos úmidos e desgastados. A única coisa que se movia era o vento, que sussurrava por entre os canos enferrujados e as garrafas de vidro quebradas espalhadas pelo chão. Marcus estava lá, no centro daquela prisão de concreto, com quatro homens armados vindo em sua direção. O cheiro da noite, mistura de óleo queimado e sujeira, era denso em suas narinas, e ele sentia seu coração bater forte no peito. Ele havia recuperado o carro, mas não tinha mais tempo para comemorações. Aqueles homens atrás dele eram um sinal claro de que sua liberdade, por mais que parecesse por um fio, já estava prestes a se romper.
Marcus olhou para as pistolas em suas mãos, sentindo a madeira polida das empunhaduras. Ele as conhecia tão bem quanto conhecia seu próprio nome. Não havia medo. Medo era algo que ele havia enterrado há muito tempo, como um cadáver no fundo de um rio sujo. Mas havia algo, uma sensação desconfortável, que o deixava tenso. Algo havia mudado, ele sentia isso no ar. Mas, sem tempo para refletir, ele se preparou. Já estava tarde demais para hesitar.
Os primeiros tiros cortaram o ar com uma rapidez quase sobrenatural. Aquelas balas vinham em sua direção com uma fúria incontrolável, mas Marcus era mais rápido. Ele saltou para o lado, seus pés tocando o chão com a leveza de um predador, desviando-se das balas que ricocheteavam contra as paredes. O som das explosões no beco, o estampido das armas, fazia sua mente se concentrar ainda mais. Ele não pensava, apenas agia.
Ele disparou sem hesitar, dois tiros certeiros, e os homens caíram. Aquele som... o som do corpo batendo contra o chão era macabro, como uma sinfonia de morte, mas Marcus não parou para pensar. Ele não podia. Os outros dois homens estavam avançando, e Marcus precisava continuar se movendo, sempre se movendo.
Ele se esquivava e atirava, uma dança mortal, uma coreografia brutal em que cada movimento seu parecia predestinado. As paredes do beco estavam tão próximas que ele podia quase tocá-las com as costas, e isso lhe dava uma vantagem. Ele usava o espaço de maneira inteligente, se escondendo atrás de pilhas de lixo, saltando por cima de caixas quebradas, utilizando cada pedaço de ruína como uma arma, como uma extensão de seu próprio corpo.
De repente, um dos homens se aproximou com uma faca, os olhos vazios de qualquer expressão humana. O homem estava com raiva, estava cego pela vingança, e Marcus podia ver isso. Ele não precisou fazer muito. Um movimento rápido, um giro preciso, e o homem já estava desarmado. A faca voou longe, e a perna de Marcus encontrou o peito do inimigo com a força de um martelo. O som do corpo caindo no chão ecoou, e, por um momento, tudo parecia estar parado.
Mas não estava.
Os dois homens restantes estavam atirando, mas suas mãos estavam tremendo. O medo, aquele velho amigo de Marcus, estava começando a tomá-los. Ele podia sentir a ansiedade deles, o peso da morte se aproximando, e ele usou isso a seu favor. Com um movimento fluido, quase sem esforço, ele avançou, atirando com precisão, mais uma vez.
Os corpos caíram como sacos de areia, pesados, inanimados, e o silêncio tomou conta do beco. Marcus ainda estava ali, parado no centro daquele pesadelo, as pistolas em suas mãos ainda fumegando. Ele não ouvia nada além do som da sua respiração. O corpo de um assassino aposentado não se permite descansar.
Ele olhou para os homens caídos no chão, para as poças de sangue que começavam a se formar sob eles, e uma sensação gelada percorreu sua espinha. Não era arrependimento, não era medo. Era algo mais profundo, algo que ele não queria nomear. Uma sensação de vazio, de que a morte nunca era o fim, mas apenas uma pausa entre a vida e o sofrimento.
Ele olhou para a saída do beco. A rua estava lá, como sempre estivera, e ainda assim parecia distante. Ele não sabia como havia chegado até ali. O que o trouxera de volta à violência, àquelas sombras sujas, aquelas ruas cheias de incerteza? Ele, que havia sido um dos assassinos mais temidos e respeitados, agora estava novamente em fuga, como um animal selvagem que não soubera o que fazer com sua própria liberdade.
Mas Marcus não podia pensar nisso agora. O pensamento o desviaria do que realmente importava. Ele precisava estar alerta. Os inimigos estavam por perto, ele sabia disso. Talvez ainda estivessem observando-o de algum lugar, esperando para atacar, para acabar com aquilo tudo.
Ele deu um suspiro profundo, sentindo o peso do cansaço em seus ombros, mas não poderia se permitir fraquejar. Não agora. Ele caminhou lentamente para a rua, cada passo um lembrete de que a luta nunca acabava, de que a vida de um homem como ele sempre era uma luta sem fim.
E enquanto ele se afastava do beco, seus olhos se fixaram na escuridão à frente. Marcus não sabia como, mas algo dentro dele dizia que o pior estava por vir. Algo estava esperando, e ele estava pronto. Ele sempre estava.
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SOMBRAS DA NOITE
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