VISITA PROFISSIONAL

13 1 0
                                        

Fabinho sempre acreditou que havia algo de profundamente lógico no mundo, uma espécie de ordem escondida sob a superfície das coisas, como se cada evento tivesse uma equação própria esperando para ser resolvida por alguém suficientemente atento. Era assim que ele justificava sua vida, seus fracassos e, principalmente, sua convicção de que não pertencia ao mesmo nível dos outros homens que descarregavam polietileno na fábrica. Enquanto eles riam alto, suavam sem pensar e assinavam turnos extras sem questionar nada, ele calculava mentalmente estruturas, sistemas, possibilidades, como se o trabalho físico fosse apenas um ruído incômodo no caminho de algo maior que ainda não tinha chegado.

A fábrica, no entanto, não parecia interessada em possibilidades. Ela tinha cheiro de plástico moído, de poeira branca que grudava na pele e entrava no nariz como se quisesse morar ali. Os sacos enormes de polietileno chegavam como corpos mortos, pesados e indiferentes, e Fabinho os via como peças de um sistema que ele compreendia melhor do que qualquer supervisor jamais compreenderia. Ainda assim, era ele quem carregava, quem suava, quem chegava em casa com o uniforme branco colado no corpo como uma segunda pele que insistia em lembrá-lo de que o conhecimento não pagava contas. Isso o irritava mais do que o cansaço.

Ele tinha olhos diferentes, e isso sempre foi um problema. Um castanho, outro mais claro, quase estranho sob certas luzes fluorescentes. Heterocromia, dizia o médico anos atrás, com a calma de quem entrega uma sentença banal. Algo genético, talvez antigo, talvez irrelevante. Mas nunca foi irrelevante para os outros. Na escola, os olhares vinham antes das palavras. Na vida adulta, vinham antes das entrevistas, antes das respostas, antes mesmo da chance de provar qualquer coisa. Fabinho tinha a impressão constante de que o mundo olhava primeiro para seus olhos e só depois decidia se ele existia por inteiro.

Anita, no entanto, parecia uma exceção. Ou pelo menos era isso que ele acreditava com uma convicção que não aceitava ser contrariada. Supervisora de Recursos Humanos, ela descia ao chão da fábrica raramente, sempre como alguém que atravessa um território estranho com cuidado demais para não sujar os sapatos caros. Mas, para Fabinho, cada descida dela era uma confirmação silenciosa de algo que os outros não entendiam. Ele via os colegas cochichando, rindo, insinuando coisas que ele fingia ignorar com paciência calculada.

— Ela veio de novo, Fabinho — dizia um deles, apoiando o cotovelo no saco de polietileno como se o mundo fosse uma piada privada. — Tá procurando você, certeza.

Fabinho apenas ajeitava o uniforme, sentindo o coração acelerar com uma satisfação que tentava parecer natural.

— Ela sempre sabe onde me encontrar — respondia, sem olhar diretamente para eles.

E era verdade, pelo menos dentro da estrutura lógica que ele construía. Anita não era só uma supervisora. Era alguém que observava. Alguém que testava. O perfume dela, jasmim doce demais para aquele ambiente de plástico e suor, ficava na memória dele como uma assinatura invisível. Ele esperava por ela mais do que admitia, e quando ela aparecia, algo dentro dele reorganizava o mundo em uma ordem suportável.

O problema era o resto do tempo.

Durante os fins de semana, Anita desaparecia como uma falha no sistema. Não respondia mensagens, não retornava chamadas, e isso não fazia sentido para Fabinho. Ele passava horas encarando a tela do celular, vendo fotos dela em festas, sorrindo em ambientes onde ele não estava, e cada imagem parecia uma pequena provocação pessoal. Ele dizia a si mesmo que era ocupada, importante, difícil. Mas a mente dele, quando começava a girar em torno disso, não sabia parar. Já havia quebrado um celular antes. Já havia dito coisas que não lembrava depois. Mas tudo isso, ele acreditava, era parte de uma reação legítima a um mundo que não seguia sua lógica.

SOMBRAS DA NOITEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora