Eu trabalho para uma empresa que fabrica caixa d'aguas. Não é um trabalho emocionante, muito menos recompensador financeiramente, mas dá para pagar as despesas da minha faculdade. Já é a segunda graduação que estou fazendo e pretendo ir mais além, pois gosto de estudar e sou muito esforçado. Na escola me chamavam de nerd e eu sempre tirava nota máxima nas matérias mais difíceis, como física, química e matemática. Mas eu gostava de outras matérias também, como filosofia, sociologia, história e geografia, embora não tivessem nenhuma aplicação prática. Eu gostava de ser bom nelas por que eram difíceis e ninguém era melhor que eu.
Conhecimento é poder e ninguém me tira o que eu sei. A empresa para a qual trabalho não valoriza as informações que eu tenho. Acho isso muito estranho, dado que vivemos num mundo onde se valoriza o conhecimento. Meu serviço é pesado, trabalho descarregando o polietileno que chega nos caminhões na fábrica para produzir as caixas d'agua que depois serão vendidas para todas as partes do país. Três anos se passaram e até agora nenhuma promoção veio. E olha que eu ralo. Meu uniforme fica todo branco por causa do polietileno que chega na forma em pó em grandes sacolas, parecendo farinha de trigo. Depois dá muito trabalho para tirar ele do corpo. Apesar de ser muito inteligente eles acham que não sou bom de serviço. Mesmo eu ralando muito. Mas o problema são meus olhos desiguais.
A heterocromia é uma doença em sua grande maioria de causa genética. Ou seja, é uma característica de nascença do paciente. Porém, outras doenças podem desencadeá-la, como lesões cerebrais. O médico que me diagnosticou a muitos anos, disse que algum antepassado meu teve heterocromia e por isso agora eu também tenho. Sempre tive problemas com garotas por causa disso, desde o ensino médio. Apesar das minhas notas. Mas acho que elas estavam mais interessadas em outras coisas, como fumar baseados por exemplo. Agora a heterocromia vem sendo um problema na minha vida adulta. Além de eu continuar não me dando bem com as mulheres, sinto que as empresas vivem me excluindo por causa da minha aparência. Não me acho feio, só tenho olhos desiguais.
Eu só não chutei o pau da barraca ainda por causa da Anita, a supervisora de Recursos Humanos. Muito raramente ela desce até o chão da fábrica em cima daquele salto enorme para fazer alguma coisa. Mas quando ela desce eu sei que é para me ver. Meus amigos falam isso, não sou eu que estou dizendo.
– Olha lá, Fabinho, – dizem eles – ela estava olhando para você. A Anita só vem aqui na área de descarga para ver você meu amigo. Que homem de sorte você é.
Eles riem e me fazem congratulações. Eu balanço a cabeça magnânimo.
– Eu sei. Essa mulher me ama demais. Ela só não admite, mas ela me ama. É fato.
E é verdade. Temos uma relação diferente. Não gostamos de mostrar para os outros que nos amamos. Nosso amor é só entre nós. Não precisamos demonstrar. E Anita é uma moça muito chique. Paro o meu serviço para vê-la passar. É como uma bebida revigorante o seu perfume de jasmim. Aí quando chega o final de semana eu penso em chamar Anita para sair, mas sempre me aparece alguma coisa e eu não consigo chegar até ela. Então passo o final de semana nas redes sociais mandando mensagem para ela, mas ela não me responde, pois é uma moça muito ocupada. Mas quando chega a noite ela posta nas redes sociais fotos e vídeos na balada. Aí eu fico uma fera e meu fim de semana vira um verdadeiro inferno. Certa vez eu quebrei um celular por causa dela.
– A desgramada saiu novamente – eu chego no trabalho dizendo. – Falei para ela ficar em casa, mas ela não me deu ouvidos. Na verdade, nem leu minhas mensagens. E pior, ela me bloqueou mais uma vez. É assim mesmo. Amor difícil.
– Amor difícil mesmo – dizem todos.
Eu sei que no fundo eles estão rindo de mim. Mas depois vão se arrepender.
Então chegou o dia dos namorados. E eu precisava dar alguma coisa para minha Anita. Passei dias procurando um presente que pudesse se igualar a beleza da minha princesa. Mas nada parecia ser suficiente. Eu sei que ela gosta de coisa cara pois sempre está usando roupas e joias ao olho da cara. Não tenho condições financeiras e meu chefe não quer me promover. Então eu peguei o limite do meu cheque especial e comprei um colar de mais de dez mil para Anita. Comprei pela internet que saiu mais barato, apesar do frete. A joia chegou no prazo combinado. Na data do dia dos namorados eu subi até o escritório onde Anita trabalhava com a caixinha na mão mas mantive ela atrás das costas para manter a surpresa. Ficaram olhando para minha cara como se eu fosse um estranho no ninho. Chamei por Anita, mas ela estava ocupada resolvendo algumas questões ao telefone. Esperei por alguns minutos até ela vir até mim.
– O que foi Fabinho? Disseram que você estava querendo falar comigo.
Eu abri um sorriso. Ela gosta de se fazer de difícil.
– Você não sabe mesmo por que estou aqui?
Ela olhou ao redor, alguns curiosos nos observando.
– Sei não.
– Sabe que dia é hoje não sabe?
– Sei.
– Então?
Silencio.
– Mas...
Antes dela terminar de falar, mostrei a caixinha para ela.
– Para você.
– O que é isso Fabinho? Não estou entendendo.
– Não precisa entender nada meu bem – coloquei a caixinha na mão dela. – Só um presente. Coisas que se dão em datas comemorativas como essa. Caso tenha esquecido.
Ela arqueou as sobrancelhas, mas sem tirar os olhos da caixinha que era muito bonita e sofisticada. Anita pestanejou e eu soube que ela tinha gostado.
– Não posso ficar – disse ela colocando a caixinha em cima da mesa onde ficava a jarra de café. – Sinto muito.
Anita fechou a cara e voltou para seu lugar, o salto rasgando o silencio que havia se instalado desde a hora que começamos a conversar.
– Anita?
Ela não me respondeu.
Peguei a caixinha como o colar e desci para meu setor e uma chuva de gargalhada me seguiu até o último degrau do escritório. Voltei uma fera. Meu superior me encontrou.
– Estava onde rapaz? – ele olhou para a caixinha em minha mão e depois para meus olhos. Dava pra ver a cara de nojo dele.
– Eu estava no banheiro batendo uma para sua avó.
– Como é que é?
– Ficou surdo, foi.
Quando eu tentei passar por ele, me agarrou pelo ombro e quando me virei a mão dele encontrou meus olhos. Depois não me lembro de mais nada. Só sei que fui dispensado por justa causa e fiquei sabendo depois que o outro havia pegado só uma suspensão de três dias. Mas isso não ia ficar assim não.
Depois que sai do hospital, vendi o colar na favela mesmo e comprei uma arma. Agora vou fazer uma visita profissional a Anita e aos colegas dela. Será que agora ela vai gostar de mim?
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SOMBRAS DA NOITE
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