FAROL

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Mariana evitava o antigo farol como se ele fosse uma espécie de ferida aberta na paisagem, algo que não deveria ser tocado nem olhado por muito tempo, embora isso fosse impossível naquela pequena faixa de litoral onde tudo parecia, de algum modo, organizado em torno dele. Ela não saberia dizer quando esse incômodo começou, apenas que era antigo o suficiente para parecer parte dela, como uma cicatriz que nunca formou memória completa do corte. Às vezes, quando passava rápido demais pela estrada de areia batida ao fim do dia, tinha a impressão de que o farol se movia um pouco no canto do olho, não como algo vivo, mas como algo que lembrava que ainda estava ali, observando. E isso sempre vinha acompanhado de uma sensação física desagradável, uma pressão leve na nuca, como se alguém tivesse encostado um dedo frio ali sem pedir permissão. Ela seguia andando mesmo assim, porque sempre havia coisas para fazer, sempre havia o quiosque, sempre havia contas, clientes, horários, a vida empurrando como maré. Mas o farol permanecia como um pensamento que não terminava de ir embora.

Quando criança, ela tinha lembranças fragmentadas daquele lugar, embora não confiasse nelas. Lembrava-se de subir escadas de metal, de sentir cheiro de ferrugem e óleo velho, de uma luz branca girando como um olho mecânico acima de tudo. Mas essas imagens vinham como pedaços desconectados, sem sequência, como se alguém tivesse rasgado o filme da memória e colado de novo de forma errada. Às vezes ela pensava que talvez nunca tivesse estado ali de verdade, que aquilo fosse apenas algo que tinha ouvido tantas vezes que passou a acreditar. Ainda assim, havia uma certeza desconfortável de que algo dentro dela reconhecia o farol, e isso era pior do que não lembrar de nada. Era como saber que existe uma porta na sua casa que você não se lembra de ter construído.

Seu Manoel sempre esteve lá, como se tivesse sido colocado junto com o próprio farol. Era impossível imaginar um sem o outro. O velho circulava pela praia como se a areia fosse extensão do próprio corpo, carregando sempre o mesmo chapéu de palha gasto, uma camisa com estampas religiosas desbotadas pelo sol e pelo sal, um terço que ele segurava mais como hábito do que como fé consciente. Em uma das mãos, quase sempre, havia uma garrafa pequena de cachaça pela metade, que ele nunca terminava nem abandonava. Ele não parecia um homem exatamente vivo no sentido comum da palavra, mas também não parecia morto; era algo intermediário, como um costume antigo que ninguém teve coragem de interromper. Quando Mariana passava, ele sempre a reconhecia com uma precisão quase desconfortável.

— Boa noite, seu Manoel.

— Boa noite, pequena — ele respondia, tirando o chapéu com um gesto lento, como se esse movimento custasse algo invisível. — Vá com Deus e Nossa Senhora.

— Amém.

Era sempre assim, sempre a mesma troca, como uma peça repetida de teatro que ninguém questionava. Depois disso, ele ainda ficava olhando para o farol, mesmo quando ela já tinha passado, como se continuasse falando com ele em silêncio. Às vezes, ele dizia, sem olhar diretamente para ela, como se a frase não fosse exatamente para alguém específico.

— Nunca tire os olhos do farol.

Ela nunca perguntava o porquê. Não porque não quisesse, mas porque havia algo na forma como ele dizia isso que encerrava qualquer possibilidade de conversa. Era uma ordem antiga demais para ser discutida.

A vida de Mariana no quiosque era intensa de um jeito quase mecânico. O dia começava antes do sol esquentar de verdade e terminava quando a praia já estava vazia, com restos de copos plásticos e pegadas apagadas pela maré. Ela tinha dois funcionários, Keila e um rapaz mais jovem cujo nome ela sempre esquecia por não ter importância prática suficiente para ser fixado. O movimento vinha em ondas imprevisíveis, como se o público fosse atraído não pela comida ou pela praia, mas por algo que ela não conseguia identificar. Havia dias em que mal conseguia respirar entre um pedido e outro, e outros em que o tempo se arrastava com um silêncio estranho, quase desconfortável, como se a própria praia estivesse esperando algo acontecer.

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