O MAJESTOSO

17 1 0
                                        

Afonso Ferreira percebeu, ainda dentro do ônibus, que a dor não era mais só dor. Havia dias em que ela vinha como um incômodo suportável, uma fisgada na têmpora que ele conseguia ignorar com algum esforço e uma promessa vaga de descanso mais tarde. Mas naquela tarde, enquanto o veículo rangia e tremia pelas ruas esburacadas, ele sentia como se algo estivesse pressionando por dentro do osso, empurrando devagar, como se procurasse um caminho de saída. Ele mantinha o dedo indicador apertado contra a lateral da cabeça, mas isso não ajudava. Era como tentar segurar água com a mão fechada.

O ônibus não estava cheio, mas o ar parecia pesado mesmo assim, saturado de suor antigo, combustível e vozes cansadas. Afonso observava as pessoas sem realmente vê-las, apenas registrando silhuetas que falavam alto demais ou em celulares com volume aberto. Em algum ponto entre duas paradas, ele pensou que talvez estivesse ficando velho de uma forma errada, como se o corpo estivesse se desorganizando em silêncio, peça por peça, sem aviso formal. Quando desceu, o impacto do mundo externo foi quase pior. O calor, o barulho, o paredão de som vindo de um bar próximo — tudo parecia vibrar diretamente contra o lado lesionado da cabeça.

Ele atravessou a rua devagar demais para o ritmo da cidade, e por um instante teve a sensação irracional de que os carros demoravam mais do que deveriam para frear, como se testassem sua atenção. Essa ideia o irritou consigo mesmo. Ele não era homem de fantasias. Nunca foi. Ou pelo menos gostava de acreditar nisso. Apertou mais forte a têmpora e seguiu até o portão do prédio onde morava, tentando se convencer de que, em breve, estaria em silêncio.

Foi quando dona Ozília apareceu.

A porta do apartamento 05 se abriu num estalo seco, e ela surgiu como sempre surgia — antes mesmo de ser chamada pela realidade. Vassoura em mãos, cabelo preso em bobes, olhos pequenos que pareciam medir o mundo inteiro como uma lista de reclamações ainda não feitas. Ela sorriu ao vê-lo, mas era um sorriso automático, desses que já vinham prontos antes da conversa começar.

— Ora, ora, se não é o Afonso... tudo bem, meu filho? — disse ela, inclinando a cabeça. — Você anda sumido. Estava querendo te ver...

Afonso parou no meio do corredor estreito. Sentiu a dor pulsar mais forte como resposta àquela presença.

— Tá tudo bem — respondeu, rápido demais.

Ela o observou com atenção demais para quem não estava realmente preocupada.

— Tá mesmo? Seu rosto tá... estranho.

Ele soltou um ar pelo nariz, quase uma risada sem humor.

— Eu tô bem, dona Ozília.

Ela olhou o relógio na parede como se aquilo explicasse alguma coisa sobre ele.

— Tá cedo ainda... são nem... — ela hesitou, como se o tempo tivesse perdido importância — ...mas tudo bem.

Ele já começava a se virar quando ela lembrou, como quem puxa um fio esquecido:

— Ah, Afonso... não esquece do aspirador, viu? Já faz semanas que te emprestei e—

Ele fechou os olhos por um segundo longo demais.

— Eu já devolvi.

— Já? — ela franziu o rosto.

— Semana passada.

O silêncio que veio depois não foi exatamente desconforto. Foi uma espécie de desajuste, como se a realidade tivesse perdido a linha por meio segundo. Então ela sorriu outra vez, daquele jeito automático que incomodava mais do que qualquer cobrança.

— Ah... é verdade. Claro. Como eu poderia esquecer.

Mas ele não esperou mais nada. Subiu as escadas sentindo a cabeça vibrar a cada degrau, como se algo lá dentro respondesse ao movimento do corpo.

SOMBRAS DA NOITEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora