ABDUÇÃO

88 11 7
                                        

Toda vez que fecho os olhos, eu me lembro.

Não é um sonho. Nem um pesadelo. É uma memória. Mas ela vem como os sonhos vêm: turva, fluida, fragmentada. Os detalhes dançam nas bordas da minha mente, fugindo antes que eu consiga agarrá-los. E toda vez que a memória vem, meu nariz sangra. O sangue é quente, salgado, e quando sinto o gosto metálico na boca, sei que tudo aquilo é real.

A primeira coisa que sempre lembro é a sala. Branca. Não um branco comum, mas algo antinatural, como se fosse pintado com a luz de uma estrela morta. O ar era asséptico, frio, com aquele cheiro químico de laboratório. O tipo de cheiro que se infiltra nas narinas e na alma. E então havia eles. As coisas. Baixas, magras, cinzentas, com aqueles olhos grandes e negros como buracos sem fundo. Olhos que pareciam engolir a luz e, com ela, qualquer esperança. Não havia emoção neles. Ou talvez houvesse, mas era algo tão alienígena que meu cérebro humano não conseguia decifrar. Quando me olhavam, eu me sentia como um inseto preso numa lupa, queimando ao sol.

Não sei quanto tempo passei naquela sala. Minutos? Horas? Tudo era distorcido, como um filme antigo passando em câmera lenta. Eles me cercavam, estudando, mexendo. E então, sempre, vinha o vazio. Quando eu acordava, estava de volta à minha cama, em casa. Tudo parecia um sonho, mas o sangue... O sangue era real.

Procurei ajuda. Quem não procuraria? O que você faz quando acorda toda noite com sangue escorrendo pelo rosto e lembranças de criaturas que desafiam qualquer lógica? Encontrei um psicanalista chamado Euclides. Ele era baixinho, careca, com aquele cheiro permanente de tabaco barato. Tinha a voz profunda de um locutor de rádio e o tipo de sorriso que parece praticado demais.

— Sóstenes — ele disse uma vez, ajustando os óculos enquanto anotava algo num bloco. — O que você está experimentando são devaneios oníricos. Normalmente associados ao consumo de álcool, substâncias químicas ou estresse extremo. Você anda bebendo?

Menti. É claro que menti.

— Não. — Mas a verdade é que eu bebia. Muito. A garrafa era a única coisa que me ajudava a calar as vozes, as lembranças, o cheiro daquela sala. Mas as visitas... elas começaram antes de eu pegar no copo. Começaram antes de eu saber o que era a bebida.

Tentei explicar isso para minha esposa. Ela me olhou como se eu fosse louco. Não a culpo. Você acreditaria em algo assim? Ela tentou por um tempo, mas, no final, foi embora. Pegou as malas e deixou um bilhete na mesa, algo clichê, como "Espero que você encontre ajuda". Ajuda. Como se ajuda fosse possível.

Euclides também desistiu de mim. Ou talvez nunca tenha me levado a sério. Eu era só mais uma história bizarra para ele contar em suas palestras. Mais um "caso curioso". Mas o que quer que ele pensasse, não importava. Porque eles continuavam vindo.

E toda vez que vinham, eu me lembrava. Eu lembrava daquelas mãos magras segurando instrumentos que brilhavam de forma sinistra. Lembrava do feixe de luz branca que queimava meus olhos, forte como o sol no verão. E lembrava do que eles faziam comigo.

Eles eram precisos. Cirúrgicos. Me cortavam, me examinavam, colhiam coisas que eu preferia não lembrar. Sangue. Tecidos. Pele. Até esperma. Eles não deixavam marcas. Era como se fossem perfeitos na sua monstruosidade. E eu? Eu não era nada. Nem uma pessoa, nem um ser. Apenas um objeto.

O mais estranho é que isso não começou agora. A primeira vez que eles vieram, eu era uma criança. Eu tinha sete anos e lutava contra um câncer que os médicos diziam ser terminal. Meus pais choravam todas as noites, mas, de repente, o câncer desapareceu. Sumiu como se nunca tivesse existido. Os médicos chamaram de milagre. Meus pais agradeceram a Deus. Mas eu sabia a verdade.

Eu sabia que eles tinham feito algo comigo.

O problema é que você não consegue viver com isso. Você tenta. Você finge que tudo está bem. Vai trabalhar, paga as contas, sorri para os vizinhos. Casei novamente, tive filhos. Uma esposa maravilhosa, três crianças lindas. Mas às vezes, quando olho para eles, penso: "Será que um dia virão buscá-los também?" A ideia me corrói por dentro.

Agora mesmo, enquanto escrevo, minha esposa está dormindo no quarto ao lado. Já tentei contar para ela. Duas vezes. Mas sempre paro, porque, no fundo, sei que ela também vai achar que estou louco. Não importa. Ninguém acredita.

Só que eles estão aqui. Eu sei que estão.

As luzes começaram há vinte minutos, um brilho difuso lá fora, como o reflexo de algo enorme pairando no céu. Eu ouço passos. Na primeira vez que ouvi esses passos, achei que fosse um ladrão. Mas ladrões não vêm acompanhados de um zumbido tão grave que faz seus ossos vibrarem. Não vêm acompanhados daquele cheiro de metal quente, queimado, que enche a casa inteira.

O som parou agora. Está silencioso. Quieto demais.

Não vou abrir a porta, mas não importa. Eles vão entrar de qualquer jeito. Sempre entram.

E quando acordar amanhã, tudo isso será um sonho outra vez. Um sonho manchado de sangue.

SOMBRAS DA NOITEOnde histórias criam vida. Descubra agora