Sofia tinha a sensação de que havia algo errado desde o dia em que voltou da floresta, embora não soubesse explicar exatamente o quê. Não era uma lembrança clara, organizada como uma história com começo, meio e fim, mas sim uma espécie de fragmento preso na borda da consciência, como um sonho ruim que insiste em permanecer mesmo depois de acordar. Às vezes, enquanto lavava a louça ou olhava pela janela do ônibus a caminho do centro da cidade, ela tinha a impressão de ouvir novamente aquele silêncio pesado entre as árvores, aquele tipo de silêncio que não era ausência de som, mas presença de alguma coisa observando. E então vinha o rosto dele — ou melhor, a ausência de rosto, coberta pelo chapéu preto e pelas sombras de um terno antigo que parecia sempre um pouco fora de época, como se não pertencesse ao mundo em que Sofia insistia em continuar vivendo.
Ela lembrava da primeira vez em que o viu com clareza, ou pelo menos o que passava por clareza naquele contexto. Tinha sido no limite da floresta, onde o chão começava a ficar mais irregular e as raízes se erguiam como dedos de algo enterrado tentando escapar. Ela tinha voltado ali depois de dizer a si mesma que não voltaria, porque precisava provar que aquilo tinha sido apenas imaginação, talvez uma reação de estresse, talvez o tipo de confusão mental que acontece quando alguém passa tempo demais sozinha com os próprios pensamentos. Mas a floresta não parecia interessada em aceitar explicações simples. Quando ela se virou, depois de achar que estava sozinha, ele não estava mais lá. E isso deveria ter sido um alívio. O problema era que o alívio não veio. Veio outra coisa, mais lenta, mais densa, como se o mundo tivesse respirado fundo e segurado o ar dentro dos pulmões.
O som veio primeiro. Um estalo seco, como galho quebrando sob um peso que não deveria estar ali. Sofia se virou devagar, antes mesmo de querer se virar, como se o corpo já soubesse o que veria antes da mente aceitar. E então ele estava lá. Não correndo, não se escondendo, apenas se aproximando com uma calma que não combinava com nada humano. A mente dela tentou preencher o vazio do rosto, tentou encontrar olhos, expressão, qualquer coisa que tornasse aquilo compreensível. Mas havia apenas a sensação de um olhar, intenso demais para ser ignorado, como se ele estivesse dentro dela em vez de diante dela.
Ela recuou, e foi nesse movimento que o mundo falhou sob seus pés. A raiz estava ali, exatamente onde sempre esteve, mas naquele instante parecia ter sido colocada ali com intenção. A queda foi desajeitada, brutal, e o impacto fez o ar sair dos pulmões de um jeito que a deixou temporariamente sem som. Quando tentou respirar, sentiu a presença dele mais perto, não como um passo audível, mas como uma mudança na pressão do ambiente. E então ele estava ao lado dela, agachado ou curvado de um jeito que não parecia natural para alguém vestido daquela forma antiga. Um dedo encostou em seus lábios com uma delicadeza perturbadora, como se aquilo fosse um gesto íntimo, quase cuidadoso.
— Ainda não — ele disse, e a voz não era alta nem baixa, mas parecia surgir de um lugar atrás dos pensamentos dela. — Não precisa disso ainda.
Ela tentou gritar mesmo assim. O reflexo veio antes da decisão, mas nenhum som saiu. Foi como se o próprio ar tivesse esquecido como se mover através da garganta dela. Quando percebeu que não conseguia, o pânico não veio como explosão, mas como uma infiltração lenta, espalhando-se pelos braços, pelas pernas, até deixar tudo pesado demais para reagir. Ele a ergueu com facilidade, como se ela não tivesse peso algum, e isso deveria ter sido impossível de ignorar, mas naquele momento parecia apenas mais uma regra do mundo sendo silenciosamente alterada.
A floresta ao redor começou a perder definição, não como neblina, mas como memória sendo apagada enquanto ainda estava acontecendo. E então havia o portal, embora a palavra não fizesse sentido para ela naquele instante. Era mais como uma ausência dentro da realidade, uma falha onde o espaço se dobrava para dentro de si mesmo. Do outro lado, havia cores que não deveriam existir juntas, sons que pareciam vir de lugares diferentes ao mesmo tempo, e uma sensação constante de que o corpo dela estava sendo lembrado de uma forma que não era saudável.
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SOMBRAS DA NOITE
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