SÓ OS FORTES SOBREVIVEM

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O vírus não teve pressa, mas também não teve piedade. Ele atravessou o planeta como uma ideia inevitável, dessas que ninguém consegue mais impedir depois que começam a acontecer. Primeiro cidades, depois países inteiros, depois continentes que deixaram de ser referência para virar apenas nomes antigos em mapas que ninguém mais consultava. E, de algum modo que ele nunca conseguiu explicar direito a si mesmo, foi assim que eu descobri que era um dos últimos a ainda estar acompanhando tudo aquilo — ou talvez apenas o último a ainda fingir que havia algo a ser acompanhado.

No começo havia vozes. Médicos falando em teleconferências interrompidas por chiados. Jornalistas tentando manter a postura enquanto o fundo das imagens já mostrava corredores vazios e luzes piscando em hospitais colapsados. Depois vieram os cortes de transmissão, os comunicados cada vez mais curtos, e então o silêncio, aquele tipo de silêncio que não é ausência de som, mas ausência de mundo.

Eu tinha dinheiro. Isso é importante dizer, embora não pareça importante quando você já entende o fim da história. Tinha o suficiente para me preparar, para construir um abrigo, para estocar comida, medicamentos, energia. Eu fiz isso com uma eficiência quase mecânica, como se estivesse resolvendo um problema de matemática e não assistindo ao fim da própria espécie. Mas nada disso tinha relação com o que realmente me destruía.

Roberta.

Ela e nossas duas filhas foram levadas antes de tudo acabar. Intubadas, isoladas em um corredor branco demais, com máquinas que faziam o trabalho de lembrar que ainda havia respiração. Eu ficava do lado de fora, observando através de vidro, como se aquilo fosse uma forma de participação. Como se presença fosse alguma coisa que ainda significasse controle. Quando elas se foram, não houve drama cinematográfico nem despedida clara. Houve apenas a continuidade das máquinas por alguns segundos a mais do que deveriam e depois o vazio técnico, limpo, irreversível.

Depois disso, o mundo terminou de verdade.

As soluções vieram em escala industrial. Bombas de nêutrons. Limpeza. Reset. Palavras bonitas para coisas que não tinham nada de bonito. A humanidade não acabou com gritos, acabou com decisões administrativas. E então restou apenas a radiação, o silêncio e eu dentro do meu bunker, tentando aprender a viver numa coisa que já não era vida.

Foram dez anos assim.

Dez anos com o som da ventilação constante, com cartas de baralho que eu organizava como se houvesse alguma ordem escondida nelas, com rádios que chiavam notícias antigas sobre níveis de contaminação e áreas seguras que nunca eram para mim. Eu falava sozinho em alguns dias. Em outros, não falava nem mesmo em pensamento. A solidão não chega de uma vez; ela vai reorganizando o interior da gente até que tudo parece normal.

Eu sobrevivi à radiação quando não era para sobreviver. Sobrevivi à espera quando não era para existir espera. E, no fim, sobrevivi porque não sabia mais fazer outra coisa.

Quando finalmente saí, o mundo parecia menor. Ou talvez eu fosse maior do que ele agora, distorcido por anos de confinamento. O céu era mais pálido do que eu lembrava, e o vento tinha uma textura estranha, como se tivesse sido lavado demais. As ruínas estavam por toda parte, mas não havia nada de dramático nisso. Ruínas são apenas o que sobra quando o tempo continua trabalhando depois que tudo mais para.

Foi então que eu a procurei.

Porque havia uma coisa que eu nunca tinha conseguido parar de acreditar, mesmo quando isso já não fazia sentido algum: Roberta ainda existia em algum lugar. Não como memória, não como ausência, mas como presença. Eu precisava acreditar nisso porque a alternativa era simples demais e impossível de suportar.

Foram semanas andando entre estruturas quebradas e praças tomadas por vegetação nova demais para ser confiável. Até que eu a vi.

Ela estava sentada sob a sombra de um prédio parcialmente desabado, como se tivesse escolhido aquele lugar por gosto e não por sobrevivência. E o mais estranho não era ela estar viva. O mais estranho era ela parecer em paz.

— Eu sabia que você ia voltar — ela disse quando me viu.

A voz dela me atingiu com uma força que não tinha nada a ver com emoção e tudo a ver com reconhecimento.

Quando a abracei, senti algo que tinha esquecido que existia. Peso humano. Calor humano. Realidade humana.

— Pensei que nunca mais ia ver esse sorriso — eu disse, tentando organizar a própria voz, como se ela tivesse enferrujado dentro de mim — nem tocar nesses seus cachos.

Ela sorriu daquele jeito que eu lembrava demais e ao mesmo tempo não lembrava o suficiente, como se a memória fosse sempre uma versão incompleta da pessoa real.

— Qual a primeira coisa que você quer fazer agora? — perguntei, sem saber se ainda fazia sentido planejar qualquer coisa.

Ela riu baixo, como se a resposta já estivesse pronta há muito tempo.

— Comer — ela disse. — Comer comida de verdade. E depois... depois a gente volta a viver.

Havia algo de perigoso na simplicidade daquela frase. Algo que parecia grande demais para caber num mundo destruído.

Fomos até o restaurante do chamado Novo Mundo, um lugar reconstruído entre escombros, onde sobreviventes tentavam imitar normalidade como se isso fosse uma habilidade recuperável. Comemos até não conseguir mais pensar em fome. E por um tempo, isso pareceu suficiente.

Depois, quando saímos, o céu já tinha mudado de cor.

Ela segurou meu braço e disse, como se estivesse comentando o clima:

— Sua esposa... e suas filhas... você ainda pensa nelas?

A pergunta não veio com crueldade. Veio com naturalidade demais.

— Estão mortas — eu respondi.

E, ao dizer isso, percebi que a frase já não me destruía como antes. Só reorganizava alguma coisa dentro de mim.

Ela assentiu, satisfeita com a resposta, como se aquilo resolvesse uma equação antiga.

— Então a gente não deve mais nada a ninguém — ela disse.

E eu queria acreditar nisso. Eu realmente queria.

Porque naquele mundo reconstruído sobre cinzas, a única coisa mais perigosa do que a solidão era a ideia de que ela tinha acabado.

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