Ele ainda conseguia sentir a chuva mesmo depois de acordar, como se a água tivesse entrado por baixo da pele e decidido ficar. Era uma lembrança insistente, quase física, que voltava em ondas curtas sempre que fechava os olhos por tempo demais. Corria. Era isso que mais lembrava. Corria como se algo atrás dele não tivesse só intenção de alcançá-lo, mas de apagá-lo do mundo, como se sua existência fosse um erro que precisava ser corrigido com pressa. As criaturas vinham em silêncio em alguns momentos, e em outros pareciam feitas de ruído, um ruído pesado que vibrava nos ossos.
A memória de Daiana surgia sempre no meio disso, não como saudade, mas como um incômodo, como uma pedra dentro do sapato que ele insistia em não tirar. Ele tentava pensar nela de forma objetiva, como uma sequência de fatos que não tinham mais poder sobre ele, mas o cérebro não obedecia dessa forma. Ela vinha com o cheiro de álcool barato, com o gosto metálico de noites mal dormidas, com o som da voz dela misturada a risos que pareciam sempre fora de lugar. Ele se lembrava dela falando sobre tatuagens como se fossem mapas de algo que ele não queria entender, como se cada desenho na pele dela fosse uma porta que não deveria ser aberta.
Na época, ele dizia a si mesmo que aquilo era só juventude, exagero, caos doméstico comum de gente que não sabia se segurar no mundo. Mas havia noites em que ele não tinha tanta certeza. Noites em que Daiana falava sozinha por longos minutos, olhando para o teto como se alguém estivesse respondendo do outro lado, e depois voltava ao normal como se nada tivesse acontecido. Ele lembrava do jeito como ela ria dele nesses momentos, como se ele fosse o ingênuo dentro daquela história, não ela. E essa dúvida, pequena no começo, crescia depois como mofo em parede úmida.
O dia em que tudo desabou não tinha nada de especial no começo. Era só mais uma briga, mais uma repetição de um padrão que já parecia inevitável. Daiana estava dopada, o corpo leve demais para o próprio peso, sentada na janela como se o mundo lá fora fosse um filme que ela assistia sem interesse real. Ele tinha chegado cansado, com aquela irritação acumulada de trabalho e contas, e o detalhe das roupas dela tinha sido só o estopim de algo que já estava em combustão há muito tempo.
— Que porra é essa, Daiana? — ele ouviu a própria voz antes mesmo de pensar, e isso o assustou um pouco depois, como sempre acontecia quando lembrava daquele momento. — Você quer sair assim pra rua enquanto eu me mato de trabalhar?
Ela não respondeu de imediato. Tragou o cigarro como se ele não estivesse ali, como se ele fosse parte do mobiliário da casa. Havia algo naquele silêncio que o incomodava mais do que qualquer insulto. Era como se ela estivesse olhando para algo que ele não podia ver, atrás dele, no canto da sala, algo que fazia mais sentido para ela do que ele.
— Eu tô cagando pra suas baboseiras — ela disse finalmente, sem sequer virar o rosto.
E foi ali, nesse intervalo mínimo entre uma frase e outra, que algo nele quebrou sem aviso. Não foi explosão, não foi fúria cinematográfica. Foi mais como um desligamento interno, como se uma parte racional tivesse simplesmente desistido de intermediar o que o corpo fazia. Ele se levantou, ouviu a própria respiração como se fosse de outra pessoa e atravessou o espaço entre eles como se estivesse andando dentro de água.
O resto vinha sempre em fragmentos desconfortáveis. O som seco. O impacto. O corpo caindo como algo que não tinha mais decisão própria. Depois, o silêncio estranho que seguiu, como se até a cidade tivesse parado para ouvir melhor o que tinha acabado de acontecer. Ele lembrava de não sentir exatamente medo naquele instante, mas uma espécie de vazio surpreso, como se tivesse assistido a um evento impossível acontecer pelas próprias mãos.
Depois disso, a vida não voltou ao normal, embora ele tentasse fingir que sim. Mudou de casa, evitou pessoas, começou a tomar remédios que deixavam o mundo mais lento e mais distante. Mas a distância não ajudava. À noite, quando o corpo finalmente relaxava, era como se algo aproveitasse a abertura para entrar. Primeiro foram sombras que ele atribuía ao cansaço. Depois olhos vermelhos, discretos, quase educados, aparecendo nos cantos mais escuros da casa. E então o movimento. Pequenos deslocamentos de ar. A sensação de que havia sempre alguém prestes a atravessar uma porta que ainda não tinha sido aberta.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
