Sarah não costumava acreditar em histórias de fantasmas. Quando era criança, acreditava em coisas muito piores — acreditava, por exemplo, que seu pai algum dia deixaria de beber, que a mãe voltaria para casa depois de sair para comprar cigarros numa manhã chuvosa de novembro, que pessoas quebradas podiam simplesmente acordar diferentes. Fantasmas, comparados a isso, pareciam até reconfortantes. Fantasmas tinham lógica. Tinham motivo para permanecer. Os vivos é que eram imprevisíveis.
Enquanto caminhava pela Rua Bellmore naquela noite, com as mãos enterradas nos bolsos do casaco e o vento frio cortando suas bochechas como lâminas cegas, ela não conseguia afastar a sensação de estar repetindo alguma coisa que já havia acontecido antes. Não exatamente um déjà vu, mas algo mais profundo e viscoso, como uma lembrança esquecida tentando subir de um lugar escuro da mente. A cidade estava silenciosa àquela hora. As vitrines apagadas, os postes antigos zumbindo baixo, fios elétricos dançando no vento como cordas tensionadas. Em algum lugar distante, um cachorro latiu duas vezes e depois calou de repente, como se tivesse percebido alguma coisa.
Ela continuou andando.
A mansão Bellmore ficava no fim da rua, atrás de uma fileira de árvores mortas que pareciam mãos retorcidas saindo da terra congelada. Sarah lembrava de passar por ali quando criança dentro do carro da mãe. A mãe acelerava um pouco naquele trecho sem jamais olhar diretamente para a casa. Uma vez, quando Sarah tinha nove anos, perguntou por quê.
— Porque certas casas olham de volta — a mãe respondeu.
Na época, aquilo parecera apenas uma frase estranha de adulta cansada. Agora, tantos anos depois, enquanto encarava as janelas escuras da mansão, ela sentia um desconforto rastejando pela nuca ao lembrar daquilo.
A casa estava pior do que imaginava.
A estrutura inclinava levemente para a esquerda, como um homem velho sustentando o próprio peso por teimosia. A tinta havia desaparecido quase por completo sob camadas de umidade e fungo, e as janelas quebradas refletiam a luz da lua em pequenos fragmentos tortos. A hera subia pelas paredes como veias grossas e doentes. O vento passava pelos buracos da construção produzindo um assobio baixo, irregular, parecido com alguém respirando pela boca.
Sarah parou diante do portão enferrujado e ficou imóvel por alguns segundos. Sentia o coração bater forte demais para uma simples caminhada noturna. Havia algo errado naquele lugar. Não errado como lugares abandonados normalmente eram. Não era apenas decadência ou silêncio. Era outra coisa. Uma sensação íntima, quase pessoal, como entrar na casa de alguém logo depois de uma briga violenta.
Ela passou pelo portão.
O metal soltou um rangido agudo que ecoou pela propriedade inteira, e naquele instante Sarah teve a impressão absurda de que a casa despertava. Não literalmente, claro. Ela não era criança. Não acreditava em casas vivas. Mas ainda assim alguma coisa mudou no ar. O vento pareceu diminuir. O silêncio tornou-se mais pesado.
Os degraus da varanda cederam sob seus pés com estalos secos. O cheiro de madeira molhada e terra apodrecida era tão forte ali que ela sentiu gosto de ferrugem na boca. Quando tocou a maçaneta, percebeu que estava gelada demais, muito além do frio normal da noite. Hesitou. Parte dela queria ir embora imediatamente, voltar para o apartamento pequeno e quente onde poderia fingir que aquela obsessão não existia. Mas fazia três noites seguidas que sonhava com a casa. Três noites vendo corredores escuros, ouvindo alguém chamá-la pelo nome num sussurro rouco e distante.
E nos sonhos havia sempre uma mulher chorando.
Sarah empurrou a porta.
O interior da mansão parecia preso fora do tempo. O cheiro atingiu-a primeiro: mofo, poeira, tecido úmido e alguma coisa mais profunda, adocicada e podre, como flores esquecidas dentro de um caixão. O chão de madeira estalava sob seus passos, e partículas de poeira giravam no ar à luz fraca da lanterna do celular. O feixe iluminava móveis cobertos por lençóis amarelados, retratos tortos nas paredes e manchas escuras espalhadas pelo teto.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
