Sarah caminhava pelas ruas sombrias da cidade, os pés pesados como se a noite tivesse absorvido toda a energia do mundo. O vento cortante soprava pelas ruelas estreitas, empurrando-a para frente, como se a forçasse a seguir um destino desconhecido. A escuridão parecia engolir tudo ao seu redor, mas ela não sentia medo, apenas um vazio incômodo, uma sensação de que algo a observava de algum lugar. Sua mente estava centrada em um único pensamento, um pensamento que a atormentava há dias.
A casa. A mansão. A antiga e decadente mansão que havia se tornado uma lenda na cidade, falada em sussurros como uma história esquecida. Uma casa que o tempo parecia ter devorado, mas que ainda assim, de alguma maneira, resistia ao abandono. Sarah ouvira os rumores — a casa estava assombrada, dizia-se. Que ela guardava segredos, mistérios que ninguém mais ousava explorar. Que qualquer um que se aproximasse sentia um calafrio indescritível, um toque gélido de algo que não era deste mundo.
Ela não sabia o que a atraía até lá. Não era curiosidade, ou pelo menos não apenas isso. Era algo mais profundo, algo que se enraizava no fundo de sua alma e a empurrava para aquele lugar como uma força invisível. Ela sentia como se tivesse um destino a cumprir, algo a ser descoberto, uma verdade enterrada sob o pó e o mofo de anos de abandono.
A mansão finalmente apareceu diante de seus olhos, sua silhueta imponente recortada contra o céu escuro. Mesmo desmoronada, ainda exibia a grandeza que um dia teve. Suas paredes, uma vez brancas e imaculadas, agora estavam cobertas por uma espessa camada de hera e musgo. As janelas, que um dia refleteram a luz do sol, estavam quebradas, com cacos de vidro espalhados pelo chão como fragmentos de um sonho esquecido. Mas havia algo mais. Algo que ela não conseguia identificar. Uma presença, um peso no ar que fazia sua pele se arrepiar.
Sarah parou na porta da mansão, hesitante. A madeira envelhecida rangia, como se soubesse que ela não deveria estar ali. Mas então, como uma marionete guiada por fios invisíveis, ela empurrou a porta com uma força que parecia vir de outro lugar. O barulho do ferrolho se soltando foi como um grito no silêncio da noite, e ela entrou.
A casa estava em total silêncio. Cada passo que ela dava fazia o piso de madeira ranger sob seus pés, como se a casa estivesse protestando contra sua invasão. Ela percorreu os corredores escuros, seus olhos se ajustando à penumbra. O cheiro de mofo e decadência era forte no ar, misturado com o gosto amargo de um tempo perdido. Não havia sinais de vida, apenas o vazio profundo de um lugar que havia sido deixado para morrer.
Mas então, conforme Sarah se aprofundava mais nas entranhas da mansão, algo começou a mudar. A sensação que ela sentia — aquela sensação estranha e indesejada de ser observada — aumentava a cada segundo. Era como se os próprios cômodos estivessem vivos, como se os olhos invisíveis de algo ou alguém estivessem fixados nela. Ela parou, imóvel, tentando ouvir. O silêncio era absoluto, mas ainda assim, o ar estava pesado, tenso, carregado com uma energia sombria.
Foi então que ela ouviu o som.
Um estalo. Seguido por outro. E então, um sussurro baixo e abafado. Sarah se virou, os músculos tensos, o coração batendo mais rápido. Não havia nada, mas o som continuava, vindo de algum lugar distante, do fundo da casa. Ela deu um passo em direção à origem dos ruídos, mas sua mente estava em alerta, gritando para que ela fugisse, para que ela saísse dali antes que fosse tarde demais. Mas ela não podia. Algo a mantinha lá. Algo que a chamava.
De repente, a porta ao seu lado se abriu com um estrondo, a madeira batendo contra a parede com força suficiente para fazer o corpo de Sarah saltar para trás. Ela ficou paralisada por um momento, sem saber se deveria correr ou se aproximar. Então, a porta se fechou sozinha, e Sarah ouviu o som de passos atrás de si. Alguém estava ali, alguém estava seguindo-a, mas quando ela olhou para trás, não havia ninguém.
O pânico começou a tomar conta dela, mas, como uma marionete incapaz de se libertar dos fios invisíveis que a controlavam, ela continuou a andar, o som de seus próprios passos soando como um eco macabro pela casa.
Foi quando ela ouviu o grito. Um grito tão horrível e estridente que parecia rasgar a noite e dilacerar seus ossos. O som ecoou pelas paredes, atravessando os corredores e penetrando em sua mente. Um grito de dor, de sofrimento, de algo que já havia sido perdido há muito tempo.
Sarah correu em direção ao som, seu corpo em chamas de medo e curiosidade, até que chegou a um quarto no final do corredor. A porta estava aberta, e o escuro do interior parecia engolir a luz que ainda tentava escapar. Ela entrou, os pés fazendo um ruído abafado sobre o chão empoeirado.
No centro do quarto, flutuando a alguns centímetros do chão, estava a mulher. Uma figura pálida, envolta em roupas antigas e esfarrapadas, seus cabelos negros caindo sobre os ombros como uma cortina de seda. Ela estava imóvel, os olhos fixos em Sarah, olhos vazios, profundos, como se o próprio abismo estivesse ali, refletido em seu olhar.
— Você não deveria estar aqui — disse a mulher, sua voz fria e vazia, como se estivesse falando de algum lugar distante, além da própria realidade. — Esta é a minha casa.
Sarah sentiu o gelo tomar conta de sua espinha, mas tentou falar, tentou explicar que não estava ali para causar mal. Que ela apenas queria entender, queria saber o que havia acontecido. Mas a mulher não acreditou. Ela sorriu, um sorriso vazio e distante, e disse com uma calma terrível:
— Todos que entram aqui devem pagar.
Sarah tentou correr, mas quando olhou para a porta, percebeu com horror que estava trancada. As janelas estavam seladas, como se a própria casa tivesse decidido aprisioná-la ali. Ela tentou abrir a porta, socando-a, batendo, mas não havia saída. O medo se alastrava dentro dela como uma doença, e seu coração disparava enquanto ela olhava para a mulher, que agora flutuava mais perto, como se estivesse a apenas um passo de tocá-la.
Foi quando o escuro tomou conta completamente, e Sarah soube, com uma clareza aterradora, que não sairia dali. A casa a havia escolhido, e agora ela faria parte de seus segredos.
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SOMBRAS DA NOITE
HororEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
