SOCORRISTA

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Nilton entrou no banheiro do terminal rodoviário como quem atravessa um limite que preferia não notar. Não havia nada de objetivamente errado no lugar — era apenas mais um banheiro público, com azulejos claros demais para disfarçar a idade, cheiro constante de desinfetante barato e um zumbido elétrico vindo das lâmpadas que pareciam cansadas de funcionar. Ainda assim, algo nele já vinha errado desde antes, um aperto crescente no abdômen que ele tentou ignorar enquanto caminhava rápido demais pelo corredor do terminal, como se a velocidade pudesse reorganizar as coisas dentro dele.

A barriga não era apenas incômoda. Era insistente, quase pessoal, como se tivesse uma agenda própria. Nilton conhecia aquele tipo de sensação — não de hoje, não apenas daquela comida suspeita que tinha pegado mais cedo no quiosque — mas de momentos em que o corpo parecia decidir que não obedeceria mais ao contrato básico de cooperação. Ele apertou o passo, tentando manter a postura, porque era isso que fazia sempre: manter a postura. No trabalho, ninguém podia ver hesitação. No trabalho, ele resolvia situações piores do que uma simples urgência intestinal. Pelo menos era isso que repetia para si mesmo, como se a frase tivesse algum poder anestésico.

O banheiro estava quase vazio. Quase. Isso era sempre pior do que completamente vazio. Três mictórios alinhados como se fossem uma ideia mal pensada de organização, três cabines com portas levemente riscadas na parte inferior, marcas de gente que não queria ser lembrada. Uma delas estava ocupada. Nilton não sabia por quê, mas isso sempre lhe causava irritação imediata, irracional. A presença de outro corpo num espaço tão pequeno transformava tudo em uma espécie de convivência forçada com o desconhecido. Ele escolheu a cabine da esquerda sem pensar muito, mais por impulso do que decisão, e entrou já com a sensação de que o ar ali dentro era mais pesado do que deveria ser.

Fechou a porta e o som metálico da trava ecoou alto demais, como se o banheiro estivesse mais vazio do que realmente era. Ele respirou fundo e soltou o ar devagar, tentando organizar a própria fisiologia em etapas previsíveis. O tipo de coisa que sempre funcionava no trabalho. Separar o problema em partes menores. Resolver uma coisa de cada vez. Mas o corpo não parecia interessado em metodologia. A dor vinha em ondas lentas, espessas, como se tivesse textura.

Nilton ajeitou o papel higiênico na borda fria do assento antes de sentar, um gesto automático, quase supersticioso. Não era exatamente medo de sujeira, era mais uma recusa a qualquer surpresa física desagradável. O mundo já tinha surpresas demais fora do banheiro. Aqui dentro, ele gostava da ilusão de controle. Sentou com cuidado e imediatamente sentiu o peso acumulado na barriga se reorganizar de forma desconfortável, como se algo lá dentro tivesse mudado de posição apenas para lembrá-lo de que ainda estava presente.

Ele olhou o relógio no celular. 19:29. Um número comum, sem importância, mas que naquele momento parecia ter uma lentidão suspeita. O segundo seguinte demorou mais do que deveria para acontecer. Ele piscou, e por um instante teve a impressão de que o som do terminal lá fora tinha ficado mais distante, como se o banheiro estivesse se deslocando alguns centímetros para dentro de si mesmo, isolando-o do resto do mundo.

A lembrança da esposa veio sem convite. Não como saudade, mas como uma constatação fria. Ela estava em casa, provavelmente no mesmo lugar de sempre, com a mesma expressão contida que vinha mantendo há meses. Havia coisas entre eles que não eram ditas, mas também não precisavam ser. Ele pensou na amante também, mas esse pensamento vinha sempre com uma espécie de vergonha tardia, como se não fosse exatamente dele, mas de alguém que ele interpretava mal. No fundo, havia apenas a sensação de que nada se encaixava com firmeza na própria vida.

Foi então que a voz surgiu do outro lado da cabine vizinha.

— Que horas são?

Nilton fechou os olhos por um instante antes de responder. Não gostava de conversar em banheiros, mas havia algo na pergunta que parecia simples demais para ser ignorado.

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