Dizem que sou louca. Eu já ouvi isso tantas vezes que a palavra perdeu o sentido, como uma moeda passada de mão em mão até ficar lisa demais para comprar qualquer coisa. Louca. É o que dizem quando não querem encarar o que está na frente deles. Não é loucura quando um médico prescreve um remédio e o seu corpo reage como se estivesse sendo queimado por dentro. Não é loucura quando um homem destrói uma vida inteira e depois aparece na televisão sorrindo como se nada tivesse acontecido. Mas eu, sim, eu sou a louca. Pelo menos é isso que repetem. Talvez seja mais fácil assim.
Essa ideia de loucura sempre existiu na minha família. Minha mãe era chamada assim, minha avó também, e antes dela outra mulher cujo nome já foi apagado pelas versões mais convenientes da história. Isso não me assustou. Nunca me assustou. Eu sempre soube cuidar de mim. E sempre soube cuidar da Albertina.
Albertina é o centro de tudo. O resto do mundo é apenas ruído ao redor desse fato.
Eu vivo numa chácara antiga, herdada de gerações que ninguém mais se dá ao trabalho de lembrar. Um lugar afastado o suficiente para que as pessoas inventem histórias sobre ele quando passam pela estrada. Aqui eu cultivo ervas. Algumas curam, outras apenas revelam o que já está podre por dentro, e algumas simplesmente terminam o trabalho que o corpo não conseguiu concluir sozinho. As pessoas dizem que vêm até mim em busca de ajuda, mas isso é uma forma bonita de dizer que querem controle sobre o que não entendem. Eu não vendo esperança. Nunca vendi. Eu trabalho com o que existe.
Foi aqui que o telefone tocou.
A voz de Ulisses veio diferente daquela que eu conhecia. Não havia autoridade nela, nem certeza. Apenas desgaste.
— Albertina está muito doente, Beth.
Eu fiquei alguns segundos em silêncio, ouvindo aquilo como quem escuta uma consequência chegando tarde demais.
— O que ela tem?
— Começou com uma tosse. Depois piorou. Agora sai sangue. Eu levei no hospital, mas não adiantou.
Havia algo quase satisfatório na forma como ele dizia aquilo, como se finalmente estivesse descobrindo que o mundo não funciona do jeito que ele imaginava.
Eu ri.
Não deveria ter rido.
— Você deixa uma criança chegar nesse estado e ainda espera solução de hospital?
O silêncio dele respondeu melhor do que qualquer desculpa.
Eu peguei o carro e fui.
Quando cheguei, Albertina estava deitada no sofá, pequena demais para o cobertor que a cobria. Havia um tipo de fragilidade nela que me atravessou de um jeito que eu não gosto de admitir. Crianças não deveriam chegar naquele ponto. Não comigo por perto.
Preparei a infusão. Alcaçuz e outras coisas que não precisam de nome público. Eu conheço o efeito de cada uma delas como se fossem extensões da minha própria memória. Dei a ela em pequenos goles e observei. O corpo luta no início, sempre luta, como se ainda acreditasse que a doença é mais forte do que a resposta.
Mas não é.
A cor voltou. A respiração estabilizou. E quando ela me chamou de mãe, algo dentro de mim cedeu por um segundo, como uma porta antiga destrancando sozinha.
Ainda assim, não era suficiente. Nunca é.
Ulisses chegou no fim da tarde.
Ele estava cansado de um jeito que parecia definitivo. Não era só o corpo. Era a ideia de si mesmo.
— Ela melhorou? — perguntou.
— Sim. Mas precisa ficar comigo.
Ele passou a mão no rosto, como se tentasse organizar pensamentos que não cabiam mais.
— Eu não sei mais o que fazer, Beth.
E então ele fez o erro.
Ele se aproximou demais e tocou meu cabelo como se ainda tivesse direito a isso. Como se os anos não tivessem existido. Como se ele ainda fosse alguém capaz de decidir qualquer coisa sobre mim.
Naquele instante, algo dentro de mim endureceu.
— Faz um chá pra mim? — ele pediu, como se aquilo resolvesse qualquer coisa.
E eu sorri.
— Claro.
Enquanto a água fervia, eu o observei com calma. Ele sempre foi o tipo de homem que acredita que gentileza é uma forma de controle tardio. Bebe rápido, confiante. Nem pergunta o que está tomando.
— Está bom — ele disse depois do primeiro gole.
O corpo começou a reagir antes da mente aceitar.
Suor. Confusão. Um desconforto crescente que ele tentou disfarçar.
— Está muito quente aqui... — murmurou.
— Você sempre teve pressão alta — eu disse.
Ele tentou se levantar. Não conseguiu.
— Beth... o que você fez?
Eu não me movi.
— Um chá.
Ele caiu no chão como se o corpo tivesse finalmente parado de obedecer à ideia de continuar. E quando os olhos dele me encontraram, já não havia compreensão ali. Só atraso.
O silêncio voltou rápido depois disso, como se a casa respirasse de volta.
Eu coloquei Albertina no carro.
Ela dormia, tranquila pela primeira vez em muito tempo.
A estrada de volta parecia diferente, embora fosse a mesma. Talvez porque agora não havia mais nada me prendendo ao lado de lá.
Quando chegamos à chácara, a lua iluminava as árvores com uma luz pálida, quase cirúrgica. Pareciam estar esperando, mas eu sabia que isso era só impressão.
Albertina precisava de mim.
E finalmente tudo estava exatamente como deveria estar.
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SOMBRAS DA NOITE
TerrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
