O JARDINEIRO

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Depois que Athena perdeu o bebê, alguma coisa nela pareceu se deslocar de forma irreversível, como se uma peça interna tivesse sido arrancada e o corpo tivesse continuado funcionando por pura inércia. O médico foi claro ao dizer que novas gestações eram improváveis, talvez impossíveis, mas ela passou a ignorar essa frase como se fosse uma opinião mal informada de alguém que não conhecia o próprio corpo. Nos primeiros meses, ela quase não saía do quarto, recusava ligações, evitava a luz forte da sala, e começou a dizer com uma naturalidade que me assustava mais do que qualquer choro, que ainda sentia a barriga crescer. No início, achei que era apenas luto, uma forma distorcida de negação, mas com o tempo comecei a perceber que ela não falava disso como metáfora. Havia convicção. E isso era pior.

À noite, a casa parecia mudar de comportamento. Eu acordava sem motivo, com a sensação de que alguém tinha me chamado em voz baixa, ou pior, com um choro de criança que não vinha de lugar nenhum específico, mas parecia preencher os corredores como fumaça. Eu levantava devagar, tentando não acreditar no que ouvia, mas ainda assim caminhava até o quarto que havíamos preparado com tanta expectativa e que agora parecia uma espécie de mausoléu doméstico. Não havia nada lá além de silêncio e o cheiro parado de roupa guardada. Athena, ao meu lado, às vezes permanecia imóvel, às vezes não estava na cama, e quando estava, respirava com uma calma que me parecia ofensiva demais para alguém que dizia ouvir o mesmo que eu.

— O que foi? — ela perguntou certa noite, quando voltei para a cama depois de mais uma ida inútil ao quarto vazio.

— Nada — respondi, sentindo a garganta seca como se eu tivesse engolido poeira.

— Você está pálido.

— Não é nada. Já disse.

Ela não insistiu, mas ficou me olhando no escuro por tempo demais. Eu conseguia sentir o olhar dela mesmo sem ver, como se fosse uma pressão constante na lateral do meu rosto. Aquilo não era normal, e o pior era que eu já não sabia se estava falando da casa, dela ou de mim. Havia noites em que eu tinha certeza de que não era só Athena que estava mudando, mas o próprio modo como eu percebia as coisas, como se algo estivesse lentamente ajustando a realidade sem pedir permissão.

Foi nesse estado que decidimos viajar. Um fim de semana num hotel de montanha no interior do Espírito Santo, uma promoção qualquer que eu nem lembrava de ter visto direito. Athena relutou no começo, como se sair de casa fosse uma espécie de traição silenciosa ao que ela vinha sentindo, mas depois de algumas horas na estrada, o corpo dela pareceu relaxar de uma forma quase imperceptível. Ela encostou a cabeça no vidro e observou a paisagem como se estivesse tentando se lembrar de como era existir fora das paredes do quarto. A viagem foi curta, três horas no máximo, mas para mim pareceu um deslocamento mais longo, como se estivéssemos atravessando não apenas distância, mas um tipo de intervalo entre versões diferentes de nós mesmos.

O hotel era pequeno, isolado, com uma arquitetura que tentava ser acolhedora sem ter muita certeza de como fazer isso. Havia poucas pessoas na recepção, poucas vozes, e uma sensação estranha de espaço demais para tão poucos corpos. O jardim era bem cuidado, flores organizadas com precisão quase obsessiva, e o cheiro doce delas entrava pelas janelas como uma presença insistente. O funcionário que nos recebeu explicou tudo com uma cordialidade ensaiada, como se repetisse aquilo dezenas de vezes por dia para ninguém em particular. Um homem alto, forte, que mais tarde eu veria novamente no jardim. Ele se apresentou como Walid quando nos encontrou ali fora, mexendo nas plantas, como se o hotel fosse apenas uma extensão do trabalho dele e não o contrário.

Athena, naquele primeiro dia, parecia melhor do que vinha sendo há meses. Havia uma leveza nela que eu não via desde antes da perda, algo que me deixou desconfortável sem eu saber explicar exatamente por quê. Passamos a tarde na piscina, conversando pouco, mas sem o peso habitual entre nós. O tempo parecia ameno demais, quase artificial, como se alguém tivesse regulado o clima para não incomodar ninguém. À noite, fomos ao bar, que estava quase vazio, e essa ausência de pessoas deveria ter me tranquilizado, mas só aumentou a sensação de que o hotel era maior por dentro do que por fora.

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