TONS DA JORNADA

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Joana já estava arrependida antes mesmo de atravessar a porteira caída que marcava o início da trilha. Não era exatamente medo ainda, embora talvez o medo começasse assim, pequeno e difícil de reconhecer, misturado ao cansaço e à sensação persistente de que alguma decisão errada já havia sido tomada muito antes daquele momento. O céu da manhã permanecia fechado sobre as montanhas, pesado de um cinza úmido que prometia chuva para mais tarde, e a mata diante dela parecia densa demais, compacta demais, como se as árvores houvessem crescido próximas umas das outras com o propósito específico de esconder alguma coisa. Mesmo assim, Joana ajustou a câmera no peito, respirou fundo e começou a subir pela trilha enlameada. Fazia quase oito meses que ela não conseguia vender uma fotografia importante, e a palavra fracasso começava a assumir contornos concretos dentro de sua cabeça. Ela a enxergava nos e-mails ignorados, nos comentários vagos de clientes dizendo "talvez depois", nas contas acumuladas sobre a mesa da cozinha do apartamento e principalmente na expressão silenciosa de sua mãe durante as chamadas de vídeo de domingo, aquela expressão cansada de quem tentava fingir confiança numa filha adulta que claramente estava perdendo o rumo da própria vida.

O dono da pousada falara da cachoeira na noite anterior enquanto enxugava copos atrás de um balcão úmido que cheirava a cerveja velha e madeira mofada. Disse que pouca gente se arriscava naquela trilha depois das chuvas fortes do último verão. Contou isso sem teatralidade, como alguém repetindo uma informação banal, mas havia alguma coisa estranha na maneira como evitava encará-la diretamente.

— O problema daquela mata não é se perder — ele comentou enquanto passava um pano amarelado sobre o balcão. — O problema é achar coisa demais.

Ela riu por educação, embora o comentário tivesse ficado ecoando dentro dela depois. Na hora parecera apenas superstição de interior, dessas histórias que moradores antigos contam para dar personalidade aos lugares. Agora, no entanto, enquanto avançava pela floresta abafada, sentia a lembrança daquela frase voltando de tempos em tempos como um inseto insistente zumbindo perto do ouvido.

A subida era pior do que imaginara. O chão escorregadio obrigava Joana a caminhar devagar, desviando de raízes grossas que emergiam da terra como ossos antigos atravessando a pele do mundo. Mosquitos circulavam ao redor de seu rosto e se prendiam ao suor em sua nuca, enquanto o ar parecia pesado demais para respirar completamente. Depois de quase uma hora caminhando, a camiseta já grudava em suas costas e a câmera pendurada no peito começava a parecer mais pesada do que realmente era. Em alguns momentos ela precisava parar apenas para recuperar o fôlego, apoiando as mãos nos joelhos enquanto escutava os ruídos da mata ao redor. Água correndo distante. Folhas roçando umas nas outras. O estalo ocasional de galhos muito acima. Ainda assim, por trás daqueles sons naturais existia outra coisa difícil de definir, uma impressão constante de vigilância, como se a floresta inteira estivesse prestando atenção nela.

Joana tentou afastar o pensamento concentrando-se em questões práticas. Enquadramento. Luz. A fotografia que pretendia capturar. Fazia isso sempre que a ansiedade começava a apertar dentro do peito. Organizar tecnicamente o mundo era sua maneira de impedir que emoções transbordassem. Desde pequena aprendera que certas lembranças precisavam permanecer enterradas para continuarem suportáveis. O problema era que o silêncio da floresta parecia abrir espaço demais dentro da cabeça. E no vazio, as lembranças voltavam.

Seu irmão Daniel surgia especialmente nesses momentos. O cabelo molhado colado na testa. O corpo pequeno desaparecendo entre as ondas da praia num instante absurdo de distração. Ela tinha quinze anos naquele dia e até hoje não conseguia decidir o que era pior: lembrar do momento exato em que percebeu que ele havia sumido ou da culpa silenciosa nos olhos de sua mãe durante os anos seguintes. Algumas tragédias nunca terminavam de acontecer. Apenas continuavam se repetindo baixinho dentro das pessoas.

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