Deisy passava a gilete com um pouco mais de pressa do que deveria, quase que ansiosa demais para o que estava prestes a fazer. O chuveiro corria, quente, abafado pelo funk que berrava do seu smartphone, sua música favorita, algo pesado, vibrante, como se fosse a trilha sonora da vida que ela sempre quis ter. Estava em busca de algo mais — algo que a tirasse do buraco escuro em que se encontrava. Ela queria ser mais do que uma garota de periferia, mais do que as garotas que viam na TV, com as unhas de gel e os olhares desinteressados. Ela queria ser outra coisa, algo que não era. E isso começava ali, naquela noite.
Com o metal afiado da lâmina, ela foi deslizando pela pele morena das coxas, sem muita precisão, até que um corte profundo a fez soltar um palavrão entre os dentes. O sangue se espalhou, vermelho e quente, tingindo a cerâmica branca do banheiro, fazendo-se um filete fino que escorria e desaparecia rapidamente na água. Ela xingou outra vez, mais baixo, enquanto o ardor da ferida se intensificava. Deisy encheu um pedaço de algodão com perfume e pressionou sobre o corte, sentindo o estalo da dor e o acréscimo da queimadura, mas não se importou. O que importava era a sensação de que, em algum lugar, sua vida estava prestes a mudar.
Era um encontro — mas não era qualquer encontro. Era o tipo de encontro que ela sabia que, no fundo, poderia ser o bilhete de entrada para uma vida que ela só sonhava. Um grão-fino. Alguém que, finalmente, poderia tirar ela de toda essa miséria. Já estava cansada daquelas noites longas em que a única companhia era o cheiro de cigarro barato e a TV velha da mãe. Uma parte dela sentia vergonha disso tudo. A outra parte... a outra parte não dava a mínima. O que importava era o agora.
Seus pais? Eles não estavam nem aí. A mãe, bêbada de conhaque e cigarro, quase sem voz, esparramada no sofá, murmurando coisas sem sentido. O pai? Sem dúvida, em algum bar ou casa qualquer, se perdendo em sua rotina de vícios. Mas Deisy sabia o que queria. E aquele homem, mais velho que ela, com um sotaque meio estranho, não importava de onde ele vinha. Ele poderia ser a resposta para sua vida sem futuro.
"Quem precisa de escola quando se pode ter dinheiro, poder, e tudo o mais que vem com isso?", pensava ela enquanto terminava de se arrumar. A saia branca justa, as tatuagens visíveis nas coxas, o piercing discretamente encravado na narina. "Não estou nem aí", pensava, pegando a bolsa e saindo do quarto, ouvindo sua mãe gritar algo sobre "vagabunda" da sala, mas Deisy não ligava. Ela tinha um plano, e nada a faria voltar atrás.
No ônibus, os olhares dos outros passageiros a penetravam como lâminas afiadas, mas Deisy se sentia bem com isso. Era como se ela tivesse se tornado uma estrela, sendo observada por todos. "Que gostoso", ela pensou, fechando os olhos e ignorando o desconforto de ser tão observada, de ser, ao mesmo tempo, desejada e desprezada. Tudo fazia parte do show.
Ela desceu perto de uma praça, já sabendo o que viria a seguir. O local era insano, aquele pedaço de concreto abandonado. A praça, antes um espaço de lazer, agora só trazia lembranças de tragédia — o fogo no circo, as mortes, os ecos de um lugar amaldiçoado. Mas Deisy não se importava. Só pensava no carro — uma BMW preta, reluzente, parada ao lado de um homem com ares de mistério.
Ele estava lá, encostado na cerca, com os cabelos longos e negros ao vento. Uma mecha branca caía sobre sua testa de maneira dramática, quase como se fosse uma marca, uma assinatura do destino. Ela sabia que ele tinha algo de errado, algo que a atraía de maneira magnética. Não tinha medo, só desejo.
— Então você veio — ele disse, com uma voz profunda, marcada por um sotaque que ela não conseguiu identificar. — Chegue mais perto... Eu não mordo.
Deisy se aproximou com confiança, seu corpo jovem e sensual se movendo com a familiaridade de quem sabe o que quer.
— Adoraria se você me mordesse — respondeu, piscando de forma provocante. — Gosto de homens com pegada forte.
Ele deu uma gargalhada baixa, quase maliciosa.
— Mas você é só uma garotinha — ele disse, os olhos escuros penetrando os dela com algo sombrio e... predatório.
Ela riu, desafiadora, não se intimidando.
— Não me superestime, coroa — respondeu, a voz desafiadora.
Ele se aproximou mais, com um sorriso no rosto, mas agora algo estava diferente. Seus olhos pareciam mais profundos, mais escuros, como se fossem dois buracos negros. Deisy sentiu uma leve inquietação, mas foi rápida em afastar o pensamento. Não iria permitir que uma sensação estranha estragasse sua noite.
Mas foi quando ela olhou para a lataria da BMW, quando o reflexo se fez presente, que sentiu um calafrio. Não viu o reflexo dele, mas sim o seu próprio. E ele estava... diferente. Mais pálida, com os olhos... vazios.
— Que porra é essa? — Deisy exclamou, recuando instintivamente. O medo começou a tomar forma dentro dela.
Ele apenas sorriu.
— Um pequeno deslize — ele disse, sua voz agora mais grave, mais sedutora, mas ainda carregada de uma ameaça incompreensível.
Antes que ela pudesse reagir, ele a puxou com força, a mão em seu pulso, implacável. Seu corpo colou ao dele com uma intensidade assustadora. Ela não tinha mais o controle, como se o ar ao redor deles tivesse se tornado denso e intransponível.
Deisy queria gritar, mas algo a impediu. Seus lábios encontraram o pescoço dela com uma frieza inusitada, um beijo gelado que a fez estremecer. Ela se sentiu paralisada. O medo se misturava ao desejo. A dor começou a surgir, leve, mas constante. Uma mordida, algo que parecia banal, mas logo se transformou em algo muito mais... cruel.
— Quem... quem é você? — Deisy sussurrou, sentindo a dor crescer a cada segundo.
Ele não respondeu. Mas de alguma forma, isso parecia mais ameaçador do que qualquer coisa que ele pudesse dizer. A dor aumentou quando ele, finalmente, mordeu com força. O calor do sangue — o dela — era tudo o que ele queria.
Foi quando ela percebeu: não havia volta. Ele não era humano. Ela não estava apenas sendo beijada. Ela estava sendo consumida.
— Tomber dans les pommes, mademoiselle — ele murmurou, a voz agora mais grave, mais distorcida. Ela não sabia o que ele queria dizer, mas, naquele momento, percebeu que não precisava saber.
Deisy não era mais a garota que esperava encontrar a felicidade em alguém. Ela era o prêmio. E ele... ele tinha vindo para levá-la para longe, para sempre.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
