Charles já não sentia mais o cheiro da carne.
Aquilo era estranho, porque depois de cinco anos trabalhando na câmara fria do SuperMax, o cheiro tinha se tornado parte dele, impregnado nas roupas, na pele, até nos sonhos às vezes. Um odor metálico, úmido, misturado com sangue lavado e plástico congelado. Pâmela reclamava quando ele chegava em casa.
— Pai, parece que você mora dentro de um freezer.
Ela dizia aquilo rindo, com o aparelho nos dentes refletindo a luz da cozinha, e Charles sempre fazia uma careta exagerada antes de abraçá-la. Era o melhor momento do dia. Não importava o quanto estivesse cansado, não importava a dor constante nas costas ou o latejar nos joelhos depois de dez horas empurrando pallets e verificando mercadorias. Quando via a filha sentada à mesa fazendo dever de matemática ou assistindo desenho velho na televisão, alguma coisa dentro dele ainda encontrava forças para continuar.
Naquela sexta-feira, porém, ele não conseguia pensar em outra coisa além da cama.
O expediente tinha sido particularmente cruel. Um dos funcionários faltara, o caminhão de congelados chegara atrasado e o gerente regional aparecera de surpresa para uma inspeção. Todo mundo andava tenso. Os colegas descarregavam aquilo do jeito habitual: piadas agressivas, palavrões e comentários atravessados.
— Aí vem o funcionário do mês — murmurara Cláudio enquanto Charles organizava as caixas de peito de frango. — Cuidado pra não lamber a bota do gerente na frente da gente.
Alguns riram.
Charles fingiu não ouvir. Fazia isso há anos. Descobrira cedo que responder só piorava as coisas. Além disso, não tinha energia sobrando para orgulho. Precisava do emprego. Precisava do plano de saúde da filha. Precisava pagar a prestação atrasada do apartamento.
E, no fundo, havia outra coisa também. Uma necessidade quase doentia de acreditar que esforço e honestidade significavam alguma coisa. Que o mundo talvez recompensasse gente decente, ainda que demorasse.
Mesmo depois da morte de Helena.
Especialmente depois dela.
Ainda havia noites em que acordava ouvindo os gemidos fracos da esposa no hospital, lembrando do cheiro azedo dos corredores da oncologia e da forma como ela apertara sua mão nos últimos dias, já magra demais para parecer real. "Cuida da nossa menina", ela tinha dito. Não fora dramático como nos filmes. Apenas cansado. Uma mulher exausta pedindo uma última coisa antes de desaparecer.
Charles levava aquela frase consigo todos os dias.
Já passava das nove da noite quando o supervisor o chamou perto do estoque.
Márcio era um homem grande, de barriga dura e rosto permanentemente avermelhado. Tinha o hábito irritante de falar olhando por cima das pessoas, como se estivesse sempre procurando alguém mais importante.
— Charles, preciso que faça uma inspeção final na câmara antes de ir embora.
Charles sentiu o corpo protestar imediatamente.
— Hoje?
— Hoje.
Márcio deu de ombros.
— O regional implicou com a temperatura dos compartimentos três e quatro. Quero tudo conferido antes de fechar.
Charles apenas assentiu.
Nunca dizia não. Nem quando devia.
Enquanto vestia novamente o casaco térmico, as luvas grossas e a proteção de cabeça, teve um pensamento rápido e desagradável: Pâmela provavelmente já estava esperando a ligação dele. Toda sexta ele telefonava antes de sair.
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SOMBRAS DA NOITE
TerrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
