CÂMARA FRIA

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Charles trabalhava na Câmara Fria de um grande supermercado. Ele era um colaborar dedicado e procurava fazer sempre o seu melhor, tratando bem as pessoas e cumprindo com suas obrigações ordinárias.

Seus colegas as vezes o chamavam de puxa–saco, mas ele não parecia ligar. O importante para Charles era fazer o serviço bem feito e nunca passar por cima de ninguém. Ele sabia que um dia seria retribuído pela sua eficiência e dedicação. Mas sua maior motivação era Pâmela, sua filha. Sua esposa havia morrido por causa de um câncer e ele ficara encarregado de cuidar da filha.

Era a coisa que ele mais amava neste mundo.

Já fazia uns cinco anos em que estava trabalhando naquela empresa e sua oportunidade de promoção nunca havia chegado. Mas Charles não parecia desanimar e nunca diminuía seu indicie elava de trabalho.

Perto do fim do expediente, numa sexta feira exaustiva, seu superior imediato chamou Charles a parte e disse:

– Estava procurando por você mesmo, Charles. Quero que faça uma inspeção na câmara antes de irmos embora. Só para ter certeza de que tudo está certo.

Charles estava extenuado, mas aquiesceu.

– Tudo bem.

As inspeções não faziam parte da rotina. Mas volta e meia, Charles ficava encarregado de faze-las. Quase sempre ele era obrigado a fazer as inspeções perto do final do expediente. Mas ele não reclamava.

Vestiu novamente os casacos apropriados e adentrou a câmara, inspecionando compartimento por compartimento. Máquinas por máquinas e tudo quanto consistia aquela inspeção. Sempre cuidado e meticuloso.

Ao final da inspeção, ele se deparou com a porta de aço trancada. O problema é que ela tinha uma trava que só podia ser acionada pelo lado externo da câmara.

– Alguém por favor – gritava Charles e batia contra a porta na esperança de alguém ouvi-lo – Estou preso aqui dentro. Por favor! Abram!

Mas passou alguns minutos e ninguém apareceu para ajudá-lo. Àquela hora ele sabia que todos já tinham ido embora. Mas parecia que ninguém haveria de ter notado sua ausência.

Charles continuou esmurrando a porta, mas depois de uma hora sua mão estava coberta de ferida e congelada. Seus cílios estavam pesados e carregados de gelo também. Nem mesmo o casaco de frio estava dando conta de esquentá-lo. O frio estava ardendo e triturando seus ossos.

Charles começou a chorar.

– Por que meu Deus isto está acontecendo comigo?

Do que adiantava ter sido bom todos aqueles anos. Fazendo tudo direito e com esmero para acabar daquela forma fatídica e trágica? Charles sentou num canto perto de uma máquina de conferir o peso das carnes e produtos de frios. Sentou e chorando, amaldiçoou sua terrível sina.

Suas reservas haviam acabado.

Ele não tinha forças nem mesmo para rezar.

As horas passaram lentamente e Charles não se movia. Demorou, mas chegou um momento em que ele simplesmente desistiu de lutar pela sua vida. Não dava mesmo para fazer nada. Ele não conseguia pensar em nenhuma alternativa. O gelo foi se acumulando sobre ele e agora Charles parecia um boneco de neve jogado esquecido em um canto.

Ele só conseguia pensar em Pâmela que estava lhe esperando chegar em casa.

Algumas horas depois, quando Charles estava perto da morte, alguém abriu a porta.

Era o segurança.

Charles não conseguia saber se tudo aquilo era real. Estava tão paralisado que mal conseguia abrir a boca para falar. O segurança que se chamava Sampaio estava atônito, mas reuniu forças para tirar Charles daquela situação.

Sampaio levou Charles para a recepção e conseguiu outros casacos para aquece–lo. Foi à cozinha e preparou um café para esquentar os pulmões de Charles e depois ligou para emergência.

Charles já estava voltando a sua cor natural, mas certamente ainda precisaria receber cuidados médicos por causa da hipotermia.

– Mas como o senhor foi capaz de voltar quando todos já tinham ido embora e também fazer algo que não está na sua rotina? – Indagou ele.

Sampaio explicou:

– Eu trabalho nesta empresa a quase trinta anos. Todos os dias centenas de funcionários entram e saem, mas você é o único que me cumprimenta na portaria. Os outros me tratam como seu eu não existisse. Mas você como todos os dias me disse "Olá" na entrada, mas não me disse "Até amanhã" na saída. Espero estas duas palavras mágicas todos os dias. Para você eu sou alguém...mas como não escutei o seu "Até amanhã", percebi logo que havia algo de errado.

Charles nunca havia se dado conta de sua cordialidade. Para ele, cumprimentar os outros, trata-los bem, mesmo aqueles em cargos inferiores aos dele, seria algo normal para todo mundo. Mas percebeu logo que as coisas não funcionavam bem assim.

Charles apertou a mão do segurança e depois lhe deu abraço apertado.

– Nunca poderei retribuir tudo o que você fez por mim neste dia.

Sampaio piscou para ele.

– Não precisa – disse. – Basta que continue sendo a pessoa humilde e atenciosa que você sempre foi. O que fiz não foi nada a mais do que um gesto de gratidão.

Charles percebeu que havia encontrado um amigo que levaria para o resto de sua vida.

Eles escutaram o zoado da sirene.

Era a emergência chegando.

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