DESPEDIDA

47 7 0
                                        

O telefone tocou e Marlene Alves demorou um segundo a mais do que deveria para sair da planilha aberta no computador. Os números ainda estavam ali, organizados em colunas frias de preços e tarifas, mas o som insistente do celular atravessou aquilo como algo fora de lugar, quase indecente no meio da rotina controlada do escritório. Quando viu o nome no visor, o corpo dela reagiu antes da mente: era Luan. O sobrinho que ligava sempre no mesmo horário, como um pequeno ritual que ela tinha aprendido a encaixar entre reuniões e decisões de compra, como se aquilo fosse uma garantia de ordem no mundo. Ela atendeu com a naturalidade treinada, embora por dentro já tivesse aquela microfissura de estranhamento, algo sutil demais para nomear, mas suficiente para deixá-la em alerta.

— Alô, Luan?

O que respondeu não veio limpo. Veio cortado por vento, um som constante, vivo demais para ser apenas ruído de fundo. Era como se o ar estivesse sendo esmagado contra o microfone do outro lado, como se ele estivesse exposto demais, em algum lugar aberto que não combinava com o horário, nem com a rotina dele. Marlene franziu a testa, sentindo um desconforto crescer sem forma definida, tentando encaixar aquilo em explicações simples. Praia? Não. Ele odiava praia. Isso sempre foi uma piada repetida na família, uma contradição engraçada demais para ser ignorada. Ainda assim, o vento continuava ali, insistente, quase agressivo.

— Sim, tia...

A voz dele veio baixa, diferente. Não exatamente estranha, mas desalinhada, como se algo tivesse sido deslocado dentro dela. Marlene esperou a continuação automática da conversa, a pergunta sobre o almoço, as instruções de sempre, o conforto da rotina. Mas Luan não seguiu o roteiro. O silêncio que veio depois pareceu mais pesado do que deveria, preenchido apenas pelo sopro constante do vento. No escritório, alguém mexeu em uma cadeira, outro teclado bateu ao fundo, e ela sentiu de repente que estava chamando atenção demais, que Marcos provavelmente já a observava com aquela irritação contida de gerente que não tolera ruído fora do padrão.

Ela saiu da sala quase sem perceber que estava se movendo, levando o telefone junto ao ouvido, tentando reorganizar a própria expressão no caminho até o toalete. O salto tocava o piso de linóleo com uma regularidade que normalmente a deixava segura, como se cada passo confirmasse sua competência, sua posição, sua identidade cuidadosamente construída. Mas agora cada som parecia um pouco deslocado, um pouco mais alto do que deveria. Quando se olhou no espelho do banheiro, notou primeiro a lágrima antes de entender que estava chorando. Aquilo a irritou mais do que assustou. Não combinava com ela. Não fazia parte da versão de si mesma que apresentava ao mundo. Enxugou com cuidado, como se pudesse apagar também a sensação que vinha junto.

No telefone, o vento não cessava. E agora, por trás dele, havia outra coisa. Um ruído distante, talvez carros, talvez algo passando muito longe. A mente de Marlene tentou organizar aquilo em categorias seguras, mas falhou em manter a estabilidade quando ouviu a voz dele novamente, mais fraca, como se estivesse sendo puxada para longe.

— Estou aqui, tia...

Ela parou de andar no banheiro apertado, sentindo algo na garganta que não era exatamente medo, mas uma forma dele ainda não reconhecida. Luan nunca falava assim. Nunca tinha esse tom de despedida escondida dentro das palavras. E ainda assim havia algo familiar demais ali, como se ela estivesse ouvindo uma versão dele que só aparecia em situações erradas. Quando perguntou onde ele estava, a resposta demorou mais do que o normal. O vento aumentou, e por um instante ela teve a impressão absurda de que ele não estava parado, de que estava se movendo, andando, correndo talvez, como se o mundo ao redor dele estivesse instável.

— Não liga pra mamãe — ele disse, e essa frase ficou suspensa por tempo demais.

Foi nesse ponto que algo começou a se deslocar dentro dela de verdade. Não era mais apenas estranheza. Era a sensação física de que a conversa estava saindo dos trilhos, como se o próprio ar estivesse errado. Quando a ligação caiu, o silêncio que ficou foi pior do que qualquer som. Ela tentou ligar de volta, mas o celular devolveu apenas ausência. Fora de área. Como se o mundo tivesse fechado uma porta.

Ela saiu do escritório com pressa demais para ser discreta, ignorando o olhar de Marcos e a curiosidade silenciosa dos colegas. No estacionamento, entrou no carro sem sentir o movimento das próprias mãos, ainda tentando encaixar tudo em uma explicação racional que não vinha. O telefone voltou a tocar antes que ela girasse a chave. Atendeu quase imediatamente, como se tivesse medo de perder algo que não sabia nomear.

Dessa vez havia ondas. Não só vento. Mar. Um som que não deveria estar ali, infiltrado dentro da chamada como uma memória física. A voz de Luan veio mais clara, mas ainda errada, como se estivesse sendo forçada a atravessar algo.

— Eu só liguei pra me despedir...

O carro já estava em movimento quando ela ouviu isso, e a estrada parecia normal demais para o que estava acontecendo dentro da ligação. Mas então veio a imagem, sem aviso, intrusa, violenta na sua simplicidade: uma ponte enorme, e Luan sentado na borda, balançando as pernas como uma criança distraída demais para perceber o risco. Marlene piscou, e a imagem quase desapareceu, mas não totalmente. Ficou como uma marca atrás dos olhos, insistente. E junto dela veio a certeza, não racional, mas absoluta, de onde ele estava.

O mundo respondeu com um som metálico, distante, como se alguma coisa muito grande estivesse se aproximando rápido demais. O sinal vermelho já tinha passado, mas isso só veio depois, como consequência atrasada de uma decisão que ela não tinha percebido tomar. O impacto não foi exatamente um momento. Foi uma interrupção total, como se tudo tivesse sido desligado ao mesmo tempo, sem transição.

Quando voltou, ou quando algo voltou, o tempo já não tinha a mesma forma.

O hospital tinha cheiro de limpeza e ausência. Marlene abriu os olhos como se estivesse emergindo de um lugar profundo demais para memória útil. O corpo não obedecia como deveria, pesado, fragmentado em dores que ela ainda não conseguia organizar. Flávio estava ao lado dela, mas a presença dele parecia distante, como se existisse em outra versão do mesmo dia. A primeira coisa que ela perguntou não foi sobre si mesma. Foi sobre Luan. A pergunta saiu automática, insistente, como se nada mais importasse.

O silêncio dele durou tempo suficiente para ser resposta antes mesmo das palavras. E ainda assim ele tentou construir algo diferente em cima disso, algo mais leve, algo que não quebrasse completamente o que restava dela naquele momento instável. Marlene não entendeu o desvio. Não conseguiu. O nome de Luan continuava ali, fixo, como um ponto único de realidade dentro de um mundo que parecia ter sido reorganizado sem a sua permissão.

Flávio desviou o olhar para a janela, para o dia lá fora, absurdamente normal, e disse apenas que estava um dia bonito. Marlene piscou devagar, tentando encontrar sentido naquela frase, enquanto algo dentro dela começava a se apagar de novo, não como sono, mas como uma rendição silenciosa a uma verdade que ainda não tinha forma suficiente para ser dita.

SOMBRAS DA NOITEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora