Depois de tirar os fones de ouvidos percebo que estou chorando. Chorando e soluçando, eu estou trancada pelo menos. O áudio me deixou pensativas e cravou mais questões sem respostas na minha cabeça. Vanessa está no quarto. Posso conseguir transferir o áudio para meu celular e fazê-la escutar, mas seria demais, seria pior do que ser jogada da escada. Resolvo que ficar parada é o melhor por ora, ficar apenas tentando controlar minha respiração e tentando decifrar o que Hanna quis dizer com "ele tinha conseguido manter a boca de Christina fechada também". Ou com "Mas Honie não sabe que não foi culpa dele, mas a senhora sabe e nunca contou a ele". Tudo isso me dar dor de cabeça.
Sinto vontade de escrever agora mesmo, mas meus dedos tremem. Quanto Honie leu? Ele percebeu algo que possa deduzir ser real?
Não faço nada mais do que encarar a vista da janela, arrastei a cadeira para perto dela e observei Marley deitado ao sol, de olhos fechados, observei os portões enormes e os muros igualmente altos. É como uma prisão enfeitada.
Alguém bate na porta quando já tinha escrito 11.000 palavras.
Dessa vez eu tinha salvado e fechado o rascunho, meus olhos estavam menos avermelhados então abri a porta sorrindo. Mas esse sorriso desmanchou quando vi Honie parado ali. Ele estava segurando um capacete.
—Vamos treinar? —Ele sorri daquele jeito bobo dele.
Acabo sorrindo também.
A moto está encostada no mesmo canto, tiramos a lona e decidimos lavá-la antes de começar. Honie acabou se molhando enquanto tentava ligar a mangueira e a água deixou sua camisa colada ao corpo, encharcou seu calção. Fiquei encarando a sujeira da moto enquanto ele xingava baixinho. Marley percebeu que eu estava disfarçando. Ele me olhou de um jeito que não gostei. Lavamos a moto em silêncio. A levamos para além dos portões, a estranheza de ter apenas a casa deles aqui é sinistra.
—Me dê. —Tento pegar o capacete dele, mas ele não me deixa pegar.
—Está louca? Isso é para mim, não para você. —Tento pular para pegar o capacete estendido a cima da minha cabeça. Ele não me deixa, é claro.
—Não tem nada que eu possa bater aqui!
—Não ligo. Sobe logo.
Assim que subo na moto de Hanna, sinto as mãos do homem atrás de mim serem postas na minha cintura, firme. Tento repetir para mim que isso não é nada demais, não é nada demais Amanda.
Primeiro aprendo rapidamente a ligar a moto, dar partida, mantê-la firme, domá-la como Honie disse. Eu peguei o jeito bem rápido, eu ainda vacilava na hora das curvas e acelerava demais. —O que o fazia apertar minha cintura.
As mãos dele na minha cintura me lembravam de duas coisas: Um, ele estava do meu lado mesmo eu fazendo de tudo para afastá-lo, ele ria para mim ou de mim em situações em que minha cabeça estava prestes a explodir, ele me defendia, ele me fazia rir. A seguir desses pensamentos eu se lembrava da segunda coisa; eu estou fingindo ser a irmã dele, portanto, sou obrigada a me comportar como tal.
Andamos mais alguns quilômetros. Ele confiou em mim o bastante para retirar suas mãos de mim e leva-las ao ar enquanto ria desesperadamente.
—Vamos ao centro.
Acelerei. Desesperada para sair da Price, desesperada para sair de perto da casa de Hanna.
***
Até o ar era diferente no centro.
Assim que nós chegamos eu senti o cheiro de fritura, diferente das comidas de Lucie. Depois que passamos pelas bancas de jornal e lojas de roupas eu senti o ar urbano completo, foi libertador sentir o cheiro da rua novamente e não só o cheiro de perfume de Paulo ou o cheiro do quarto de Hanna.
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Eu, Hanna
General FictionVer uma pessoa morrer não é nada de tão incomum. Mas se a pessoa que você visse morrer for idêntica a você? E se ela lhe pedisse um último favor? E se você aceitasse? A vida de Amanda Voz, uma escritora amadora, agora se resume no "e se". Decidida...
