O médico disse que foi instantâneo. Coisa que não acreditei.
Fiquei muito pouco tempo naquele hospital, me sentia enjoada, não só com aquele cheiro de detergente e álcool. Me sentia enjoada com a situação toda. Com a cena dela voando sobre o teto do carro e depois caindo no chão de cara. Eu me sentia enjoada porque tenho o pressentimento de que a culpa fora minha.
A moto estava do lado de fora, Christina veio comigo e ela quem descobriu o hospital em que Sely viria. Eu não conseguia chorar. Não conseguia me deixar de lembrar o quanto era uma pessoa hipócrita por isso.
—Vou deixa você em casa. —Falo cansada.
—Não, eu irei de táxi. Vai falar com seu irmão?
—Vou. Mas depois, bem depois.
Coloco o capacete e dirijo na direção contrária da casa de Hanna.
Vou até os portões de ferro estreitos, o lugar onde as lápides são a primeira coisa que vejo. Mas não tenho coragem de entrar, não consigo nem dar o primeiro passo para dentro desse lugar sem me lembrar de que uma pessoa que estava convivendo comigo vai parar ali também. Quero ir ao tumulo dos meus pais, quero conversar com eles, mesmo não acreditando que eles possam me ouvir. Não quero ir aquela casa de novo por que... Porque estou com medo.
Christina me mandou uma mensagem quando chegou.
Aproveitei e olhei as mensagens de Nathan.
"Precisa vir aqui, eu contei a Paulo".
"Amanda venha logo!"
O celular de Hanna estava no meu outro bolso, o meu em minhas mãos e a bolsa com os papéis no bolso do casaco. Guardo o aparelho e ligo a moto, mesmo o medo sendo quase palpável ao meu redor, tenho que saber o que Nathan contou e o quanto contou. Tenho que estar preparada para ser expulsa, para ouvir gritos. Mas também tenho que estar preparada para contra-atacar porque pode ser hoje o dia que descubro quem matou Hanna.
***
A primeira pessoa que me recebeu aos portões foi Marley.
Ela havia lambido minha mão.
Deixei que ele entrasse primeiro na casa, Lucie me viu e me perguntou o porquê deu estar tão pálida e eu quase respondi se não tivesse visto Nathan descer as escadas com pressa, o rosto banhado em lágrimas.
Ele me abraça.
—O que você contou?
—Me desculpa.
—O que foi? Me diz.
—Eu ouvi você no telefone antes de sair de casa. —Ele funga no meu ombro, que ficou tenso. —Eu contei a ele porque ele disse que se eu fosse útil deixaria Oliver com o apartamento. Eu vi na internet que ela morreu.
O medo de chegar em casa e ser desmascarada passou. Na verdade até mesmo a tristeza se dissipou do meu ser. Eu estava fervendo de raiva agora. Estava com o corpo mais rígido que uma tábua, necessitava abrir minha boca e gritar. Oliver chegou à sala. Honie chegou à sala. Lucie também. Todos me olhavam, e isso me fez perceber que eu estava chorando, finalmente.
—Você tem ideia do que fez? —Sibilo em sua direção, fria, cortante.
—Foi sem querer. —Ele murmura olhando para os lados.
Agarro seu pescoço sem pensar. Faço a mesma coisa que Oliver fez comigo quando eu disse que ainda tinha o vídeo dele. Forço minhas unhas a fincarem na carne frágil do pescoço dele e vê-lo arregalando os olhos enquanto falo:
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Eu, Hanna
Ficción GeneralVer uma pessoa morrer não é nada de tão incomum. Mas se a pessoa que você visse morrer for idêntica a você? E se ela lhe pedisse um último favor? E se você aceitasse? A vida de Amanda Voz, uma escritora amadora, agora se resume no "e se". Decidida...
