CAPÍTULO VINTE

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Uma simples curiosidade sobre minha pessoa: Quando eu era mais nova, lá com oito ou nove anos, fui inventar de subir em uma árvore que tinha na rua de trás da casa dos meus pais. Eu conhecia o filho dos meus vizinhos de trás então acabei apostando com ele que eu conseguiria subir na árvore. Bom, eu consegui. Só não consegui descer. Fiquei com tanto medo que congelei ali naquele ganho, imaginei-me caindo e quebrando o braço, ou meu pior pesadelo; quebrando os dentes. Eu congelei enquanto o pânico se alastrava pelo meu corpo todo, eu sentia que o galho cederia com meu peso e seria o fim dos meus dentes. Mas meu pai chegou e me ajudou a descer, nomeei aquele momento como "Medo Dez", porque era a nota que merecia. Até agora.

O medo de estar naquela árvore nem se compara ao medo de estar de frente a este clube. Não só meu corpo congelou, meu cérebro seguiu o mesmo caminho. Sinto que se ousar sair do carro vou acabar desmaiando, o que não é uma coisa tão ruim.

Não. Digo a mim mesma. Tem algo de que preciso lá dentro.

Deixo que Honie e Sely andem na frente. Existem oito catracas, três seguranças e uma mulher atrás de um balcão. Não dá para trapacear aqui nem se eu quisesse. Conto meia dúzia de câmeras só na entrada. Sinto tudo que comi querer voltar, voltas e voltas no meu estômago. Fico parada na calçada da entrada, perante o sol escaldante, um dos guardas já me viu.

—Han, você vem? —Honie me olha. Sely já está do lado de dentro.

—Não, não agora. Vá na frente.

Agradeço mentalmente por Sely ter vindo conosco, ela puxa Honie para dentro do clube quando ele quis dar meia volta e vir até mim. Ótimo. Agora só preciso pensar em algo. As chaves do carro estão com Honie e não sei nada sobre roubar um carro e fazê-lo ligar sem as chaves.

Dou alguns passos para trás até está na sombra de um coqueiro, pego o celular de Hanna. Para quem eu ligaria? Paulo não se daria ao trabalho de vir até aqui para me buscar, Carmen muito menos. Oliver e Nathan me evitam e Christina espera que eu entre não que eu vá embora.

Um carro vermelho cereja para perto de mim, as janelas são escuras. O cheiro de asfalto queimado e gasolina enchem meus pulmões e me fazer tossir um pouco. A janela baixa-se e revela um homem de óculos escuros e sorriso encantador.

Quem está dirigindo é uma mulher, ruiva e com brincos de argolas douradas. Ela olha para mim, mas não fala nada.

—Como vai Hanna?

—Bem...

—Você quer fazer parte da decoração de árvores? —A mulher pergunta, ela mastiga um chiclete com toda força, não é difícil saber que ela não gosta de Hanna.

—Dá um tempo, Helen. —O homem bufa para ela, mas volta a sorrir para mim. Ele sorri demais. —Vamos entrar?

Me afasto do carro quando ele abre a porta. Agora estou encostada no caule da árvore e respiro com dificuldade, não ganhei nem cinco minutos para pensar em uma solução e já me aparece outro problema. A mulher ruiva segura uma bolsa azul de treino, se uniforme é uma blusa acima do umbigo e short branco rasgado nas laterais. Não olho tanto para ela.

—O que foi?

—Nada.

—Vai indo na frente Helen, eu te encontro lá dentro.

Dei espaço para a tal Helen passar por nós, se não fizesse ela esbarraria no meu ombro de propósito. Fico agora frente a frente com o desconhecido que decide tirar os óculos escuros, mostrando seus olhos verdes hipnotizantes e enormes. Ele não é ruivo, mas o castanho de suas sobrancelhas chega quase a um castanho avermelhado. Ele cheira a menta.

Eu, HannaOnde histórias criam vida. Descubra agora