Era uma confusão de gritos ao meu redor enquanto eu lutava para ter as mãos dele longe de mim. Eu só conseguia acertar o cabelo dele por mais que quisesse acertar a cara. Uma eternidade pareceu se passar até que alguém o tirou de cima de mim; o ar foi muito bem-vindo. Mas no final acabei vomitando, vomitei até me sentir seca, até me sentir esgotada.
Olhei para Honie, estava tentando se livrar dos braços do irmão e do pai, estava ficando vermelho como um tomate estava me olhando como se eu fosse a pior coisa que ele poderia ver neste momento. Afastei-me para longe tentando convencer a mim mesma de que não era isso que estava acontecendo, a tapa que Nathan me deu está mexendo com meu cérebro. Não. Esse não é ele. Não é rapaz que eu fiquei brincando na piscina, não é aquele mesmo que me beijou.
Me levantei com as pernas bambas.
—Não. —Minha boca diz automaticamente. —Não foi você.
—Sua... Porque você não foi embora? Porque continuou insistindo?
—Você sabia? —Nathan pergunta.
—Quando me perguntou sua senha, sua babaca. Eu soube que não era a minha irmã, eu soube. Você não é nenhum pouco parecida com ela além da aparência e quer saber? Hanna nunca daria a chance que eu a abrasasse e quando eu fiz isso eu achei que você era ela, que tinha mudado, mas você e ele. —Seu olhar foi para Nathan. —Foram até aquele cemitério e falaram... Coisas absurdas. Foi fácil pesquisar o perfil do seu irmão e descobri que você estava na caixa de amigos dele. Eu vi seu perfil o quanto pude, vi suas postagens Amanda, você é uma fraude. Uma vadiazinha que não tem nada para fazer do que brincar com a dor dos outros.
—Você matou minha filha? —Paulo pergunta atônito.
—Eu achei que sim. —Honie diz. —Na verdade eu... Apenas... Ela mereceu.
Silêncio.
Paulo dá um soco em Honie.
Ele está sorrindo mesmo com o sangue na sua boca. A expressão de dor me lembra de como ele chegou aqui depois que Carmen o acertou no saco dele. Mas não foi isso que aconteceu.
—Você deixou Carmen fugir. —Digo abismada.
Por algum motivo, Honie começa a gargalhar. Fico com as pernas bambas. Isso era impossível, não é? Honie é Harry, o motorista. Aquele personagem cativante que gosta da mocinha, que a ajuda em momentos onde as paredes se formam em labirintos, ele é o salvador, ele é o homem que faz o certo e não o vilão disfarçado. Um lobo em pele de cordeiro.
Eu já havia deixado de acreditar em contos de fadas, mas nada me impediu de fazer um desejo silencioso neste momento.
Não é ele. Não é alguma coisa ainda vai acontecer. Não pode ser. Não quero que seja.
Boba.
Eu.
Amanda, a iludida. A tola. A escritora amadora que não tem a mínima noção do que está se metendo. E para quê? Por um livro! Que besteira. Eu poderia ter esperado anos para conseguir escrever alguma coisa, algo sem envolver esta bizarra situação, mas da mesma maneira as pessoas nunca leriam meus livros porque são horríveis, as pessoas, quando me conhecerem pessoalmente automaticamente jogarão meus livros no lixo.
Desesperada, acabo olhando as horas no celular. Quase quatro. Nolan chegará a pouco tempo. Guardo o celular e olho para aquela confusão familiar: choro, gritos, arranhões e braços entrelaçados. Eu só conseguiria passar pela porta da frente se conseguisse dribla Paulo, Honie e Oliver que ainda estavam se agarrando de um jeito esquisito. Mas havia a porta da cozinha, me lembro. Dou alguns passos naquela direção e então escuto a voz de Vanessa antes que eu possa de fato, correr.
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Eu, Hanna
Fiction généraleVer uma pessoa morrer não é nada de tão incomum. Mas se a pessoa que você visse morrer for idêntica a você? E se ela lhe pedisse um último favor? E se você aceitasse? A vida de Amanda Voz, uma escritora amadora, agora se resume no "e se". Decidida...
