Os nomes deles ficam rondando na minha mente enquanto escrevo.
Tinha começado com 34.432 palavras e agora, enquanto paro para respirar e estalar os dedos, vejo que estou com 45.263 palavras. Resolvo parar e salvar o arquivo. Por alguns minutos fico em silêncio, pensando no que pode está acontecendo agora com Honie, com Oliver e Vanessa, Paulo e Carmen. Então meu celular toca, o de Hanna está ao meu lado. O meu continuava escondido debaixo do colchão, mas mesmo assim ainda o escuto tocar. Não atendo de primeira, mas quando toca pela segunda vez eu resolvo atender.
—Alô? —Sussurro. Estava torcendo para que a pessoa desligasse ou não falasse nada, para que eu possa desligar. Mas uma voz falou sussurrando de volta.
—Eu sabia que era você. —Não foi a voz no telefone que falou. A voz veio de trás de mim.
Viro-me para a porta aberta e encontro Nathan, segurando o próprio celular na altura da orelha, o rosto, uma expressão neutra, quase assustadora. Meu braço baixa-se lentamente, estava assustada demais para fazer movimentos abruptos. Em nenhum momento tirei meus olhos dele. O desespero começou. Estourou-se como milho de pipoca.
—O que?
—Não me venha com essa. —Ele entra no quarto e tranca a porta. —Pare de fingir.
—Do que você está falando.
—Ora... Hanna? Sério? Você é minha irmã caramba!
Abri minha boca para defender meu lado; poderia começar uma história superficial sobre dupla personalidade ou que bati a cabeça ou sei lá. Mas ao ver os olhos de Nathan eu sabia que ele não iria acreditar em nada disso, ele estava coberto de razão e nada que eu diga vai fazer ele desistir desse manto. Na realidade nunca achei que fosse ele a descobrir tudo primeiro, um dos últimos talvez, mas o primeiro nunca, não quando Paulo e Carmen não saem da minha cola desde que cheguei, desde que Hanna pareceu renascer das cinzas.
—O que você quer? —Mudei meu tom de voz, da defensiva para à agressiva.
—O que você está fazendo aqui? Não era para você está aqui.
—Estou cumprindo um favor.
—Um favor a quem? Hanna? Onde ela está?
Morta, mas não posso contar isso a você.
—Ela estava fugindo quando a encontrei, passamos algumas horas juntas até ela me pedir para fazer isso e como eu não tinha nada a perder eu vim.
—Mas você... Que idiotice fazer isso! Porque não ficou na casa dos nossos pais? O que você... Espere... Você... Foi você quem fez aquelas perguntas sobre você mesma.
—Foi. E você respondeu sem nem hesitar. Bom saber. Apoio de irmãos é tudo.
—Amanda eu não quis dizer aquilo, você sabe que não.
—Eu não sei de nada, Nathan. O que você vai fazer agora? Vai contar para Oliver ou vai pegar um megafone e gritar daqui da janela mesmo?
Dois segundos em silêncio.
Três segundos, quatro, sete, dez.
—Você vai embora. —Ele fala.
Eu mesma demorei dez segundos para replicar.
—Nem ferrando. Eu ainda não terminei.
—Terminar, Amanda? Que merda é terminar? Você percebeu melhor do que eu que essa família é estranha, estou aqui tentando convencer Oliver a se mudar comigo, mas ele não vai sem a mãe dele.
—Eles têm sorte de terem uma mãe. —Murmuro, sei que ele ouviu.
—Não vou parar de tentar, sabe? Mas quero você longe disso.
—Bela preocupação de irmão mais velho, obrigada. O que merda foi aquele porta-retratos que você me enviou? Porque fez aquilo?
—Era um pedido de desculpas. —Ele respira fundo; depois toca no colar e fica segurando-o enquanto fala. —Quando conheci Oliver eu vi uma chance de voltar para ver você, para dizer que quando fui embora era para te dar espaço, para que você pudesse recomeçar ou sei lá, sabe? Não era para você vim parar justo aqui! Aqui não droga!
—Você me perguntou se eu queria espaço? Não. Você não sabia o quanto eu precisava de você lá naquele momento, eu não queria a droga de espaço nenhum. Recomeçar, sério? Você não acredita que eu possa ser escritora então como pode acreditar que eu vou recomeçar! Mas você quem deu sorte. Oliver. Dinheiro. Teto e lugares para visitar.
—Você não parece muito diferente.
Mordi a parte interna da minha bochecha, não queria arriscar revelar nada que me prejudicasse mais para frente. Ele estava certo em parte; mas não vou admitir isso a ele nunca.
—Ter você aqui estragou tudo. Eu não queria você por perto, Nathan, já é difícil demais conviver sabendo que você me abandonou quando nossos pais morreram e logo depois brota nesta casa como namorado de Oliver. Onde você esteve? Antes de estarmos aqui?
—Isso não importa. Mas eu não estava bem se é isso que quer saber. Dê um jeito de ir embora hoje.
—Não vou fazer isso, eu já disse.
—Amanda, eu sou seu irmão mais velho.
—Que me abandonou, ressaltando.
—Não importa. Estou aqui para te proteger agora, e se você me deixar fazer isso prometo...
—Promete o que? Voltar comigo para a casa dos nossos pais, arranjar um emprego e começar de novo de onde parou comigo? —Ele se cala. —Foi o que pensei.
—Não é que eu não queira voltar, eu amo você, mas tem Oliver.
—Sim, tem Oliver, mas saiba que Oliver vem com um combo chamado família Albertelli. Não vou sair daqui até terminar o que vim fazer, mas se você quiser contar sobre minha farsa, faça isso, grite. Mas eu também vou gritar, eu também sei fazer isso. O que seu namorado vai achar quando descobrir que você abandonou a própria irmã depois que os pais morreram? Logo ele que cuida da mãe e do irmãozinho. Você cai, é isso que acontece.
—Como ela estava? —Ele pergunta de repente.
—Quem? Como quem estava?
—Hanna. A de verdade.
M-O-R-T-A.
—Bem. Porque a pergunta?
—Nada. Esquece. Mas ela estava bem mesmo ou sei lá, parecia... Mal?
—Completamente bem. Tem alguma coisa para me dizer?
Passeimais de quinze anos com Nathan, decorei suas expressões e já o vi rir e chorar,seja de raiva ou de tristeza ou alegria. Ele simplesmente muda de expressões,muito rápido; raiva, tristeza, nojo, confusão. É difícil saber quais seuspensamentos relacionados à situação, e antes que eu possa perguntar quaisrealmente são ele abre a porta do quarto e sai, então nunca saberei o que eleacha disso.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Eu, Hanna
Aktuelle LiteraturVer uma pessoa morrer não é nada de tão incomum. Mas se a pessoa que você visse morrer for idêntica a você? E se ela lhe pedisse um último favor? E se você aceitasse? A vida de Amanda Voz, uma escritora amadora, agora se resume no "e se". Decidida...
