Tia Carmen, vamos comentar sobre como você sempre quis assumir esta família? Não a família em si. Lógico. Apenas o meu pai e o dinheiro dele. Não é surpresa para ninguém que meu pai é um ridículo e que deixaria seus filhos deserdados caso um de nós ousasse abrir a boca para a imprensa, um comentário mínimo que seja. O dinheiro iria todo para a instituição de onde nosso cachorro veio, é um lugar bom, chique, mas quem negaria mais dinheiro, não é mesmo? Minha tia Carmen certamente que não. Ela ama o dinheiro, mais do que ama a si mesma eu imagino. Bom, começaremos por onde me lembro, não é uma lembrança feliz. O.K., primeiro... Vocês se lembram antes de irmos morar em Price? Morávamos em uma casa maior, uma que tinha um porão maior. Eu estava entre o oitavo ano ou nono ano, não me lembro agora, mas eu precisava de algo naquele porão, eu fui lá quando minha mãe disse que iria levar Honie para a casa de uma vizinha, isso foi antes dela ficar cega, estava tudo indo muito bem, era um daqueles dias que começam perfeitos com um bom café da manhã, um ótimo dia na escola, uma tarde cheia de risadas e no final, abre-se uma cratera para engolir você. Minha cratera foi ter visto minha tinha colocando o pau do meu pai na boca. Ela choramingava enquanto estava de joelhos e meu pai, a sua frente, usava o sutiã dela para cobrir a boca. Eles não me viram, porque eu tinha perdido a habilidade de respirar, a habilidade de falar e de me mover. Fiquei pelo que se pareceram hora ali parada, na escada. Eu dei passos para trás até bater na parede do corredor, então corri para meu quarto e me joguei na cama. Chorei muito. Depois eu me obriguei a parar, comecei a jogar um jogo bobo no celular e depois quando minha mãe chegou eu fui até ela eu iria falar tudo sabia? Iria mesmo, mas sabe o que aconteceu? Eles começaram a brigar do nada, como sempre, só que pela primeira vez eu via o tanto da encenação que era tudo aquilo. Fiquei enjoada pelas marcas de arranhões que eram para parecerem agressões, mas se mostravam ser de desejo. É a coisa mais antiga que lembro. Logo depois minha tia Carmen foi embora, depois de um tempo, dois meses ou três ela voltava. O dinheiro acabava e ela precisava de mais, então se aconchegava na nossa casa, perturbava nossa paz que já era limitada e depois esse ciclo se repetia. Claro que ela iria fingir solidariedade quando aconteceu o que aconteceu com sua irmã gêmea, ela chorou, ela tentou bastante brigar com meu pai, mas naquela mesma noite, eles fizeram sexo de novo. Como eu sei disso? Bom, já estávamos em Price, às paredes eram grossas, mas as portas não. Eu ouvi a porta batendo, corpos contra madeira, foi o que eu imaginei, e estava certa quando percebi as marcas de batom na camisa do meu pai na manhã seguinte. Ele jogou a camisa no lixo. Sei disso também. Não é engraçado que eu saiba tudo isso? Eu daria uma ótima jornalista, uma boa detetive, qualquer coisa, mas estou proibida de ser o que sou, de saber o que sei. Estou acorrentada. No dia 24 de Setembro, eu estava sozinha em casa com ela. Meu pai tinha saído às pressas, minha mãe estava no hospital acompanhada de Oliver e Honie, a nossa empregada Velma estava do lado de fora, não faço ideia do que ela estava fazendo lá. Carmen apareceu enquanto eu comia, tinha feito uma torrada, ela sorriu para mim, mas eu não sorri de volta. Então eu vi que Carmen olhava para a janela, provavelmente para Velma, então ela chegou perto de mim e perguntou se eu havia contado para alguém o que eu já havia revelado que sabia. Não. Foi a minha resposta imediata. É claro que eu não contaria a ninguém, não por falta de coragem, era meu maior desejo contar. Só não contei porque sabia que ninguém iria acreditar em mim. Imagine uma garotinha indo contar a você que a pessoa que você mais ama, mais confia que criou uma família, está te traindo com alguém mais próximo do que você imagina. Sua irmã. Me chamariam de mimada, de louca, descontrolada e de dramática... Espera... Tia Carmen foi dessas coisas que você me chamou antes de me arrastar pelos cabelos para meu próprio quarto naquele mesmo dia. Fiquei trancada por horas, não sei por que ninguém apareceu aquele dia para me tirar do meu quarto, eu chorava pela minha mãe e gritava por Velma pela janela. Ela me ignorou. Quando eles apareceram eu estava rouca, com fome. Quem abriu a porta do meu quarto foi Oliver, ele estava sorrindo como um idiota e quando perguntei onde eles estavam... Ele disse que nosso pai apareceu de surpresa no hospital e os levou ao clube, para se divertirem. Simples assim. Uma fodida coincidência. Jantei no meu quarto por duas semanas, me recusei a ver a minha tia, me recusei até mesmo a ir tomar banho na piscina quando Christina aparecia na minha casa. O quarto também não era seguro, porque eu sabia que ela passava olhando quando a porta estava aberta e a noite, ela tentava entrar, mas eu comecei a trancar a porta. Os dias voltaram ao normal quando meu "drama" passou. Voltei a ficar animada, voltei a comer com todos, voltei a conversar e a sair, esta última parte em exagero. —O que não agradou em nada meu pai. Mas dane-se ele. Um tempo depois eu acabei descobrindo que meu pai também fazia sexo com nossa empregada, mesmo ela sendo dez anos mais velha que ele naquela época. Você sabia tia Carmen? Você tinha noção do quão substituível era? Algum de vocês sabia? Ou só eu? Me pergunto diariamente porque ando sabendo de tantas coisas, o porque. Se existe um Deus que comanda tudo isso... É um Deus bem cruel. Enfim, eu queria falar agora do momento que eu nomeei de Blackout Sujo. Havia faltado luz na nossa casa, era quase oito da noite e ainda estávamos nos preparando para jantar não era? Então, eu estava acabando de tomar banho, pretendia passar o secado no cabelo e quando tive a ideia, puff! Sem luz alguma. Acendi a lanterna do meu celular e desci a escada indo até a sala, nossa nova empregada, Lucie, estava acendendo velas. Jantamos a luz de velas, era bonito, mas eu não conseguia parar de pensar que estava em uma casa mal assombrada e tirando minha mãe... Todos eram aberrações. O que mais aconteceu aquela noite para ela ser tão importante você me pergunta e, sem ser sarcástica, te respondo que meu pai decidiu comer outra coisa no jantar. Foi fácil perceber que de vez em quando sua mão abaixava um pouco, segundos depois minha tia bebia seu vinho, depois o normal, quieto, então era a vez dela fazer algo, tocar em algo. Oliver estava ocupado demais pensando, como sempre, Honie ainda era um bobão e minha mãe não enxergava e eu... Eu era domada. Simples, fácil, como uma compra na internet. Última coisa, mas não menos importante, a minha tia Carmen já assediou Oliver. Ele sabe do que estou falando. Querido irmão mais velho, se você estiver ouvindo, essa é a hora de falar, você não foi o melhor irmão do mundo, mas lembra que eu também fui assediada? Sei como é a dor de ter sua pele queimando, ardendo e arranhada, e nem um banho ou roupa pode apagar aquelas digitais nojentas. Bem, por enquanto minha tia ainda está quieta, mas cobras sempre ficam quietas antes de dar o bote. Me chamem de louca, de dramática, do que quiserem, mas não é possível apagar essas coisas. Elas estão gravadas... Na memória de todos que moram aqui.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Eu, Hanna
General FictionVer uma pessoa morrer não é nada de tão incomum. Mas se a pessoa que você visse morrer for idêntica a você? E se ela lhe pedisse um último favor? E se você aceitasse? A vida de Amanda Voz, uma escritora amadora, agora se resume no "e se". Decidida...
