Nolan demorou meia hora para aparecer, felizmente ele veio de carro então apenas entrei no carro dele e não me importei para onde ele dirigia. O carro tem um leve odor de maconha, e sem contar que ele mesmo cheira. As luzes dos faróis dos outros carros iluminam o rosto dele momentaneamente, consigo perceber a vermelhidão nas bochechas e nos olhos. Não falei nada, nem mesmo ousei respirar muito alto, ele pareia mergulhado no equilíbrio de pensar e dirigir e não quero atrapalhar ambas as coisas.
Passamos pela loja de conveniência, foi o momento em que ele acelerou o carro mais que o necessário. Depois passamos pela praça cheia de adolescentes, ele desacelerou. E assim passou em constante aceleramento e freadas até que finalmente chegamos ao único lugar que nunca pensei que ele viria.
O frio está ali fora, quero abrir a janela e permitir que ele entre e digo a mim mesma que é para expulsar esse cheiro de maconha, mas mentir na minha própria cabeça nunca deu muito certo; quero sentir o cheiro salgado que o ar carrega das ondas, quero que o aroma da praia voe e entre nos meus pulmões por alguns instantes.
—Meu pai adorava a praia. —Conto.
—Está falando como se ele estivesse morto. —Ele está irritado.
—Ele está. Consegue dizer meu nome?
—Não sou idiota. Hanna. É esse seu nome. Porque me chamou e porque pediu...
—Amanda. É o meu nome. Não sou filha de um advogado, não sou rica e muito menos sei ser manipuladora. Não tanto.
—Você bateu a cabeça? Não está falando coisa com coisa e você nem fuma.
—Pergunte-me qualquer coisa que Hanna nunca poderia esquecer, não conta o dia da pegadinha com Oliver.
Ele pensa por um instante, estava de ombros caídos e o cabelo louro que geralmente fica em topete está bagunçado e tão desgrenhado quanto o resto dele. Nolan outrora poderia ter sido um aliado do meu lado, mas não tinha tempo para essas questões e sim, perdemos Sely e eu nunca vou saber o quanto o relacionamento deles era sério. Por mais que esteja péssima pensando que estou me aproveitando desse momento dele, eu preciso.
—No dia que te dei um fora, antes de você sumir. O que eu te disse?
—Eu não sei. Eu achei Hanna em um beco, eu posso dizer que não sou ela porque não odeio os irmãos Albertelli, nem mesmo sinto gratificação naquele vídeo, nem mesmo sei o que Hanna fez para Helen para ela olhar para mim com tanto ódio. Não sei de nada e você pode pensar que estou louca, que estou chapada ou o que for. Nolan, não sou Hanna Albertelli, mas sinto muito por tudo, não vai ser a mesma coisa. Sinto muito por isso também. Qualquer que seja o impedimento que vocês tinham ou o turbulento relacionamento que ela tinha com você, eu não tenho nada a ver, nem mesmo faço parte. Estou em uma família que não é minha, mas eu tenho uma missão lá e é a que preciso da sua ajuda. Não vou dar nada em troca, nem sexo, nem nada. Porque essa sou eu, e é um prazer conhecer você Nolan Damas. Meu nome é Amanda Voz.
Não apertamos as mãos, ele apenas... Riu. Não um riso de desdém, uma coisa fraca que foi até meu subconsciente e me deixou bem, calma até.
—Posso te dizer uma coisa louca?
—Não vou me casar, acabei de conhecer você.
Novamente uma risada, dessa vez com mais intensidade do que imaginei dadas as circunstâncias.
—Eu acredito em você. A antiga Hanna nunca pediria desculpas assim tão diretamente, ela faria você se sentir culpado primeiro e então as desculpas viriam da pessoa que ela estaria conversando. Amanda não é? Estou te conhecendo apenas há três minutos e estou pensando que talvez eu devesse te ajudar, estou pensando que talvez a gente se cruze por ai. Você me fez rir... Nem minha irmã conseguiu fazer isso. Aliás... Foi por Helen que eu terminei com você aquele dia.
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Eu, Hanna
Fiction généraleVer uma pessoa morrer não é nada de tão incomum. Mas se a pessoa que você visse morrer for idêntica a você? E se ela lhe pedisse um último favor? E se você aceitasse? A vida de Amanda Voz, uma escritora amadora, agora se resume no "e se". Decidida...
