CAPÍTULO TRINTA E QUATRO

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Parei a moto em outra rua, não seria inteligente deixa-la nos portões.

Andei com cuidado entre as lápides e os buracos de terra molhada, tudo que menos preciso é tropeçar e voltar suja de terra. —Ter os sapatos assim já é muito suspeito.

Não gosto de olhar para as fotos amareladas que algumas lápides possuem, passo de queixo erguido procurando por uma estatua de um anjo segurando uma cruz sobre o peito. Quando acho viro a direita e ando por mais alguns metros e chego à lápide dos meus pais.

Estão sujas, sem flores ou foto.

Fico parada, tentando lembrar quando foi a última vez em que vim aqui. Lembro-me depois que, eu nunca vim aqui depois do enterro. Já tive vontade, claro, mas vontade é diferente de ter coragem.

Nathan demora a chegar onde estou ele obviamente não esperava que eu o trouxesse para o tumulo dos nossos pais, que aposto que ele também nunca visitou.

—Por quê? —É sua primeira pergunta.

—Só tive vontade. Antes eu não conseguia passar dos portões, mas que bom que você está aqui.

—Não foi uma opção. —Ele retruca.

—Detalhe.

O tumulo da minha mãe ficava à esquerda, o do meu pai à direita; estou de frente para a lápide dele, me aproximo e limpo a areia que está cobrindo o nome dele. Senti-me o ser humano mais terrível quando fiz isso; o que será que ele pensaria de mim? Sinto vontade de chorar agora e não é isso que quero. Olho para Nathan. Consigo visualiza-lo do mesmo jeito no velório, calado, olhando para o horizonte e engolindo em seco.

—O que estamos fazendo?

—Visitando nossos pais mortos.

—Não com isso. Com aquela família.

—Achei que amasse Oliver.

—Eu amo, sim.

Uma brisa nos rondou, alguns galhos mortos foram jogados para longe das lápides, o cheiro de lama misturado a algo pútrido era horrível, porque agora além de querer chorar, sinto vontade de vomitar, mas não necessariamente nesta ordem.

—Quer falar alguma coisa? —Ele pergunta.

Um ano inteiro de palavras estão presos na minha garganta. Penso por onde devo começar. Talvez quando cai na real que estava realmente sozinha, ou deveria começar com insultos ao meu irmão por ter me deixado.

Abro a boca e mudo as palavras no mesmo instante.

—Obrigada por terem sido os melhores pais do mundo. Obrigada por simplesmente acatarem minhas ideias de escrever sem quererem me colocar em algo que vocês queriam. Obrigada por me incentivarem quando eu tinha uma nova ideia para uma história quando eu nem sabia se iria mesmo fazê-la e eu... Peço desculpas por ter ficado com raiva de vocês quando morreram naquele acidente, sei que vocês não escolheram que um caminhão batesse em vocês e os jogassem para uma árvore idiota. Sei disso. Desculpem todas as vezes que eu fui incompreensível e tola, mas sou eu... Assim mesmo e ficarão felizes em saber que continuo impulsiva e uma ávida leitora. Escrevi um livro, papai. Escrevi e acho que estou pronta... Você sempre me perguntava qual era a história da vez... Se você é um fantasma como dizem, então já sabe minha trajetória bem antes daqueles portões. Mãe, eu sinto tanta falta dos seus carinhos quando estou tendo pesadelos e tenho pesadelos quase todos os dias. Sinto falta de vocês dois, provavelmente virei aqui mais vezes.

Virei-me para meu irmão e perguntei se ele queria dizer algo.

—Não.

—Não é tão ruim assim, ajuda. Um pouco.

Eu, HannaOnde histórias criam vida. Descubra agora