Capítulo 10

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Nós não sabemos de nada. Não sabemos a real situação do lado de fora, ou por quanto tempo vamos ser mantidos aqui, mas, segundo Dener, a atitude mais sensata a ser tomada agora é permanecermos onde estamos e tornar o lugar confortável a longo prazo.

Positivamente falando, temos um teto e, talvez, água e energia. Também temos um Yan virginiano, algo essencial para qualquer organização. Ele não se conteve, logo começou a apontar algumas coisas básicas que vamos precisar e, realmente, ficar na escola facilitaria, porém, nem tanto. Eu prestei mais atenção do que normalmente prestaria, tentando tirar todo o sangue grudado em mim, pelo menos, da minha memória.

"— Comida, para isso temos a cozinha da cantina, mas é necessário pessoas para cozinhar e... comida, claro!" Foi o que ele disse. Primeiro passo.

Acontece que Dener estava certo; a maior parte dos alimentos frescos, que foram feitos ontem, não estavam mais frescos ou estavam sujos. Os poucos pacotes de salgadinhos e biscoitos que estavam lacrados foram vandalizados pelos meus colegas esfomeados sob a permissão do xerife. Por sorte, ou não, na dispensa, encontramos dois quilos fechados de arroz e enlatados de ervilha e milho verde, por quê? Não faço ideia, mas ainda bem!

Só que, para usar a cozinha de forma higiênica e segura, ela tem que ser, urgentemente, limpa e é o que vamos fazer.

Haven e Lucy tinham apagado dois monstrengos que estavam presos na cozinha, aqueles que costumavam ser os funcionários gentis da cantina, mas deixaram os corpos para trás com seus estômagos estraçalhados.

Yan arrastou um deles para fora com a ajuda de Dener e o outro fora arrastado pelas próprias Haven e Lucy, enquanto eu me concentrava em manter minha garganta bloqueada de qualquer vestígio de vômito.

O xerife nos deixou cuidando da limpeza e subiu para o andar de cima com a filha, Nadin, Seth, Ayo e Haven, que ainda tinha esperança de encontrar seus pais. Eu não aguentaria subir e ver mais daquelas coisas, então, me mantive útil na cozinha com Yan, Lucy e Josh supervisionando.

— Isso aqui é uma nojeira! — Lucy vocifera com uma careta. — O que é isso, um pedaço do intestino? — ela apontou para o chão e eu preferi não olhar.

— Intestino delgado, com certeza! — Yan se curvou tendo ânsia de vômito.

Mas que porra de conversa é essa?

— Que nojo! — reclamei, começando a juntar alguns pacotes abertos e sujos que estavam no chão. — Já que vocês sabem o que é, podem limpar!

— Isso não faz sentido e eu nem sei por onde começar! — a menina confessou ao ajeitar inquietamente a jaqueta no corpo. — Alguma ideia?

— É só jogar água pelo chão todo! Seria rápido e tiraria esse fedor de cocô! — meu irmão sugeriu do balcão onde estava sentado, enquanto balançava os pés e seu taco, descansando em suas coxas, sujava o tecido do calção que, dentre a mesma roupa que ele usava quando saí de casa, era a única peça limpa.

Obviamente, a sugestão de Josh é... fraca, então, apenas continuei pegando os itens do chão e pondo no balcão ao lado dele.

— Vou ver os produtos de limpeza lá dentro! — Yan anunciou antes de sumir em uma das portas.

— Eu devia ter ido com o Seth! — Josh reclamou. — Ele foi caçar lesados e eu que sou caçador!

Eu o encarei séria. É claro que eu não o deixaria ir!

Acontece que, aparentemente, Seth Cohen levava meu irmão para andar de bicicleta no parque em alguns fins de semana. Ele disse que seu pai não gostava de Josh andando em frente a loja dele, então, o levava para o parque com o consentimento da minha mãe. Como eu nunca soube disso?

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