Capítulo 43

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Mesmo correndo, eu pude sentir que Yan não aprovou a ideia, mas ele não se opôs a ela, tendo em vista problemas bem maiores que isso se arrastando atrás de nós.

Yan e eu cruzamos a extremidade necessária e mais próxima do centro às pressas, com isso podemos constatar que Haven não tinha sua suposição sobre a cidade nem perto da verdade.

De certo não tinham muitos monstrengos espalhados pela cidade, mas porque eles estavam concentrados no centro.

Todos os que surgiram em nossa rápida vista durante a corrida estavam deploráveis. Inchados de maneira inimaginável, como se fossem explodir a qualquer momento. Mas seu excesso de peso, seja lá do que for, os deixa ainda mais lentos e tudo o que precisávamos fazer era desviar das suas mãos e logo nos distanciar.

A minha rua está exatamente como as outras. Decorada com carros batidos e atravessados, bolsas e brinquedos largados que denunciavam a fuga urgente de pessoas desesperadas e, eventualmente, mortas.

Eu me sentia um saco vazio. Meu estômago ainda se contorcia de fome e logo durante a corrida eu comecei a ficar tonta. Merda, Josephine.

O jardim estava livre de carros. A chave reserva ainda estava escondida embaixo do jarro de uma planta que costumava estar viva e logo Yan e eu estávamos seguros atrás de uma porta trancada.

— Yan, você pode olhar o resto da casa? — eu murmurei ao me arrastar até o sofá da sala, logo ao lado do hall de entrada. — Eu... eu acho que não tô muito legal...

Eu sequer sei como consegui dizer isso, ou como tive raciocínio o bastante para largar os objetos amolados em minhas mãos, mas eu não tive forças o suficiente para tirar a mochila que apertava meus ombros e impedia minhas costas de sentir o estofado do sofá.

Eu não apaguei e, se fechei os olhos por cinco segundos, foi muito. Não é como se eu tivesse sono, é apenas... como uma falta. Falta. Eu já tive essa sensação antes.

— Casa vazia — reapareceu Yan, se aproximando de mim. — Vem, você precisa comer.

Entendendo que todas as minhas energias haviam se esgotado, Yan agarrou e puxou um dos meus pulsos, apoiando e empurrando minhas costas com a outra mão, na tentativa de me sentar de maneira indolor. Mas meu corpo, além de cansado, doía por inteiro.

Sentada, eu o vi tirar a própria mochila das costas e a abrir, fuçando seu interior.

— Eu trouxe sanduíches, sabe? Com a tal geleia do seu irmão — ele disse ao colocar a junção macia entre minhas mãos. — Você tem que comer, Josie, está branca como um papel! E não me faça ter que colocar na sua boca!

É claro que seria um sanduíche de geleia, como poderia ser algo diferente disso?

— Eu odeio geleia — eu resmunguei, sem acreditar que ele ouviria, e reuni tudo o que me restava de força para obedecê-lo. Apesar de seca, pelo menos é de morango.

— E eu sei disso — Yan admitiu e jogou-se no outro sofá, à minha frente, se deliciando com um sanduíche idêntico ao meu. — Eu só achei que nos daria mais energia do que apenas pães de forma!

Ele compartilhou sem se preocupar com a boca cheia e eu bufei.

Ignorando o show dos monstrengos no jardim, que insistiam em bater por toda a extensão da frente tentando entrar na casa, a sala ainda estava como no dia em que eu saí para ir à escola. Nada fora do seu devido lugar. A TV, os quadros com fotos desastrosas, já que posar para foto nunca foi nosso forte, e os vasos coloridos da decoração que minha mãe insistia chamar de "harmoniosa".

Meu coração se apertou em pura tensão, mas por quê? Por que se eu estou em casa?

— É melhor a gente ficar aqui por um tempo — meu amigo sugeriu ao finalizar seu sanduíche. — Já que está escurecendo, nós esperamos aqui para sair quando amanhecer.

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