Capítulo 22
— Então como você pode confiar no que ele fala? Como ele pode saber? Porque ele é mais velho? Porque ele é policial? Porque ele é o xerife? — eu continuei a questioná-lo. — Ele não sabe! Não existe treinamento para o fim do mundo e, muito menos para lutar contra monstrengos! Ele não sabe, Seth, ninguém sabe!
Seth bufou, negando com a cabeça e disse: — Você está certa em duvidar dele, é inteligente, mas só vai saber quem tem razão se você fizer alguma coisa!
E eu não estou fazendo? Eu tenho que tomar como verdade o que Dener diz para fazer alguma coisa? Caralho!
Eu me sinto sufocada! Encurralada, como se eu estivesse me baseando nele de um jeito ou de outro. Como se toda atitude que eu tomasse, fosse uma reação as merdas dele. Talvez isso tenha me mantido viva, talvez, não.
— Eu estou cansada, Seth. Eu não quero ser boa em nada, eu quero pegar o meu irmão e ir para casa! — eu confessei.
Seth concordou, entendendo. Ele sabe bem que essa montanha russa é exaustiva, mas também sabe que nós não temos a opção de parar e descer do brinquedo. Nós estamos presos nele: seu estômago pode se fortalecer, ou você pode vomitar até o último órgão.
— E o seu irmão? — eu lembrei de perguntar. — O xerife só falou do seu pai, não foi?
— Samuel está vivo, disso eu tenho certeza! — assegurou Seth.
— Vocês eram amigos? — eu quis saber.
— Não. Nós tivemos reações diferentes quando tudo aconteceu e eu acho que isso distanciou a gente — ele contou. Certo.
— Por que você quis me contar essas coisas?
— Não são um segredo — pela terceira vez, Seth deu de ombros. — Talvez eu não ligue mais para nada, ou, vai ver, eu menti sobre tudo...
— Nah! Você não mentiu.
Seth não negou minha afirmação. Ele não mentiria dizendo que a mãe o deixou sem coração. Ele falou a verdade e acabou de confirmar isso.
Depois de alguns minutos em silêncio, somos surpreendidos por batidas na janela acima da mesinha, seguido de grunhidos e gemidos.
— Fomos descobertos — Seth se mexeu, levantando da cama.
— Parece que sim — eu levantei chegando perto da janela. — Mas estamos seguros.
É um solitário; uma mulher que eu nunca vi por Carter Hill.
É doloroso olhar para eles. A apatia nos olhos afundados e sem coloração, todo o sangue espalhado pelas roupas, pelo corpo pálido e arroxeado. Morta e andando.
Depois de alguns segundos, ela percebeu que eu sou comida e me encarou, grudando seu rosto no vidro. Eu dei um passo para trás e ela abriu a boca, passando os dentes amarelados na janela. Morta e com fome.
Eu não quero virar isso. Eu não quero ficar assim.
— É melhor a gente voltar — aconselha Seth e eu concordo. Sim, é melhor.
Ao refazer o caminho, passamos novamente pelo corredor e foi impossível ignorar o corpo caído da garotinha. Eu estava menos determinada, minha raiva tinha passado e ele estava bem ali, como eu pude passar reto?
Giulia. O que ela falaria, se tivesse tempo? Ela falaria alguma coisa?
Eu apoiei a pá na parede e me abaixei perto do pequeno rosto, segurei em suas bochechas e puxei a faca que eu mesma havia abandonado na cabeça dela.
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DEVIR
أدب المراهقينDE.VIR [S.M] 1. Constante mudança. Vir a ser. Tornar-se. 2. Lei geral do universo, que cria, destrói, reconstrói e ensina. Eu li uma vez que o ser humano é desadaptado do mundo. E talvez seja mesmo, por isso está sempre no topo da cadeia. Vida ou m...
