Capítulo 40

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Assim que colocamos os pés para fora da escola, meu cérebro me lembrou de quem estava comigo. Merda!

Yan é mais responsabilidade minha do que nunca e eu vou protegê-lo de qualquer forma necessária!

Rapidamente nós cruzamos o gramado escolar que usamos de campo esportivo ontem e logo estávamos na avenida, de cara com o monstrengo que Seth apagou.

Meu reflexo desviou o olhar com certa urgência, evitando uma ânsia de vômito, mas eu percebi que o corpo estava de bruços e com a cabeça quase partida ao meio.

Céus!

— Ele não está meio esquisito? — observou Yan, se aproximando do cadáver. — É, ele está inchado!

Com sua expressão confusa voltada para o cadáver, Yan despertou minha preocupação e eu ignorei todos os meus extintos físicos para olhá-lo também.

— Mas que porra é essa? — eu soltei junto a uma ansia de vomito que revirou meu estômago vazio.

O corpo medonho estava extremamente apertado em suas roupas, como a merda de um cômico balão branco gosmento. 

— Como eu não vi isso ontem? — Yan murmurou sua automatização.

— Quem garante que ele já estava assim? Nós teríamos visto! Olha o estado dessa coisa, Yan!

— Você ficaria impressionada com o quanto eu estava aéreo ontem — ele continuou. — Isso não pode ter acontecido apenas de ontem para hoje, Josie!

— E se for, sei lá, uma reação cadavérica? — eu suponho. — É algo quimicamente explicado, não é?

— É — sussurrou ele. — Então eles só morrem depois do que nós fazemos.

O quê? Não! Essas coisas não estão vivas só porque andam, estão?
— Não — eu começo, mas meu cérebro se inebria com tantas informações preocupantes. — Não...

Mas Yan não acompanhou meu desespero crescente, ele permaneceu calmamente perdido em sua própria cabeça e, calmamente, se agachou ao lado do corpo e levou seu indicador até o braço inchado.

— Yan?

Sem atender meu chamado, ele prosseguiu. Yan o cutucou mais algumas vezes, tensionando ainda mais meus ombros e os nós dos meus dedos em volta dos cabos de de minhas facas.

— Está duro — ele constatou.

— O quê? Mas o que isso quer dizer? — eu me precipitei. — Eles estão ficando maiores? Mais resistentes? Já não basta falar? Porra!

Meu momento de desabafo foi instantaneamente cortado por um Yan que, em um momento de adrenalina, segurou o cadáver pelo cós de sua calça e o virou para ficar de barriga para cima.

Yan se moveu tão rápido que minha barriga vazia sequer ouviu nada nojento para reclamar. Ao contrário de sua respiração que, após o pico de adrenalina e esforço repentino, ficou fadigada.

— Yan! — eu o repreendi, o que não resultou em nada.

Imerso em curiosidade, Yan voltou a cutucá-lo. Dessa vez, meu amigo se preocupou em fazer uma trilha do ombro até os pés do morto, empurrou seu indicador no peito, na costela, na barriga, no quadril, na coxa e na canela do corpo inerso.

— Completamente duro como pedra — ele reforçou sua constatação em um sussurro.

— Pelo amor de Deus — eu reclamei. — Você vai fazer uma autópsia?

— Era o Winston — informou Yan, me ignorando completamente.

Como é? Essa... coisa era Winston Wells? De trinta e poucos anos, noivo de Kaila Rose, nossa professora de física? De quem ela falou quando já... era um monstrengo? Porra!

— Porra — eu sussurrei, tentando respirar fungo, mas tudo o que consegui foram olhos lacrimejando. — Por onde ele andava? Ela não parava de falar nele! Aceitou a quinhentos pedidos de casamento depois de morta e por onde ele estava?

— Josephine! — ele me repreendeu — Fala baixo!

— Eles estavam tão perto! Tão perto!

— Josie! Já era! — Yan reforçou. —  Já era, esquece!

Já era?

— Você se lembra de como ela estava feliz quando contou do noivado em sala de aula? Eles estavam juntos há sei lá quantos anos e ela ainda ficou feliz com a ideia de passar mais tempo com ele — eu ri, triste. — Nós achamos isso uma loucura, mas era engraçado vê-la tão feliz.

— É, parece que foi em outro planeta — ele suspirou, levantando-se e, para dar fim a sua pesquisa improvisada, da mesma forma que o virou, Yan puxou o corpo para o acostamento.

— Para onde, exatamente, você quer ir? — questionou-me Yan, quando finalmente prosseguimos pela avenida.

— O restaurante.

— O restaurante do seu pai? Na porra do centro da cidade, Josephine? — ele murmurou entre dentes. Merda. Eu merecia mesmo.

— Eu sei, está bem? Eu sei! Mas é para onde minha mãe estava indo! Você quer mais certeza do que isso? — eu me justifiquei, assistindo Yan bufar ao passar as mãos pelos cabelos.

— Se a minha mãe não conseguiu chegar até lá, Yan, ela está pelo caminho — eu continuei. — E eu sei que eles estão mortos, mas eu só preciso saber onde.

Minha fala fez Yan bufar mais uma vez, mas dessa vez, convencido.

— Tudo bem — ele suspirou. — O centro também é cheio de coisas que podem ser úteis, mas se nós vamos fazer isso, Josie, vamos fazer direito! Eu não vou morrer naquele labirinto!

E com isso, eu apenas concordei. Labirinto é apelido. O centro de Carter Hill está mais para bagunça.

Já bem próximos da escola fundamental, nós resolvemos passar pelo lado contrário do prédio, o mais distante possível. Mas eu ainda pude ver uma dezena de monstrengos vagando pelo pátio e constatar que, ver o monstrengo de Winston inchado e apagado nem se compara a ver vários como ele se arrastando sob os calcanhares e tropeçando em outros estirados no chão.

O parquinho e o escorregador vermelho também estavam lá, claro, e o meu coração acelerou quando a minha cabeça traiçoeira me levou de volta para dentro do tubo de plástico.

Por alguns segundos, eu senti tudo de novo. O desespero, a vontade de gritar, o sangue escorrendo da minha cabeça até meus pés. Eu estava sufocada. De novo.

Mas a mochila de Yan passou a balançar vazia na minha frente. Yan havia tomado minha atenção juntamente à frente do caminho e eu, silenciosamente, o agradeci por isso.

Nós andávamos em passos largos e rápidos, cuidadosos até com o barulho dos nossos sapatos no asfalto. Só Deus sabe a que distância essas coisas podem nos escutar.

E eu percebi que estávamos longe da escola quando passamos pela casa dos Ricci. Esse é o nosso limite, ou era o nosso limite.

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