Capítulo 48

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— Você não liga se eles estão com raiva? — a voz de Joshua ecoa abafada sob o barulho do chuveiro.

Nós caminhamos juntos pela escola, da sala até a enfermaria e, com a mochila nas minhas costas, da enfermaria até o vestiário. Tão imersos em uma brincadeira boba como trenzinho, que nós não falamos com ninguém, ou sequer percebemos alguém passar.

Eu estava encostada em uma das pias, de costas para a fila de espelhos e assim, eu suspirei.

— Não é bem assim, é complicado. Adultos são complicados.

— Mas você não é adulta — meu irmão perspicazmente observou.

— Pois é, isso complica ainda mais!

E, depois da minha resposta, Josh se calou por alguns minutos.

Eu odeio vê-lo no meio dessa confusão, eu odeio vê-lo com dúvidas que nem passariam pela sua cabeça se estivéssemos em uma realidade normal.

— Então não vão se resolver? — ele voltou a insistir.

Céus! Isso não deveria ter um peso tão dramático, deveria?

— Josh, eu nem sei quem está com raiva!

— Haven, Dener, Ava, Ayo... — listou ele, mas eu logo o parei, tive a impressão de que seria uma longa lista.

— Nossa! Todo mundo?

— Eu acho que sim — Josh ponderou. — Mas eu não sei os motivos.

Eu não contive um bufar frustrado. Eu não queria ter que me preocupar com algo assim a essa altura do campeonato, entretanto, eu não consigo ignorar mais um pequeno aperto no meu peito.

Pode ter sido uma atitude inconsequente, sim, mas eu não sou inconsequente! É evidente que eu tive meus motivos, não é?

Josh desligou o chuveiro. Eu deixei de ouvir a água correndo para ouvi-lo perguntar mais uma vez com clareza:
— Como você conseguiu minhas roupas? Você foi lá em casa?

— Sim — eu disse de uma vez.

— Por quê?

E a minha cabeça deu voltas muito além desse banheiro para respondê-lo. Como "por quê"? Porque eu quis? Porque eu precisava? Porque eu sou teimosa para caralho? O ponto, é que não envolveu um sentimento bom, não calou minhas queixas de saudade e, muito menos, me fortaleceu, mas eu fui.

— Porque eu precisava ir — eu suspirei. — Mas não foi tão bom, teria sido melhor com você lá.

Eu fui sincera, falei a verdade, mas logo vi que sim, Josh merecia ir até a sua casa, até o seu quarto. Entretanto, para isso acontecer, ele precisaria passar por tudo que antecedeu isso: pelo monstrengo enorme no meio da rua, pela cidade cinzenta e queimada, pelos carros engarrafados e pela mamãe.

— Teria? Por quê? — se interessou ele.

Por um breve momento, eu fechei os olhos e respirei fundo repetidas vezes. Mesmo assim, eu me sentia na beira de um precipício, tremendo e chorando, prestes a pular em um colapso nervoso.

Eu queria Josh comigo para protegê-lo, para ter certeza de sua segurança, mas a quem eu quero enganar?

Onde quer que esteja, ele corre riscos!

Eu não sou perfeitamente forte, ou rápida o suficiente, mas comigo e em mim, Joshua vai ter sempre um escudo.

— Josephine? — ele me chamou — Você ainda está aí?

— Estou — eu procurei me recompor. — Você já terminou esse banho ou pretende secar toda a água da cidade?

Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu estou aqui. Presente, Josephine! No presente!

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