Capítulo 24

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— Eu não quis esconder nada de você, Yan, não é isso! É só que... todo mundo está lidando com sua própria merda, então, eu... o que mais eu poderia fazer?

— Conversar! Converse comigo, o seu melhor amigo! Porque ainda sou eu, Josephine! Eu ainda estou aqui!

É o que eu fiz ele sentir? Como se não estivesse aqui?

Minhas pernas falharam, respondendo meus pensamentos. Eu estou exausta. A mesma exaustão desde o dia do caos e a mesma que eu vou sentir pelo resto dos meus dias, mesmo que tudo isso acabe. A verdade é que nós fomos condenados a viver nessa corda bamba exaustiva.

Eu arrastei meus pés pelo chão até as carteiras acumuladas no canto da sala e me apressei para sentar em uma.

— Mas e se eu não estiver? — pensei alto, apoiando o rolo da fita que ainda tinha em mãos no braço da carteira.

— O quê? — Yan me olhou preocupado. — Como assim?

E com aquele olhar, foi impossível segurar qualquer choro. Eu sabia que ia falar tudo e eu sabia que Yan não ia gostar de ouvir. Eu sabia que estaria colocando mais peso nele, mas, se não saber está o deixando angustiado, eu seria incapaz de continuar em silêncio.

— Eu me sinto diferente — expliquei, quase que em um sussurro. — As coisas que eu fiz... as crianças, Yan, as crianças!

Yan franziu o nariz, raciocinando. Ele tem o relatório completo sobre o dia que saí a primeira vez com Seth, eu mesma lhe contei cada detalhe. Não deve ter sido difícil para ele juntar as peças.

— Você voltou lá, não voltou? Por isso saiu.

Eu dei de ombros, forçando um sorriso triste e trêmulo. É, Josephine. Não dá para mentir agora.

— Eu precisei! Isso estava me perturbando! Eu estava confusa, perdida, e eu sei que é estupidez, porque todo mundo deve estar sentindo isso, mas é... eu voltei!

Perdida. É a palavra. Perdida em algum lugar de quem eu era e apenas com a certeza de quem eu não quero ser, porque sei que não sou a mesma e tenho certeza de que vou lutar para não ser uma pessoa ruim, mas e se for o que esse mundo quer? Não dizem que só se sobrevive em um mundo louco aceitando a loucura?

— Você não está perdida, Josie! Está aqui, está comigo! — Yan deu passos apressados até mim e se agachou na minha frente.

Meu amigo está percebendo minha bagunça e minha atual inutilidade. Percebendo o óbvio, porquê para quê eu sirvo neste estado?

— Desculpa! — eu soltei como um desengasgo e me curvei sobre o ombro de Yan, chorando.

Eu não posso continuar fazendo isso. Eu não posso continuar desabando. Chega de instabilidade, isso é desgastante!

— Nós estamos juntos nessa merda, entendeu? — sussurrou Yan, e eu me forcei a responder um "uhum". — "Você é quem quer ser", lembra disso? Conversamos há um tempo sobre isso.

Há um tempo?

— Lembro, mas é diferente, Yan! É muito diferente! — eu levantei de seu ombro. — A gente está falando de coisa, realmente, séria! É assassinato, Yan! Um homicídio! E, sim, eu estou assustada porque e se eu for assim? Sem remorso, como Dener falou...

— Josephine! — surpreso, quase incrédulo, ele me repreende. — Não! É claro que não! Você faz o que precisa fazer! Você se protege! É o que nós temos que fazer agora! Todos nós!

Yan tem razão, em parte, mas eu ainda sinto meu coração acelerado. Eu ainda sei a força que coloquei no chute e eu ainda ouço o estalo do pescoço.

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