Capítulo 41

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De certo que Carter Hill é uma cidade antiga, mas não é uma cidade parada no tempo. A arquitetura é moderna, renovada e, apesar de não ser uma cidade litorânea, ou conhecida, tem boa parte da economia movimentada pelo turismo. A grande verdade é que nosso comércio atraía muitos turistas que passavam por Dallas, cidade capital do Texas e nossa vizinha.

Entretanto, acreditando no potencial do comércio em Carter Hill, todos os governadores que passaram pelo poder investiram pesado na sua expansão, o que transformou o centro da cidade em um labirinto cheio de variedades para os turistas. Uma loja colada na outra, alimentando concorrências históricas.

Mas o centro da cidade, não fica, realmente, no centro da cidade. O centro da cidade fica no extremo norte, próximo a Dallas.

E, considerando que as escolas ficam no extremo sul, do outro lado da cidade, nós temos umas 4 horas de caminhada pela frente.

Quanta burrice, Josephine Long! Como eu convenci Yan Walsh a andar de barriga vazia por 4 horas ?

Nós continuamos a caminhar em silêncio. Yan ia na frente e eu olhava para trás vez ou outra, apenas para ter certeza de que não deixamos nada passar. Mas a rua estava tão vazia que podíamos ouvir o vento soprando pelo asfalto e não demorou nenhum segundo a mais para conseguirmos ver a bagunça em Carter Hill.

Bolsas e malas escancaradas deixaram  roupas e calçados espalhadas por quilômetros à frente. Sacolas de supermercado cheias largadas no chão e papéis voando soltos. Até avistarmos sangue. Poças de sangue, pingos de sangue, pegadas e rastros. De todo jeito.

Yan e eu passamos a dar mais atenção para nossos passos tensos e assustados com a vista do que, um dia, foi nossa cidade. Sem vida, sem som e quase irreconhecível, Carter Hill parecia estar realmente morta. Uma cidade fantasma.

Talvez Haven tenha razão mesmo.

Me deixando em alerta, Yan freou de repente e se abaixou para pegar um pequeno smartphone que eu sequer tinha visto.

Ao ligar o ecrã do celular, nós nos deparamos com um pedido de senha, claro. Na tela de fundo, apenas um sólido verde, nada que denuncie o dono, tornando-o um objeto inútil, mas Yan o levou ao bolso mesmo assim e continuamos a andar.

Alguns segundos depois, o fedor de fumaça nos atinge sem aviso prévio e adentramos o que parecia uma área propositalmente queimada.

A área cinzenta cobria apenas uma parte da avenida congestionada por muitos carros e as casas que a ela se conectam. Mas, depois da onda de fogo, o que restaram foram cinzas e restos de madeira e latarias quase completamente carbonizadas, sem pneus ou vidrarias.

Yan me encarou, perguntando silenciosamente se eu estava vendo e se continuaríamos com isso. Mas se já estamos aqui, parar não é uma opção.

Eu assumi a frente de Yan, indo pela calçada e, mesmo sentindo meus pulmões já ardendo, eu me preocupei em olhar o interior de cada um dos carros.

— Cuidado — murmurou Yan.

Cinzas e ossadas, do que antes eram pessoas, derretidas e quase fundidas com as ferragens do assento.

Yan passou por mim, passou a me acompanhar a um carro de distância, entre as duas mãos da avenida. Até, novamente parar de repente.

— Yan? — eu o chamei em um sussurro, mas corri preocupada a seu encontro.

Meu amigo estava parado de frente a mala de um dos veículos sobreviventes à maré de fogo, mas esse? Esse eu conheço bem.

— Não, não, não, não...

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