Capítulo 28

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Ao entrar na cozinha atrás de Yan, eu soube que havia feito uma escolha. Sem segurança nenhuma, eu havia escolhido confiar a vida de um pirralho de dez anos nas suas próprias e pequenas mãos!

O problema é que, mesmo tentando acreditar que Josh não precisa de mim para ficar seguro, eu ainda estava assustada, cansada e confusa! Como podem precisar de alguém nesse estado?

— Caralho, por onde você andou? — Lucy questionou de boca cheia, assim que eu pisei no cômodo quente.

A menina castanha se mantinha encostada na pia ao fundo da sala, com os pés cruzados e segurando um prato com as migalhas do seu pão logo abaixo do queixo.

Ava, ao lado, revezava sua atenção entre as pessoas presentes e as panelas no fogo. Já Haven não demonstrou muito interesse ao me ver entrar, apenas permaneceu de braços cruzados em frente à parede de pequenos azulejos brancos.

— Resolvendo algumas coisas... — eu respondi. Até parece que eu consigo resolver alguma coisa!

— Você mudou de ideia? — Haven murmurou sem um pingo de entusiasmo, aguardando minha resposta. Eu não esperava entusiasmo, não, mas para alguém que criticou e debochou da minha decisão a minutos atrás, Haven estava bem comportada.

Talvez ela seja quem tenha mudado de ideia, afinal.

— Mais ou menos — eu a respondi e caminhei sozinha até a pia para lavar as mãos.

Lucy, automaticamente, se afastou um pouco para liberar o meu acesso, mas ainda ficou perto. Bem perto.

Só então, eu percebi o quão sujas minhas mãos estavam. Sangue puro entre os dedos e debaixo das unhas. Sangue de Mary, de James e de sabe-se lá quantos mais! Sangue fresco como as memórias assustadoras e enraizadas dessa madrugada na minha cabeça!

O escuro, os grunhidos, as mãos. O pânico.

O buraco sendo feito na cabeça de James.

Merda! Por que sangue é tão difícil de lavar?

— Hm, deixa eu te ajudar — Lucy rapidamente se desfez de seu prato, o pondo de lado, e se colocou grudada a mim, de frente para a pia.

Eu só entendi o que ela pretendia fazer quando o fez.

Lucy juntou nossas mãos debaixo da água corrente e começou a lavá-las. Como uma mãe faz com sua criança, sim, patético. Mas as lembranças refrescadas na minha memória haviam me congelado.

Eu apenas deixei que Lucy fizesse o trabalho mais difícil e me concentrei em esconder o tremor que rápidos pensamentos trouxeram.

Não deu certo.

Eu senti o aperto de Lucy se afrouxar aos poucos, percebi seu olhar cauteloso subir pelos meus braços e pousar no meu rosto. Mas eu estava envergonhada demais para retribuí-lo e minha garganta estava seca demais para qualquer explicação.

Eu não quero dar explicações, eu sequer as tenho!

Não! Não há explicações! Foi apenas pelo susto no escuro! Eu estou bem!

Lucy tirou uma das mãos da água e logo a trouxe de volta com uma pequena garrafa de sabão.

— Abre — ela pediu quando voltou sua atenção para nossas mãos e eu obedeci, ergui as palmas para cima e senti o líquido denso sendo despejado.

Com os dedos esticados, meu tremor ficou mais aparente, então me apressei a esfregar minhas próprias mãos.

Mas, depois que se livrou da pequena garrafa, Lucy voltou a unir nossos toques.

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