"Politicamente correta"
...
Oi, meu nome é Carla Maraisa.
Posso parecer uma pessoa normal, mas as aparências enganam mais do que queremos admitir.
Devo confessar que, no meu caso, os problemas começam rapidinho.
Percebe-se logo pelo nome:
Carla? primeiro nome ninguém usa.
Maraisa? Sim, eu sei que é engraçado, mas tente fazer um esforço para não me chamar de Maisa.
Não é tão ruim assim, é?
Existem vantagens e desvantagens de se ter um nome incomum. Entretanto, a maior de todas as desvantagens, para uma pessoa como eu, é que o fato de ter o nome escrito errado por causa da idiotice de algum funcionário preguiçoso do cartório - ou pela falta de senso do meu pai - é extremamente, digamos único.
Exato, você acaba de descobrir que meu nome era para ser Maisa. Era...
Tenho vinte e sete anos. Bom, pelo menos esta é a idade do meu coração.
O meu cérebro, por sua vez, deve estar soprando sua sexagésima velinha. Não, não sou tão petulante para achar que sou madura demais, inteligente demais ou experiente demais.
Não falo neste sentido. Pode ter certeza de que qualquer garotinha de dezesseis anos já passou por momentos mais marcantes do que eu, sabe?
Aqueles momentos que você relembra e se dá conta de que aprendeu alguma coisa.
Sei que isso é meio confuso, mas entenderá com o tempo. O
problema é que o espelho diz muitas coisas sobre a nossa idade - pelo menos o meu diz -, porém, não há definidora de idade tão eficaz quanto a nossa própria personalidade.
Posso me explicar.
Sou uma pessoa definida pela sociedade moderna como a
"politicamente correta". Você deve estar pensando: "ora, não há nada demais em fazer as coisas certas, todo mundo devia ser como você, Maraisa". Não se engane e jamais repita tal absurdo.
Foi com esta ideia que a minha vida, aos vinte e sete anos, navegou por mares que eu percebi, talvez tarde demais, que não me levariam ao caminho que me traria a real felicidade.
Concordo que muita gente deveria ter certos hábitos que eu cultuo,
hábitos considerados antigos e recalcados. Na verdade, chega a ser um dever de cada cidadão. Coisas básicas como desligar o chuveiro enquanto estiver passando shampoo ou escovando os dentes, não dar descarga se for só o número um, apagar todas as luzes quando sair de casa, levar sempre a sacolinha quando for passear com o cachorro, nunca estacionar em lugares proibidos...
Enfim, existe uma coisa da qual não abro mão: ordem.
Gosto de tudo organizado, desde a minha gaveta de calcinhas até a
minha lista de e-mails - tenho certeza de que você nunca organizou sua caixa de e-mails, pelo menos não como eu, que separo meticulosamente por ordem alfabética, de prioridade, data e assunto. Sigo uma rotina extremamente rigorosa, criada e estudada por mim mesma.
Não faço nada que signifique ficar longe dos padrões, por isso odeio, simplesmente odeio, quando surgem imprevistos. Não há nada pior do que surpresas. Tudo o que eu não puder calcular, classificar, dividir ou separar por cores simplesmente me causa ânsia de vômito.
Desde pequena sou assim.
Bom, não me lembro de nenhum
momento na minha vida em que eu tenha deixado alguma coisa fora do lugar. Guardava meus brinquedos logo quando terminava de brincar, às vezes até antes disso. Nunca sujei um copo e o deixei em cima da pia. Acho que, se a minha mãe tivesse permitido, seria capaz até de, enquanto bebê, lavar minha própria mamadeira.
Nunca apertei a campainha do vizinho e corri. Nunca fui a um
lugar diferente do que tinha dito aos meus pais. Nunca falsifiquei minha carteira de identidade nem invadi boates ou filmes para maiores de dezoito anos sem ter atingido esta idade. Jamais, em toda a minha vida, menti para alguém. Claro, já omiti muitas coisas das pessoas, já disse sim quando queria dizer não - e também o contrário -, visto que estou longe de ser uma sem-noção. Falo de mentiras mais óbvias, não de simples mentirinhas que a boa educação exige vez ou outra.
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The Trip "Danisa"
FanfictionTotalmente fora dos seus planos, Maraisa concorda com uma despedida de solteira...
