16º Capítulo "Lavando a roupa suja"

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"Lavando a roupa suja"

Nem me lembro direito de como cheguei à minha casa.
Só sei que, quando menos percebi, estava sentado em uma das cadeiras da minha varanda, com um copo de whisky em uma mão e o bilhete da Maraisa em outra.
Paula Fernandes cantava no som da cozinha - que estava no último volume, permitindo que eu pudesse ouvir super bem.

O sistema acústico daquele prédio era muito bom; os vizinhos de cima e de baixo não escutariam nada além de um pequeno zumbido, desde que as portas de suas varandas permanecessem fechadas. As músicas românticas são mesmo engraçadas; quando não se sabe o que é paixão, elas nada significam além de um conjunto harmonioso de letra e melodia.

Quando se está apaixonado, as letras se transformam, desenham situações, afloram lembranças, falam coisas que o coração deseja ouvir. Entretanto, quando se está magoado, as músicas românticas atingem o ápice do sentido. Elas passam a significar tanto que se torna quase impossível ouvi-las, mas o coração berra por elas como se fosse uma necessidade, como se, no fundo, ele quisesse sentir aquela dor só para mostrar a si mesmo que pode sentir alguma coisa.

Minhas lágrimas haviam secado em algum momento desconhecido.
Eu era apenas parte de algum artigo decorativo, compunha aquela casa como se fosse um objeto inanimado.
O misto entre a desilusão e a falta de esperança permitiu que uma tristeza sólida se enraizasse dentro de mim. A dor era tão constante que achei que podia sentir falta dela caso fosse embora.

Reli o bilhete inúmeras vezes.
Tentava entender, buscava um sentido para aquilo. A frieza da Maraisa chegava a me congelar, e não era porque eu estava apenas de cueca, sentindo a brisa fria da noite assanhar meus cabelos. Era um frio interno, que me transformava em pedra.

"Se for menos, fique com o troco. Se for mais, gostaria de que me ligasse para que eu possa fazer outro cheque."

Por um momento me vi pegando o meu celular, que estava em cima de uma pequena mesinha de apoio feita de palha escurecida, e ligando para ela.

O que eu diria?

Ah, claro, algo do tipo:
"sinto muito, Maraisa, mas seu cheque é insuficiente, creio que você precisa fazer outro."
Qual seria a sua reação?

Ri de mim mesmo. Posso ser cruel às vezes. Não sabia dizer o que era pior: pedir mais dinheiro pelo amor que fizemos ou o fato de ela ter chegado a pensar que podia valer menos de quatro mil.

"Fique com o troco".

Sim, realmente havia ficado com o troco. Aquela decepção tinha que valer alguma coisa, talvez eu até a vendesse. Colocaria numa prateleira junto com o meu amor. E então venderia minha amizade, meu carinho, minha educação, respeito... Venderia tudo até que nada sobrasse.

Quem quer comprar o meu caráter? Custa só dez reais.
Minhas habilidades com a massoterapia custa cinquenta, a pirofagia custa vinte.
Meu braço direito estou vendendo por mil, meus olhos custam um pouquinho mais, ok?

Minha dignidade deve valer míseros cinquenta centavos.
Então eu coloco meu sêmen num saquinho e vendo dois por cinco. Se comprarem meu sorriso, posso até dar minhas boas lembranças no pacote.

Já sei até o que faria com o dinheiro; compraria outra BMW. Se bem que, juntando tudo, talvez não desse para comprar sequer um fusquinha.

Cansado de pensar em tanta baboseira, desliguei o som, guardei o bilhete junto com o cheque e decidi tentar dormir. Na verdade eu meio que me dopei; peguei dois calmantes que, misturados com o álcool, surtiram efeito de um quase desmaio.

Acordei às três da tarde. A cabeça girava, meu corpo doía em pontos que eu mal sabia que pudessem doer. Parecia que tinha levado uma surra violenta.
Passei horas ainda na cama, revirando para lá e para cá, abraçado ao travesseiro que ainda guardava o cheiro dela.

The Trip  "Danisa"Histórias para pegar e não largar. Descubra agora