47º Capítulo "Clara"

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                          "Clara"

2 anos e 2 dias depois...

–Xuxi!

–É sushi, filha. Coma tudo... – murmurei pela milésima vez.

Estava sentindo-me cansada. Exausta, na verdade. Havia passado várias camadas de corretivo para ter coragem de sair de casa.
Gabriela estava tão agitada que me arrependi de tê-la trazido. Mas enfim, eu nem devia estar naquele lugar. Foi a ideia mais estúpida de todos os tempos. 

–Eu gosto de falar xuxi.

–Então tá bom, coma seu xuxi todinho.

–Mas é estranho!

–Quer que eu peça batata-frita?

–Não... Quero comer com pauzinhos.

–Coma a batata-frita usando os pauzinhos.

–Não pode, mamãe!

–Claro que pode.

–Pode não. Só pode comer com pauzinho se for comida japonesa.

–Então coma o sushi.

–É xuxi!

Affe, Maria!

Soltei um longo suspiro e sorri.
Alisei os cachos da Gabi e indiquei que voltasse a comer.

Ela demorou um século para equilibrar a comida no hashi. Quando finalmente conseguiu, soltou um grito e ficou tão empolgada que o sushi caiu no prato de novo.

A carinha feia que fez me fez rir.

Não fazia ideia do que queria levando a Gabi para almoçar naquele restaurante.

Tudo bem, não vou negar: precisava ver o Henrique.
Só não sabia direito quais os motivos para a mudança.

Acho que foi porque ele finalmente parou de me ligar. Ou seja, a situação era deprimente.

Estava usando a minha filha como desculpa?
Pelo amor de Deus, né?
A coitada nem gosta de sushi.
Mas até que estava comendo...

Observei enquanto ela mastigava e fazia caretas. Engoliu bem rápido e tomou um gole do suco. Pensei que desistiria, mas pegou o hashi novamente e partiu para outra guerra. Crianças...

Certo, certo... Voltemos ao que eu estava fazendo ali.
Não faço o tipo de mulher que corre atrás.

Ok, não faço tipo algum de mulher, pois faz anos que não entro numa paquera – nem me lembro mais como é, sinceramente. As coisas mudaram bastante de uns tempos para cá. Estou enferrujada. Não sei me comportar. Morro de vergonha.

Estou acostumada a ser uma mulher casada; aqueles longos nove meses de separação só me fizeram entender que não sirvo para a coisa.

Tudo ainda doía muito dentro de mim. As coisas com o Renato foram horríveis, nem sei como ainda estava de pé. Se não fossem as minhas amigas acho que teria desmoronado. Tentei ser forte pela Gabriela, e estava conseguindo.
Ela passou um tempo meio tristinha porque o pai deixou de morar lá em casa, mas, depois de ter lhe explicado inúmeras vezes, pareceu aceitar a ideia. Melhorou quando o Renato alugou um apartamento grande com um quarto só para ela. Encheu-a de brinquedos para tentar conquistá-la, mas graças a Deus não fez questão da guarda.
Um alívio para mim, pois me deixar sem a minha filha seria a mesma coisa que me deixar sem oxigênio.  

Renato tentou voltar para mim nos primeiros dois meses – os mais difíceis. Eu não quis.
Depois de negar de todas as formas, confessou que me traiu algumas vezes.

The Trip  "Danisa"Histórias para pegar e não largar. Descubra agora