Angel sentiu o cheiro dela bem antes de entrarem na aldeia e balançou a cabeça. Não era bem isso que ele planejava ao ir atrás de Sal e os leãozinhos. Ele queria ajudar a encontrar Violet e assim poder passar um tempo com ela. Angel sempre foi intrigado por Violet, ela tinha um ar diferente das outras filhotes. Algo como uma doçura não tão doce.
"Angel? Não está ouvindo?" Salvation o chamou, ele fez que sim, mas não disse nada. Eles pararam a frente da casa maior e esperaram. Os humanos recolheram as mulheres e vieram para a porta da casa grande também os cercando. Candid sorriu para Honest, Honest sorriu de volta. Angel rosnou baixo. Seria covardia lutarem com aqueles pobres humanos. Salvation também rosnou baixo, mas era inútil, ninguém mandava naqueles filhotes do capeta. Simple parecia envolvido nos cheiros deles, ele tinha o corpo tensionado, os olhos duros. Ele sempre captava algo que eles não.
"O que querem na minha aldeia?" Um humano grande saiu da casa, seu cabelo era imensamente grande, seu rosto tinha as feições indígenas. Olhos escuros encararam cada um deles e pararam por um tempo em Angel, Angel aguentou o escrutínio com olhos humildes. Ele não tinha intenção de se mostrar agressivo, não havia motivo.
"Se o senhor entrasse em nossa Reserva, serviríamos comida e sentaríamos a mesa para uma conversa. Como fazem aqui?" Salvation disse, Honest se esticou. Eles meio que brigavam pela liderança do grupo, embora fosse inútil, Candid e Simple obedeciam Honest cegamente.
O humano assentiu e entrou na casa, eles entraram atrás. Angel quase tropeçou quando percebeu que ela morava ali. O cheiro delicioso dela estava por toda parte e ele acabou parando no meio da grande sala. Havia um canto com...
"Angel?" Honest o encarou, Angel se viu andando e saindo para uma espécie de área gourmet. Não era como as deles, mas havia uma mesa gigante no meio do espaço.
O humano se sentou, o que tinha ficado vigiando eles também. Ele era filhote do líder. Vários outros humanos se sentaram a mesa, inclusive um muito velho que sorriu para eles.
Angel se sentou entre Simple e Sal, Honest e Candid se sentaram do outro lado.
"Vocês três são muito parecidos. Eu nunca vi algo assim, é como se estivessem a frente de um espelho. Como fazem para dividir sua alma desse jeito?" O humano muito velho perguntou.
"Cada um de nós tem uma única alma." Honest respondeu.
"Não é o que parece. Vocês se dividiram em três no ventre de sua mãe, não foi? Era apenas uma alma, na concepção, então a alma de vocês também é a mesma." Ele disse muito convicto do que estava falando, Simple estreitou os olhos, Honest franziu o nariz e Candid apertou os lábios. O humano riu.
"Uma alma só que se comporta de formas diferentes." Ele disse ainda rindo, o líder limpou a garganta.
"O que querem?" Ele perguntou de novo e dessa vez queria ser respondido.
"Viemos saber mais sobre os lobos." Honest disse.
Uma humana muito parecia com ela se aproximou do líder, ele assentiu, a humana e outras começaram a servir comida na mesa. Angel olhou para a porta da casa, ela estava lá, parada, seus olhos escuros muito interessados na conversa.
Candid encheu a boca de comida, Honest lhe deu uma cotovelada, ele engoliu e começou a comer devagar. Simple deu um sorrisinho.
"Um lobo cruzou o caminho de vocês?" O líder perguntou, todos os cinco negaram.
"Nós não os vimos, mas as pessoas falam. Nós viemos conhecê-los, talvez caçar um deles. Vocês os caçam, não é?" Honest disse.
"Sim, mas não por esporte como vocês. Eles são nossos inimigos ancestrais." O líder explicou.
"Animais não são inimigos. Eles têm um instinto predatório, mas isso não chega nem perto ser uma inimizade." Salvation o refutou. O líder sorriu e olhou para o humano mais velho, como que pedindo que ele explicasse, o velho sorriu. Angel gostou dele, ele parecia um sábio que descobriu que a vida deveria ser vivida com leveza.
"Eles têm alma, diferentemente dos outros animais. Uma alma complexa, similar à nossa. E são sim capazes de sentir inimizade. Se duvidam, deixem-se serem cercados por eles e o moreno será poupado se não os atacar, já vocês quatro..." Ele balançou a cabeça, querendo dizer que Angel e os trigêmeos seriam mortos.
O líder se levantou, os cinco se levantaram também, ele voltou para dentro da casa, Angel olhou para todos os lados quando entraram atrás dele, não a viu, mas ela estava ali.
O líder parou a frente de um quadro, um bem antigo, com as bordas desmanchando. Um humano magro, branco, os olhava da tela. Os cabelos eram loiros escuros, ele tinha entradas pronunciadas nas laterais dos cabelos, mesmo tendo feições jovens.
"Feio, não é? Doente, fraco. Esse é Amos Fincles. O filho mais velho de uma família inglesa que se estabeleceu aqui a bem mais de dois séculos, quase três. Eles eram caçadores, vendiam peles. Havia um acordo entre eles e os nossos ancestrais, todos viviam em paz. Até que Amos se 'casou'." Ele fez aspas com as mãos.
"Ele não se acasalou?" Candid perguntou.
"Não como a religião deles mandava. A esposa não saía da casa deles, ninguém tinha permissão de se aproximar. Mas inexplicavelmente Amos começou a aparecer com muita caça. Tanto que a vendia e logo começou a trazer peles. E os comerciantes que vinham do continente começaram a querer exclusividade. As peles dele, a caça, eram as melhores. Mas, estranhamente, ele não era bom em honrar seus compromissos. Às vezes aparecia nos encontros, às vezes não."
Candid riu, o líder o encarou, ele deu de ombros e concluiu:
"Ele não ligava para dinheiro."
O líder bufou, mas assentiu.
"É, parece que sim. Mas então ele foi morto por um lobo. A esposa foi atrás desse lobo, uma coisa estranha, afinal ela era uma mulher. E ela sumiu. A família ficou com o ouro que ele tinha, mas o pai dele, Bartolomeu Fincles, não se conformou com a morte de Amos, indo atrás do lobo. E passou o resto de sua vida atrás do tal lobo. Diziam que Amos tinha um filho, que sumiu também e esse seria o fim da história de Amos se depois de algumas décadas um dos homens da família Fincles não tivesse procurado o líder de nossa tribo, meu tataravô."
O líder parou de falar e suspirou.
"Era o início da nossa ruína. Havia algum tipo de promessa entre as famílias, algo que obrigou meu tataravô a ir com o Fincles em questão atrás de um lobo."
"Não poderia ser o mesmo lobo que matou Amos, você disse que décadas se passaram." Simple falou pela primeira vez, o líder o encarou.
"Lobos têm filhotes." Ele disse, deixando claro que para ele Simple era apenas um filhote. Era verdade, Simple assentiu.
"O lobo devorou os dois, e depois o filho mais velho de meu tataravô. E os filhos do Fincles. E o filho mais novo, que deveria ser o líder, se lançou atrás do lobo e também morreu. Ele já tinha meu bisavô, que se tornou o líder com três anos de idade." Ele sorriu.
"E desde então, uma vez ao ano os lobos aparecem e às vezes nós os matamos e sempre matam um ou mais de nós. Esse é o nosso fardo. Meu filho mais velho foi morto a poucos dias, ainda estamos de luto. A noiva dele foi morta dois anos atrás. Essa é nossa história, acreditem se quiserem."
"Por que vão atrás deles se eles lhes matam?" Salvation perguntou. Como canino era normal que ele perguntasse. Angel e os leãozinhos entendiam.
"Vingança. E o dever de exterminá-los, de garantir que meus netos não serão ameaçados por eles."
"Vocês usam armas. Como podem ser mortos por eles?" Honest perguntou.
"Eles são inteligentes. Nunca estão sozinhos. Parecem ter uma espécie de... Eu não sei, eles..."
"Desviam das balas." Simple completou por ele. Angel ficou surpreso quando o líder concordou:
"Não todos, mas alguns parecem poder fazer isso."
"Isso é impossível." Salvation disse.
"Não, faz sentido. Eu já vou. Obrigado, chefe." Simple disse e saiu da casa, Candid olhou para Honest, Honest deu de ombros.
"Deixe ele ir. Chefe, eu posso perguntar uma coisa?" O líder sorriu.
"Vocês vigiaram minha irmã e os afilhados dela, assim como vigiaram a nós?" Ele perguntou, o líder olhou para seu filhote.
"Não os viram, você disse." Ele acusou o filhote, o humano baixou os olhos.
"Tá brincando? Até Angel que tem um faro de merda sentiu o cheiro deles assim que chegou. O cheiro de um deles mais que do outro." Candid disse a última parte com malícia na voz, Honest riu.
"Estávamos contra o vento e muito longe." O humano tentou se justificar, o líder bufou.
"Leotie." Angel se esticou todo quando ela apareceu na grande sala e foi até o pai dela.
"Eu te disse, pai. Embora tenha sido só uma impressão." A voz dela era linda, baixa, meio rouca. Angel olhou para o quadro do humano feio, ele não podia pregar os olhos nela, não iria conseguir olhar para outro lugar.
"Não foi uma impressão, o idiota do Angel piscou e sorriu para você. O que achou dele? Se gostar de alguém mais experiente e maior, maior em todos os sentidos, é só..." Honest deu um soco na cara de Candid, ele rugiu um palavrão.
"Desculpe o meu irmão, chefe. Ele tem problemas mentais." Honest disse.
"Prob..." Candid ia retrucar, Honest o calou com o olhar.
O velho riu alto, o líder o olhou, mas ele não era Candid que obedecia cegamente, continuou rindo.
"Uma parte gosta de se fazer de engraçadinha, a outra ocupa a liderança. Eu acho isso tudo muito incrível!" O velho disse.
"Estamos atrás de uma de nós. Irmã deles. Ruiva, alta e forte. Ela tem olhos azuis, olhos como os de Angel." Salvation disse, todo mundo olhou para Angel. Os olhos dele não eram como os de Violet. Os olhos dela eram azuis, os dele tinham uma mistura de castanho.
"Não são iguais, os dela eram muito azuis. Os dele são esquisitos." O filhote do líder disse.
"Eu estava falando da pupila. Vertical. Mas então você a viu?" Salvation perguntou.
O filhote do líder baixou a cabeça.
"Sim. E eu sinto muito. Eu atirei, mas ela correu muito rápido, eu nunca vi uma pessoa correr daquele jeito. E ela estava sendo perseguida pelo lobo branco. Eu não consegui acompanhá-los."
"Lobo branco?" Honest perguntou, Candid se sentou no chão, no meio da sala. Prestes a surtar.
"O sangue dela, Hon." Ele sussurrou, Angel engoliu em seco.
Eles tinham achado um lugar onde havia uma grande mancha de sangue seco. De Violet.
"Como eu disse, eu estava muito longe e tentei alcançar, mas cheguei muito depois, não vi o que aconteceu. Eu vi o sangue, porém. Muito sangue. Eu sinto muito mesmo." O filhote disse.
"Ela estava atrás de um grupo do nosso povo, vocês os conhecem?" Angel se surpreendeu com a frieza no tom de voz de Honest. Candid estava segurando as lágrimas, Salvation e ele, Angel, estavam sem voz. Mas Honest continuou perguntando.
"Sim. O povo do Lazarus. Eles moram num lugar inacessível. Atrás de uma montanha. Eles são todos parentes."
"Todos como ele?" Honest apontou para Sal, o líder assentiu.
"Sim. Não há olhos como os seus lá. Todos tem olhos azuis avermelhados."
"Violetas, papai." Leotie adicionou.
"Que seja." O pai dela disse.
Candid se levantou e enxugou o rosto.
"Vou lhes dar a pele do desgraçado de presente, eu juro. Iremos acabar com todos os desgraçados do inferno se mataram minha irmã. Melhor, se ela estiver viva também." Ele disse.
"Cam..." Honest começou, mas Candid rosnou.
"Não, Hon. Eu matarei todos. Todos!" Ele disse e saiu, Honest acenou e saiu atrás dele.
Angel olhou para ela, ela o encarou, seus olhos eram calmos, reservados. Salvation agradeceu ao líder e saiu, Angel teve de se virar e ir atrás dele.
Cada passo longe da aldeia foi estranhamente desconfortável.
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General FictionQue tal não dizer os protagonistas dessa história? Talvez ir escrevendo e deixar que eles assumam o protagonismo? Ou deixar vocês escolherem? Bom, essa é a proposta dessa história. Eu tenho dois personagens os quais /adoraria escrever, mas vou deix...
