BRIANNA ABERNATHY dêem ⭐
Esperança incerta
Orlando, Flórida
Sim, daquela vez estava fadada a sair de Orlando, do centro da Flórida.
Sair da minha vida quase estruturada, romper meu ciclo de amizade recém-
construído e virar as costas para a minha universidade.
Detalhe: naquele mesmo dia.
O Delegado Abernathy tinha uma coleira invisível no meu pescoço, e
seu punho era forte para puxá-la contra a minha vontade. Sempre foi. E,
assim como toda a minha dura cerviz, eu me dobraria às suas vontades, sem
questionar.
Afinal, seria aquilo ou aquilo. Minha intervenção poderia me custar
caro, meu algoz almejava o dia em que eu ultrapassasse a linha imposta a
mim. E eu tinha quase certeza de que estava chegando nela, mesmo que
tivesse amor à minha vida.
A notícia me foi dada por ligação, como quem dizia ir tomar um sorvete na praça em cinco minutos. Sempre foi assim. O desenrolar de nossas
conversas, a falta de compreensão. Sempre vivemos assim, mudando a rota
devido a uma implicação superior, seguindo um caminho sinuoso sob sua
insistência de que nossa rotina era normal.
Normal para ele. Desumana para mim.
Daquela vez, naquele lugar, ele disse que seria diferente. Afirmou que
ficaríamos. Eu até convenci minha melhor amiga a sair de Boston, a vir para
cá.
Achei que iria acabar.
Percebi que, assim como o sedento no deserto escolheria a água em vez
da comida, preferiria um sermão do delegado a ter de ouvir aquilo pelo
telefone, e foi por isso que entrei pelas portas da delegacia como um soldado
imparável.
- Oi... nós vamos entrar... - minha amiga falou, completamente sem
graça, para a mulher que ficava na portaria enquanto eu marchava para
dentro, olhando fixamente para o percurso que deveria fazer.
Mavi acompanhou meus passos sem entender absolutamente nada. Eu
não contei o que meu pai tinha dito na ligação e ela também não me
perguntou. Com certeza, minha revolta era indicativo de que iria explodir se
me cutucasse, a coitada preferiu falar de tudo, menos sobre o assunto em
questão e mesmo sabendo que não responderia. Não importava o que fosse.
- Você parece não ter uma gota de apreensão neste lugar - ciciou,
tentando disfarçar que se encolhia sob os olhares dos policiais enrijecidos, tal
como maldições esculpidas para matar. - Ah, é. Às vezes, me esqueço de
que você cresceu em meio às armas e aprendeu até a usar elas, mesmo
escondida e contra a vontade do seu pai... - Suspirou. - Essa é Brianna
Abernathy nas horas que não está à procura do pé no saco do Michel. Tinha
até me esquecido de que você não é uma completa idiota - completou e lhe
entreguei um olhar furioso, antes de empurrar a porta do escritório de
Magnus Abernathy.
- Dê meia-volta e suma daqui. Estou ocupado. - Ele mal esperou
meus pés se acomodarem no lugar.
- Eu não quero ir com você. - Joguei minha escolha sobre a mesa,
mesmo sabendo que ele não me daria chances de escolher nada.
Silêncio.
Os dedos cantarolavam por folhas e mais folhas, desenhando sua
assinatura sutilmente, como se a caneta não estive à mercê da besta que vivia dentro dele.
- Eu disse que não quero ir! - insisti, o choro querendo fechar a
minha garganta. Com passos rápidos, me aproximei da mesa e coloquei as
mãos sobre as folhas impedindo que continuasse me ignorando. - Não
aguento mais viver assim! Qual a parte do "eu não sou um animalzinho, para
viver pulando de galho em galho nas suas costas todas as vezes que é
transferido" você não entendeu? - Soltei em forma de desabafo, sabendo
que feria a sua autoridade e esperando pelo pior. Ele deixou a caneta de lado
para me encarar.
- E qual a parte do "eu mando e você obedece" ainda não entendeu,
mesmo depois de todos esses anos? - Levantou-se como uma sombra
imponente, circulando a pouca parte sã que eu usava para tentar me defender.
- Por que não vai sozinho? - ciciei a pergunta, contendo mais do que
apreensão no peito e reprimindo o medo.
- Porque você não manda em algo. Eu mando em você e eu digo que
você vai aonde eu for. - Suas pupilas se dilataram. - Eu digo para você
calar a porra da boca e me obedecer, e você cala a boca e me obedece. -
Soltou o ar pelas narinas. - Fui designado à outra delegacia por dois anos. É
só o que precisa e vai saber antes de ir para casa, fazer as malas e me esperar
no banco de trás do carro.
Era o ponto final; eu deveria me virar e sair, depois que ele se sentasse
na sua poltrona marrom de couro.
Não o fiz.
- Ficaríamos aqui fixamente e já estamos saindo com menos de três
meses? - perguntei, segurando o tremor dos lábios.
- Acontece - grunhiu, me fazendo piscar algumas vezes.
Era como se eu fosse uma planta séssil. Como se não pudesse criar
raízes, porque, mesmo tendo acabado de completar a maioridade, meu pai
não permitia que me afastasse.
- Você precisa ter paciência - completou, tentando esboçar
compreensão.
- Paciência? Como quando você falou que ia buscar a mãe, há 12
anos? - Ele me olhou feio, mas continuei. - Eu tive paciência! Risquei o
caderno inteiro com pontinhos, como pediu, para anos depois você me dizer
que não sabia de nada sobre o paradeiro dela!
- Sua mãe abandonou a família! Sumiu no mundo, garota! Ela nunca
quis ser encontrada, já falei isso mil vezes! - Ela não teria motivos para fazer isso! E você dizia que sabia onde
ela estava.
- Porque você era uma criança, imbecil! Inventei desculpas para não
dizer que sua mãe te abandonou.
Virei o rosto para o lado, não queria olhar para ele.
- Não finja que se importava! - Funguei. - Nunca se importou, nem
comigo nem com a mamãe. Você levava mulheres para casa quase todos os
dias!
- Queria que eu ficasse depressivo, Brianna? - perguntou,
entredentes. - Ou queria que eu aliviasse minhas vontades com você?
Estremeci diante da pergunta, mas não me calei.
- Queria que fosse verdadeiro comigo! - Abaixei o tom de voz. - E
que não me abandonasse também - falei e ele semicerrou os olhos.
- Sempre estive naquela merda de casa! Pare de mentir!
- Esteve na casa, mas nunca esteve perto. Nunca foi pai!
- Para de falar, Brianna!
- Quer que eu pare de falar a verdade?
- Eu mandei calar a boca, sua infeliz! - Demorou, mas ele
finalmente se exaltou, fazendo com que a delegacia inteira ficasse em
silêncio.
Mais silêncio do que já se tinha. Mais escuro do que já se era.
Aquele era o retrato do que eu via, a amostra do que ouvia todas as
vezes que o confrontava. Todas as vezes que tinha coragem para o fazer, na
verdade.
Fugir era sempre a melhor opção, se eu não quisesse perder um pouco
de sangue com um tapa na cara ou deslocar um osso. Me virei para sair dali,
mas ele continuou.
- Estive pensando que talvez ela possa estar lá. - Parei. Sua voz
parecia amarrada, mas ainda saía. - Em Boston.
- Vamos voltar para Boston? - Meus olhos lacrimejaram e
sobrancelhas franziram.
Era incrível como a menção de uma simples frase esperançosa me fazia
esquecer de tudo em segundos. Bastava ter relação com a minha mãe.
Boston era o berço de todas as minhas lembranças, foi onde passei toda
a minha infância turbulenta, onde vi minha mãe, Elizabeth Abernathy, pela
última vez, antes que ela saísse de casa e nunca mais voltasse.
Meu pai dizia que ela não levou nada, só sumiu no mundo. Insistia em dizer também que sempre a procurou e que aquelas promessas não foram só
para enganar a criança de cinco anos. Um tempo depois, abriu um inquérito
para investigar, mas nunca obteve sucesso nas buscas e, por isso, engavetou o
assunto há alguns meses.
- Nós vamos para um lugar próximo. Ficaremos intercalando entre
Manhattan e Brooklyn. - Sua seriedade camuflou o tom áspero. - Estou
sendo transferido para uma delegacia no burgo - esclareceu. - Pensei que
poderia ter mais chances de descobrir algo se voltasse a olhar por perto, aos
arredores do lugar onde ela nos deixou. - Demorou um pouco mais para que
concluísse com uma pergunta. - Tudo bem para você? - Seu tom soou um
pouco indiferente. Balancei a cabeça em afirmação. - Ótimo.
Era minha mãe. A única de quem precisava, a única que poderia
consertar as coisas e fazer tudo voltar a ser como era antes. Se para ter
chances de ter minha família de volta eu tivesse que me submeter ao controle
do meu pai, que assim fosse.
Comecei a sair de lá, ainda com a cabeça a mil. Só depois percebi que
Mavi esteve comigo o tempo todo. Silvando como o vento, impaciente,
nervosa.
- Então você vai se mudar de novo... - Suspirou. - Que
cansativo... - Seus dedos batiam devagar sobre a perna e ela me olhava com
cuidado, como se tentasse entender a súbita mudança de direção. Procurando
pelo meu eu que desbravou aqueles corredores. Já não era a mesma ali, de
frente a ela.
- Eu não tenho escolha - falei, triste. - É o preço a se pagar quando
se tem um "bom delegado" como pai - completei.
- Você se refere ao "bom" em relação a fazer o trabalho sangrento,
pesado e perturbador?
- Você entendeu.
- E o Michel? - Seu tom de curiosidade saltou em cima de mim.
- Ele vai me ligar, se quiser mesmo ficar comigo - continuei
andando, mas, ainda assim, sentia o ar de surpresa de Mavi.
- Uau! Então Nova Iorque será um recomeço? - Ela estava tentando,
a todo custo, disfarçar a tristeza de me ver ir embora de novo.
Eu sentia isso.
Mas ela ficaria bem. Era necessário.
- Nova Iorque será o surgimento de uma nova esperança, Mavi. -
Sorri para ela. - Não vou abrir mão da minha mãe, ela é a chave para tudo.Se ela voltar tudo vai ser como era antes, e isso é a única coisa que me
importa.

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AO CAIR DA NOITE
FanfictionLivro 1 O homem mais poderoso dos EUA te ofereceu um emprego como babá. Ele precisa de ajuda para cuidar de sua doce filha, que acabou de perder a mãe. Só tem um problema. Ele nunca está em casa. Você o encontrou só algumas vezes - e há meses isso n...