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BRIANNA ABERNATHY
Rasgada

Antes que me levantasse, recebi um chute perto dos seios. Foi uma dor
que nunca senti na vida. Meu corpo contorceu pelo chão, sentia na carne a
ponta de seu sapato social bater em mim mais e mais vezes.
— Vadia! — ele continuava gritando. Ergui os braços, tentando
proteger o meu rosto, mas sua mão me puxou pelo cabelo.
Meu grito morreu quando dois socos seguidos me atingiram o rosto, ele
me jogou no chão e finalizou com mais um pontapé, daquela vez em minha
cabeça.
Silêncio.
Senti o gosto metálico do sangue na boca, meu olho esquerdo inflou,
envolvido por uma bolha de ar quente e a ardência, que tomava meu nariz,
assemelhava-se a cócegas se comparado ao rosto inteiro formigando.
Minhas lágrimas queimaram como lava sob a pele, coloquei uma mão
no chão, sentindo o sangue quente espalhado pela porcelana, e com a outra,
segurei os seios doloridos, comecei a me levantar devagar, mas parei sentada de costas para ele, sem força alguma nas pernas para ficar em pé de uma vez.
— Eu queria dizer que isso serviria para que aprendesse, mas sei que
não vai. Você nunca aprende nada! — Jogou alguma coisa na minha direção
e ergui o braço por instinto.
O pequeno objeto quicou no chão e parou perto de mim, era um
pendrive.
— Mandei entrar lá e me ajudar a destruir um a um. — Ele segurou
meus cabelos de novo, com força, me arrancando um longo gemido de dor.
— Mas você preferiu abrir as pernas para um criminoso! — Me empurrou
contra o chão e por pouco não bati a cabeça.
Naquele momento, mesmo depois de ter ouvido tanto, senti que aquelas
últimas palavras doeriam mais do que qualquer surra.
Meu coração pareceu se despedaçar de forma tardia, como se esperasse
aquilo dissolver, a minha mente assimilar. Só então percebi meu corpo inteiro
como um grande chuvisco, formigando. As lágrimas ganharam mais força e
passaram a banhar minhas bochechas doloridas.
Aaron fez com que a gravação chegasse ao meu pai. Me usou para
atraí-lo.
— Você não deveria carregar o nome que tem! O meu sobrenome! —
Seu brado me fez estremecer. Voltei ao momento em que estávamos em um
piscar de olhos.
O delegado estava transtornado por ter assistido a mim com o Alien.
Ele só pararia quando me tivesse imóvel no chão. Eu precisava sair dali.
Ergui minha voz trêmula
— Se não parar agora, aviso que está aqui! — Foi o que consegui
soltar. Só depois percebi o tamanho do problema que causei com aquela
simples frase.
Ele me balançou, repuxando o couro cabeludo dolorido.
— Você está… — Suas palavras foram cortadas quando mais um de
seus tapas fez meu rosto virar. — Me ameaçando? — Senti o ardor do corte
que seu anel fez em minha bochecha. O sangue gotejou no chão e minha pele
esquentou, como se envolvida a fogo. — Vai chamar o criminoso? Se ouviu,
Brianna? — Sua mão forte voltou a agarrar meus cabelos, ele me forçou ficar
de pé. — Está recebendo essa surra, porque ele me enviou aquela porcaria!
Ele acabou com você, sua honra! E está do lado dele?
Tentei, até conseguir me afastar de seu aperto. Minhas pernas
cambalearam ao encontrar a parede, na qual me apoiei e passei a enxugar as lágrimas.
— Não estou do lado dele! Só quero que pare de me bater…
— Não tente se justificar, Brianna! — O grito reverberou pelo lugar,
tampei os ouvidos. — Acabou de dizer que iria chamar aquele meliante!
Falou com todas as letras… Deus… — Riu, passando a mão pelo rosto. —
Estou empenhado nas buscas, dando tudo de mim para realizar não só o seu
como o meu desejo de ter sua mãe de volta, e agora você fala com todas as
letras que me entregaria a pessoas que querem me matar. Eu. Seu pai! Vê que
merece? — Começou a se aproximar. — Você merece tudo isso e muito
mais! — Quando ele ergueu a mão de novo, puxei minha arma da cintura.
— Já chega! — Soltei o grito da alma e ergui na sua direção. — Chega!
— Mantive o cano apontado para ele, mesmo que minhas mãos tremessem.
— Quem te deu isso? — Desenhou mais um passo na minha direção e
eu destravei a arma, dei um tiro no chão e voltei a mirar nele. — Eu disse que
chega!
— Foi aquele marginal, não foi?
— Foi o delegado Jamar. O homem que foi mais pai do que você e me
deu alguma coisa que servisse de proteção naquele lugar. O homem que me
tirou de um cárcere, me deu comida enquanto você se fazia de surdo e cego,
mesmo sabendo da minha situação.
Ele começou a rir.
— São tantas piadas na sua fala… — Passou a mão pelo rosto de novo.
Fazia isso quando estava com raiva. — Proteger do quê, se você pulou em
cima do pior entre os piores na primeira oportunidade? Sua descarada! —
grunhiu. — O que passou na mão dele foi pouco! Deveria servir de lição para
que soubesse quem são eles e como devem ser tratados! Para que fizesse o
que eu te mandei fazer! De que serve essa merda de arma, depois de ter sido
uma vagabunda e entregado a única coisa que te fazia valer alguma coisa
àquele verme? — Engoli a raiva, como se fossem pedras antes de responder.
— Está servindo para me proteger de você. — Olhei em seus olhos
repletos de ira. Mas não tanto quanto os meus. — Peça ajuda ao diabo para
ter o dossiê dos universitários marginais! — Ele rangeu os dentes. — Se você
der mais um passo, vai fazer isso pessoalmente em segundos.
— Não deveria ao menos pensar em falar algo assim para mim, garota.
— Foi a minha vez de rir.
— Não pense que não vou atirar, pai. Não se engane, porque eu
acertaria a sua testa sem pensar duas vezes. Tenho raiva de sobra agora e,acredite, ela sana qualquer tipo de remorso ou falta de coragem.
Comecei a andar para trás, ainda apontando para ele, ouvindo sua voz
como trovões, me atormentando por todos os lados.
— Vai se arrepender, sua vadia! Ainda vou pegar você e te ensinar de
verdade! É igual a sua mãe. Uma maluca infeliz que não respeita um homem
de autoridade! Vai ficar sozinha como ela.
Passei pela porta com arma em uma só não. Com a outra, eu tentava
enxugar minhas lágrimas. Quando me vi livre de sua fúria, abri a porta do
carro, me lancei lá dentro e dei partida.
Segurei o volante tremendo, meu corpo inteiro ardia e minha roupa
estava molhada pela urina que não consegui conter na bexiga, pelos respingos
de sangue, pelo meu suor frio.
Pisei no freio com força. Uma buzina me fez acordar e, quando
coloquei os olhos na estrada, eu estava fora dela.
Desnorteada, sem forças ou equilíbrio algum. Só me restava chorar e
chorar, como nunca na vida, porque a dor que sentia era indecifrável. Ela me
fazia submergir sem dar chances de subir à superfície. Só me destruía e eu
não podia fazer nada para parar.
Entrei com o carro no estacionamento bem devagar, custou chegar ao
alojamento sem ser vista, já que a baderna com os outros calouros
continuava, mas eu não tinha visto sinal do Aaron ou Filippo.
Estava tão atrasada que mal pensei na situação que ambos poderiam
estar, depois daquele caos de iniciação, eu só queria correr para o meu quarto,
lavar o rosto, tomar um banho, encher uma bolsa de gelo e ir dormir com ela.
Como se eu fosse conseguir dormir.
Me arrastei até a porta com sucesso em passar despercebida e torci para
que Meg não estivesse no quarto.Quando girei a maçaneta e abri a porta, o lugar estava vazio, mas não
demorou para que eu ouvisse a voz de Meg bem atrás de mim.
— Bri, onde você estava? Perceberam há pouco que você sumi… — a
fala morreu quando não consegui esconder o rosto a tempo.
— Depois, Meg — ciciei com a cabeça baixa, os cabelos agora
cobrindo os hematomas.
— O que aconteceu, Brianna? — A voz soou horrorizada.
— Não se preocupe, vou ficar bem. Só me dê algumas horas. — Pulei
para dentro do quarto, mas, antes de fechar a porta, Meg ergueu a mão contra
a madeira.
— Você some por vinte minutos, volta nesse estado e diz que vai ficar
bem? Para onde você foi?
— Me dê só algum tempo, Meg, por favor. — Empurrei a maçaneta
com mais força e girei a chave por dentro, ignorando suas batidas insistentes.
Meu choro voltou, daquela vez entalado na garganta. Fechei os olhos e
desci ao chão tentando silenciá-lo, mas era quase impossível, então me
arrastei até o banheiro e desmoronei quando me vi no espelho. Meu pai tinha
feito aquilo, o delegado. Nem em toda a minha aflição naquela universidade,
me trataram com tamanha violência. Mas ele, sim. Ele sempre.
Foi fácil acordar cedo. Na verdade, quase não dormi, e agora com
certeza passaria a manhã inteira no banheiro, tentando esconder aquelas
marcas. Foram horas com bolsas de gelo e pomadas para suavizar as manchas
arroxeadas e seguir para a maquiagem.
Sabia que o dia seria longo e que em algum momento alguém chegaria
perto o suficiente para ver meu estado, então, além de quase cem camadas de
corretivo e base, decidi usar dois cachecóis. Os hematomas estavam distribuídos por quase todo o meu corpo e, mesmo que eu estivesse de calça e
blusa de mangas longas, meus ombros e pescoço estavam um pouco à mostra.
Saindo do banheiro, virei olhando para Meg e seu olhar impaciente. Na
noite anterior, quando abri a porta, me deitei e não troquei uma palavra com
ela. Agora, a veterana estava tal como um guarda na porta. Eu não tinha para
onde correr.
— Vai conversar comigo agora? — perguntou, seu tom envolvido por
cautela.
— Preciso ir pra aula. — Mantive a cabeça baixa a todo momento e
passei por ela para pegar meus materiais.
— O que foi que aconteceu? — Como previ, a garota me seguiu pelo
quarto.
— Meg, não tenho tempo… — Foi tarde quando tentei desviar de suas
mãos. Eu estava muito fraca e ela conseguiu me manter na sua linha de visão
ao segurar meus ombros.
Quando viu meu estado, sua boca entreabriu ligeiramente.
— Brianna, que aconteceu com você? Foi o Alien? — Ela olhou em
meus olhos, minha pele a latejou sob a tensão que emanava de suas
perguntas.
— Não. — Me virei tocando suavemente o lugar dolorido.
— Você está quebrada. Quem fez isso?
— Não importa agora. — Segurei meus livros. — Preciso ir.
— Mas…
— Não quero falar sobre isso, Megan. — Saí pela porta e segui pelo
corredor.
Só precisava chegar na sala de aula e me debruçar sobre a mesa para
captar as explicações do dia, antes de me trancar ali de novo.
O movimento estava ainda maior que nos últimos dias, provavelmente
a chegada de mais universitários era um dos motivos. Fechei os olhos, o
sopro do vento frio silvava pelas grandes janelas do pavilhão e o som dos
meus passos se misturavam às conversas, burburinhos, pessoas sugando o
capuccino em seus canudos nada recicláveis, gemidos abafados em uma das
salas em manutenção.
Nada novo sob a pouca luz solar.
O cheiro característico de drogas sendo inibido pelo perfume das flores
de cerejeira molhadas era um acalento. Dizia muito sobre como o diferente
apaziguava. Trazia equilíbrio.Inspirei fundo. Mesmo que fosse impossível, desejei não encontrar
nenhum membro da gangue, pelo menos naquele dia. O anseio de permanecer
invisível intensificava quando me lembrava do Alien.
Seria pedir demais?
No entanto, para provar ser inevitável, não precisei ao menos erguer os
olhos para percebê-lo no canto de um dos corredores.
Aaron.
Seu cheiro familiar me alcançou as narinas e, pela visão periférica,
percebi seu vulto.
Abaixei um pouco a cabeça, mantendo os livros no peito enquanto
caminhava com certa dificuldade. Eu não queria olhar na cara daquele
desgraçado. A culpa daquilo tudo era dele.
Seus passos me acompanharam, permaneceu em silêncio, mas pude de
sentir que me encarava e mordi os lábios, com os olhos dançando por nossos
pés.
Ele usava a calça preta com listras azuis da fraternidade, o que
raramente acontecia, e o tênis caro riscava a porcelana, seguindo lado a lado
comigo. Quando percebeu que eu o ignorava, tão rápido quanto um flash de
luz, colocou-se na minha frente.
— O que foi? — Fiquei em silêncio, procurando por uma válvula de
escape. — Soube que não saiu do quarto a manhã inteira — complementou e
me virei para entrar na sala, mas sua mão agarrou o meu braço, para o meu
azar, justamente na parte mais dolorida. Soltei um gemido de dor, deixando
os livros caírem no chão.
Aaron arregalou os olhos, afrouxando os dedos, e me pegou pelos
ombros.
— O quê… — Sua mão ergueu meu rosto e pude sentir, como se uma
imensidão de pura escuridão me encarasse. Abri os olhos, lacrimejando, e vi
os dele transformados em algo irreconhecível.
Antes que eu pudesse lutar, me atirou em seus ombros e caminhou
comigo até o banheiro feminino naquele corredor.
— Sumam daqui! — gritou com um grupo de meninas, que evaporou
em um piscar de olhos. Ele me colocou de pé e voltou a erguer o meu queixo,
mantendo uma força desumana ali, contra a qual eu não conseguia lutar.
— Me deixa em paz! — ciciei. Seus olhos continuavam dançando por
meu rosto com as sobrancelhas franzidas e uma seriedade perturbadora.
Em um impulso, tirou a camisa que estava usando e abriu a torneira da pia atrás de mim, umedecendo-a. Seus dedos levaram o tecido ao sabão perto
da pia e ele o esfregou ali. Quando me debati, me prendeu ao seu corpo com
um de seus braços.
— Não resista! — Me segurou com força passando o pano pelo meu
rosto. Gemi quando a fricção apertou a bolsa debaixo de um dos meus olhos.
Estava tão roxo e dolorido que parecia pegar fogo. Custou para que eu
conseguisse cobrir com maquiagem e, agora, Aaron desmanchava tudo.
— Para com isso! — Era uma merda estar tão fraca quando eu queria
dar um soco na cara dele. Estreitei as sobrancelhas, entregando a raiva que
sentia, mas foi olhar para ele e perceber que tinha as pupilas tão escuras
quanto um abismo, narinas dilatadas e respiração acelerada.
— Quem fez isso com você? — Jogou a camisa no chão e me puxou
para perto. — Fiz uma pergunta, Brianna! — Fiquei em silêncio, sentindo
seus olhos me examinarem, mesclando entre algo assustador e reconfortante
ao mesmo tempo. — Quem foi? — Virei o rosto. Estava tudo entalado na
garganta e, ao mesmo tempo que queria falar, todas as palavras sumiam. —
Quem fez isso, Brianna? — Me sacudiu e, quando puxei o ombro dolorido,
ele arrancou meus cachecóis e baixou a blusa de uma vez. Os hematomas em
meus seios, clavícula e pescoço estavam à mostra. Sua boca entreabriu e os
dentes cerraram com força.
— Me deixa em paz! — gritei e empurrei suas mãos. Ele sacudiu a
cabeça em negação, o maxilar travado.
— Nem por um caralho. — Me segurou ali e, quando captei que faria a
mesma pergunta, ergui a voz.
— A culpa é sua. — Senti como se sua energia escaldante desse trégua,
farfalhando com o vento, diminuindo aos poucos em um franzido
acinzentado. — A culpa é sua, Aaron Walker.
Silêncio.
Ele sabia o que tinha acontecido. Sabia quem tinha feito aquilo e
porquê fez.
— Mas olha pelo lado bom. — Ergui os ombros, segurando o choro de
raiva. — Funcionou dessa vez. Você só não estava lá para pegar ele. —
Funguei. — E não estou danificada a ponto de perder o meu valor para seus
planos, Alien. Ainda continuo sendo a filha do delegado, pode tentar de novo.
— Meu sorriso falso morreu e o empurrei com dificuldade, puxei minha
roupa de volta ao lugar, peguei os cachecóis e saí de lá sem olhar para trás.

Dêem ⭐

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