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AARON WALKER    dêem ⭐
LÍDER (ELE)

Já era noite quando meus pneus giraram feito loucos pela pista que
levava ao Brooklyn, guiando os babacas que seguiam atrás de mim em
direção ao nosso novo império, o que tornaria nossa gangue o maior pedestal
naquele lugar.
Era esse título que ganharíamos quando eu me tornasse líder dos
Skulls. Era o que merecíamos depois de tantos dias cinzentos.
Semicerrei os olhos, o sopro frio do inverno mais parecia ter vindo de
alguma parte do inferno. Deixava meu para-brisa esbranquiçado, me
obrigando a limpar a cada dois segundos.
Estava nervoso, mas por incrível que pareça, o motivo não vinha de
nenhuma dessas questões. Pressionei o volante contra os dedos e impulsionei
o carro a andar mais rápido, enquanto na minha cabeça só se passava um grande: "tem alguma coisa errada".
Na verdade, tinha muita coisa errada naquele caralho, e todas elas se
relacionavam com a Abernathy.
Primeiro, qual era a intenção da filha do infeliz? Por que voltou? Com a
oportunidade de sumir, com a ajuda do traste do Jamar, o que ela fazia na
Libert? E mais confuso do que essa merda toda era o fato de que eu estava
me dobrando demais por ela. Mesmo que fosse pelos meus objetivos.
A vadia não hesitou em lançar fogo na minha direção e tudo que senti
foi um tesão desgraçado que me fez gozar quando bati a porra de uma
punheta pensando nela.
Eu estive preso.
Na cadeira de madeira da diretoria, por alguns minutos, mas eu, Aaron
Walker, estive preso. Colocaram a porra de uma algema em mim e eu
permiti. Não fazia isso nem em brincadeiras, tudo porque preferi não confiar
em mim. No meu autocontrole. Preferi prevenir para não a machucar, mesmo
tendo certeza de que não esmagaria a única chance de ter o delegado nas
minhas mãos.
No fim, era tudo pela vingança, mas só girava em torno daquela garota,
e isso me tirava do sério.
Parecia que, quanto mais eu cavava, menos sabia sobre ela. Por mais
que tentasse, era ela quem me lia, quem tinha algum tipo de poder sobre as
coisas,e que me fazia andar em círculos.
Pisei no freio e virei o volante quando percebi que quase bati na traseira
de um carro bem na entrada da mansão.
Olhar para lá era como receber um maldito soco no estômago. Foi onde
aconteceu a festa, sua última comemoração antes de perder a vida. Onde o vi
sendo o puto corajoso que sempre foi. Um verdadeiro líder.
Mas, naquele dia, o lugar era um mero ponto de encontro, escolhido
para tratar de assuntos importantes. Daquela vez, a minha coroação em seu
lugar segundo a concordância da maioria, claro. Coisa que eu não tinha
dúvidas de que teria.
Vou fazer por merecer a sua cadeira, irmão.Funguei e desci do carro para encontrar com Brandon na porta do lugar,
me esperando para entrarmos enquanto Benedete e Ryus monitoravam a
entrada com seus carros.
— Tá chapado, cara? — Ele nem esperou que eu pisasse no batente
para perguntar.
— Eu não viria tomar posse do Brooklyn como um doido cheirador.
Por que a pergunta? Pareço ter comido pó?
— Se tratando de qualquer outro filho da mãe, eu diria que sim, caso
flagrasse a mini perseguição à isca no refeitório por pura diversão. — Olhei
para ele com os olhos semicerrados. — Dando lugar ao bom humor? É
diferente de você. Esses não são seus jogos. A coisa toda deveria ser sangue e
dor até que ela abrisse a boca.
— Gosto de ver o constrangimento dela. — Ri, me lembrando da cena
no quarto. — Além disso, preciso descobrir o que quer ali, por que voltou, e
acredite — olhei para ele —, não vou ser bom.
Entramos no lugar, vendo um cara quase morto no chão da imensa sala
detalhada por tons madeira. O cheiro de mofo só não era tão forte quanto o de
sangue. Ao redor dele, os homens seguravam armas e o encaravam como
animais sedentos por sangue.
Me aproximei junto a Brandon para ver que o antigo Conselho,
formado por uns vinte homens, todos designados pelo meu irmão, estava
reunido. Percebendo que o homem nocauteado tentava se arrastar e pisei no
pescoço dele, mantendo-o ali.
Afinal, para estar naquela situação, sob a mira de tantos dos homens,
algo ele tinha feito.
Nem precisei perguntar e já começaram a falar. Tom, o cara negro com
rosto redondo, parecia ser o único que não tinha chupado um limão.
— Tivemos problemas para tomar uma decisão importante. Bruce era a
minoria, iria colocar a gente em risco. — Olhei para eles e acenei devagar,
tirando a arma da cintura para finalizar o serviço. Depois de dois tiros no
crânio, estávamos frente a frente.
Encarei os homens ao meu redor. Não eram estranhos para mim; muito
menos eu para eles. John fazia questão de me chamar de seu aprendiz pelos quatro cantos daquele lugar, já tinham meu rosto cravado na mente, mas
ainda assim seus olhares eram desconfiados, me avaliando com cuidado,
enquanto esperavam para ver se eu tinha o que era necessário para liderá-los.
— Como as notícias correm, creio que já saibam que as babás do meu
irmão me levaram a uma reunião — falei. Todos permaneceram atentos. —
Eles apostam em mim para tocar isso aqui na ausência permanente do John.
Perguntaram até o meu preço. — Fiz uma pausa, encarando cada um. — E
querem saber o que pedi em troca? — Silêncio. Os ventos silvavam ao nosso
redor balançando as janelas. — Pedi caminho livre para arrancar a cabeça do
homem que matou seu líder. — Percebi o aceno de alguns. Brandon, ao meu
lado, acenou também, me dando apoio. — Vocês todos conhecem a história
do meu irmão, do que ele construiu aqui no Brooklyn. Agora, é meu dever
manter essa chama acesa. Não sou aquele puto desgraçado, mas compartilho
o mesmo sangue, a mesma determinação. — Minha voz cortou o ar,
carregada de convicção. — Estamos juntos nisso.
O silêncio pairou por um momento, as palavras ecoando entre nós.
Então, um a um, os membros assentiram. Um gesto sutil, mas significativo. A
aceitação se espalhou como um fogo entre eles e, ali, eu soube que lideraria
oficialmente aquela porra.
Relaxei a pressão que exercia sobre o maxilar e ergui um pouco mais a
cabeça. Assumir o lugar do meu irmão não era apenas uma questão de poder,
era uma herança suja, manchada de sangue e tragédia. Um caminho tortuoso
que tinha a minha cara, uma desgraça na qual eu não via erro.
Afinal, ser quem eu era me fazia sentir conforto ali, no trono, na
escuridão. Como quando eu o via ordenhar o rebanho.

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