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BRIANNA ABERNATHY
Coagida

Aaron pareceu crescer diante de mim, como uma sombra escura saindo
de seus quase dois metros para algo exorbitante. As pupilas seguiram a
mesma linha, tomando toda a extensão da íris, tornando seus olhos
devastadores como a noite.
— O que você disse? — A interrogação fez meu coração acelerar. Ele
me empurrou contra a parede. — Perguntei o que disse.
Funguei, virando o rosto, mas ele apertou minha bochecha com força e
me fez voltar.
— Sinto muito… — Meus olhos embaçaram em meio ao choro e os
dele se fecharam com força. Seu corpo balançava, como se não conseguisse
comportar a raiva ali dentro, uma veia saltou na testa e ele mordeu o lábio
inferior como se pudesse arrancar um pedaço e, no fim, soltou uma
gargalhada.
O som reverberou na minha alma e voltou distribuindo arrepios pela
pele. Cada célula, cada átomo, sentiu.— Sai… — sussurrou e apontou para a porta. Em resposta, me encolhi.
— Sai! — A curva em seus lábios desapareceu e a voz se tornou um
verdadeiro trovão.
Era ficar e morrer, correr e morrer; eu não tinha opções, mas estava
disposta a tentar salvar minha vida.
Passei feito um raio pela porta, sentindo a cabeça pesar, arder, como se
fosse explodir por tanto prender o choro.
Olhando para trás de forma frenética, vi quando ele pisou fora do
banheiro, imponente e imbatível puxou a máscara pendurada no cós da calça
para encaixar no rosto. O barulho das chaves do carro balançando a cada
passo que dava na minha direção parecia golpear meus ouvidos durante a
corrida até a porta.
Quando finalmente estava do lado de fora, acenei para um táxi e me
joguei lá dentro, a tempo de não o ver sair. Só quando o motorista deu
partida, olhei para trás e lá estava.
Sem camisa, com o colar no pescoço, as veias saltadas nos braços,
respiração ofegante, os cabelos escuros ao vento, e a máscara.
Seu tronco torceu para frente e, com as unhas, cavou pedregulhos no
chão. Agarrando duas grandes pedras que ficavam salteadas no chão, voltou a
se erguer e meu coração ameaçou parar.
— O senhor poderia, pelo amor de Deus, acelerar? — Não faço ideia de
como não gaguejei, mas o homem me olhou pelo espelho do carro e
simplesmente ignorou meu pedido.
Para se arrepender segundos depois quando, com dois estrondos, o
vidro virou mil e um quadradinhos contidos pelo plástico antiestilhaço. Me vi
encolhida enquanto o pneu derrapava e ele voltava a si, aumentando a
velocidade de uma vez.
Não me levantei. Não ousei olhar pelo vidro, porque não precisava de
mais provas.
Ali, soube que o Alien tinha voltado, eu o trouxe de volta. E, daquela
vez, não sabia se conseguiria escapar de sua fúria e de ter o coração
dilacerado, porque…
Dali em diante, tudo que ele fizesse seria reflexo do que sentia de
verdade.
E ele exalava o desejo de me matar.Minhas pernas ainda sentiam o balanço do táxi e meu coração não
parou de palpitar, mesmo depois de já estar um tempo em terra firme e longe
de pedras no vidro.
Os sons do ambiente do alojamento da irmandade estavam lá, como em
todos os outros dias, e a pior parte disso era que já não passavam aquela
sensação de “estar no meu quarto”, mas de desespero. Tudo me fazia ter um
espasmo de susto. Conversas no fundo, camas sendo arrastadas no quarto ao
lado, o som das líderes de torcida ensaiando não tão distante dali.
Era como se eu estivesse ficando louca, paranoica. E como se não
bastasse, me obrigava a prestar atenção nas vozes trêmulas das minhas
amigas, as mesmas que também ameaçavam me matar depois de descobrirem
pelo que passei nos últimos dias até ali.
Contei tudo em um ato de desespero, por não querer enfrentar aquela
merda toda sozinha.
— Você ficou maluca, caralho?
As vozes de Meg, no quarto comigo, e Mavi, em uma chamada de
vídeo, reverberam em uníssono, como se tivessem ensaiado.
— não tive escolha! — gritei com elas também. — Aaron tem meu pai
nas mãos agora! Se ele fosse atrás dele, tudo estaria perdido.
— Quem garante que o seu pai está falando a verdade? — Meg tremia,
andando de um lado a outro pelo piso do lugar.
Inspirei fundo, me agarrando à prova que ele me deu naquela chamada:
a voz feminina murmurando algo baixo no fundo.
— ouvi uma voz… parecia ser dela. — Me expliquei sob o olhar
impaciente de Mavi do outro lado da tela do meu celular. — Não pude
arriscar, o destino dos dois estava nas minhas mãos.
Diante das minhas palavras, Mavila se sentou no chão de seu quarto em Orlando, fazendo sua imagem, já trêmula, se distorcer com o movimento, seu
suspiro atravessou o alto-falante como um desabafo.
— Você precisa sair daí agora — falou, a voz sendo cortada pela
conexão instável.
Meg, que completava a vigésima volta no quarto, ergueu a voz.
— Não consigo dirigir, precisamos chamar um táxi.
Fechei os olhos e inspirei fundo. Se eu não tivesse pedido ajuda, com
certeza, já teria chegado a uma solução.
— Preciso pensar — pontuei. — Pensar no que fazer.
— E você acha que tem tempo pra isso? — perguntou Meg, e Mavi
citou as horas.
— São nove e meia, temos que ter um plano formado até às dez.
Minha cabeça latejou quando as vi cronometrando os passos. Suspirei
de exaustão e ansiedade.
— Meninas, calma! Ele não vai entrar aqui e decepar o meu pescoço!
— Falei o mais alto que podia para cobrir suas vozes, mas o grito que deram
sem seguida foi insuperável.
— IMAGINA… ele não é NEM um pouco DESEQUILIBRADO.
— Não é. Quando ele não quer ser… — Mordi o lábio.
— Brianna, chega. Você vai dar um jeito de sair daí e voltar pra cá —
Mavila falou, sua voz saindo mais robotizada que uma assistente de software.
— Para Orlando? — Senti as sobrancelhas se enrugando.
— Sim. Hoje mesmo, já estou abrindo o site, vou comprar passagens.
— Percebi o balanço da câmera de novo, ela estava com seu notebook.
— Passagens? — questionei e Meg deu sinal de vida daquela vez,
estática, olhando pela brecha da cortina na janela.
— Mas é claro! A outra é pra mim! Eu que não fico aqui. Pra ele me
esfolar viva até eu dizer onde você se escondeu? — Balançou o dedo
indicador. — Não, senhora.
— Tudo bem, mas… quanto tempo pro voo mais próximo sair, Mavi?
— Olhei para tela, atenta.
Seus olhos apreensivos me deixavam nervosa.
— Eu estou procurando o mais próximo e rápido possível, mas… pode
demorar.
— Você pode ir me mandando mensagens e… — Antes que eu
continuasse, ergueu a mão.
— Espera! — Parei. — Tem certeza de que não dá pra ir à polícia? Ou ligar?
— Aaron daria um jeito e, no fim, seria pior. Acredite em mim. O
melhor a se fazer agora é controlar a situação, ou morrer tentando. — Ri,
nervosa, e ela abaixou os olhos. — Não quer desligar? — perguntei,
percebendo que hesitava em encerrar a chamada.
— Se cuida, Brianna, e pelo amor de Deus, não faça loucura. — A voz
reverberou um pouco mais baixa. — Vou conseguir as pesagens e já te ligo
de volta.
— Tudo bem, mas quando você… — A imagem dela sumiu.
As luzes se apagaram de uma só vez junto ao barulho parecido com o
de um gerador sendo desligado.
Me virei para a janela, os pavilhões do campus permearam na
escuridão.
Vozes desesperadas das universitárias passaram a ressoar pelo
alojamento e eu fiquei ali, com a tela do celular como única fonte de luz e
com uma única certeza na cabeça: fodeu.
— Meg? — sussurrei seu nome e segui até ela com o celular. Não
estava na janela, mas no chão.
— Tô bem, foi só uma tontura.
Me coloquei de pé e segui até a minha gaveta, na parte de baixo. Peguei
a arma e a chave, amarrei-os com um elástico de cabelo e os coloquei na
cintura.
— Eu não sei…
— É algum tipo de simpatia? — perguntou.
— São as coisas importantes que, se eu precisar correr só com a roupa
do corpo, precisam estar comigo.
— Ah… legal, e você vai sobreviver com uma xuxinha, uma arma e
uma chave.
— Shh! Meg! — Um movimento estranho passou pelos corredores,
parecia ser garotas cochichando, ouvimos todas entrarem em seus quartos e
trancarem as portas. Olhando pela janela, nada de anormal, além do apagão,
acontecia no campus e minha cabeça começou a girar.
— Que merda ele tá planejando? — Soltei um grunhido. Megan parecia
estar zonza.
— Eu não sei… — Seu telefone tocou.
— Você tem internet?
— Dados móveis.

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