BRIANNA ABERNATHY dêem ⭐
LIVRE?
Alguns meses antes
— Pai, trouxe seu café. — Acomodei o capuccino na ponta da mesa
polida de madeira. Meu dorso enxugava o suor da testa pela corrida. Ele não
gostava de atrasos, e eu tentava dar o meu máximo para fazer tudo direitinho.
No fim, não recebia ao menos um “obrigado”.
No entanto, o fato que me fazia questionar a veracidade do pedido se
apresentava a mim pela poltrona vazia. Não havia ninguém lá. O estalo do
relógio contando os segundos sussurrava o aviso de que eu deveria sair dali.
Era estritamente proibido estar no escritório do delegado sem sua
presença. Eu sabia, mas resolvi arriscar minha cabeça, só daquela vez. Nunca
tive acesso a nada relacionado a sua profissão. Nada relacionado a ele, na
verdade.Considerava um milagre ter recebido aquele pedido, por ele deixar tão
claro quanto a luz do sol que odiava quando eu ia à delegacia, seja em qual
cidade estivéssemos.
Talvez ele quisesse me dizer alguma coisa, e descartando a
possibilidade de outra mudança, só restava uma coisa: minha mãe.
Como um aviso bom do Universo, reparei que existia uma fotografia
dela em uma pasta. Eu sabia o que era. O que significava. Estava bem na
minha frente, ao alcance das minhas mãos. Bastava um passo.
Suspirei, nervosa. Meu pai contou a verdade sobre ela ter saído de casa
por escolha própria, mas eu não entendia o porquê de nunca ter entrado em
contato comigo desde então, por isso ele abriu uma investigação quando
percebeu que ela havia, de fato, desaparecido. Minha insistência o venceu, fiz
bom uso dela quando podia e agradecia a mim mesma por isso.
A investigação durou meses sem respostas, mas finalmente eu o via
remexendo aquelas coisas de novo.
Além da etiqueta que nomeava os dados confidenciais da investigação
de Elizabeth Abernathy, percebi que alguns documentos também estavam
espalhados sobre a mesa. Era hora de usar a cabeça.
Comecei a fotografar folha por folha. Se fossem pistas, eu as
investigaria também, sozinha, sem que ele soubesse. Faria o que mamãe
sempre instigou em mim, a ruptura da normalidade de uma jovem que se via
presa pelo resto da vida. Ela me ensinou que deveria voar. Para isso, tinha
asas.
Eu o faria. Por ela. Assim como aprendi a atirar por mim, e meu pai só
soube quando acertei a perna de um tarado na rua.
Garota impertinente, ele dizia quando me via trilhar os caminhos
proibidos para mim. Eu deixava meu chapéu de capitã de lado, esmorecida.
Você é brilhante!, ela dizia quando eu erguia o remo do nosso navio
imaginário e me intitulava capitã, aos cinco anos de idade, fazendo escolhas,
mandando nos tripulantes.
— Vamos lá, mãe… — Voltei minha atenção às folhas. As letras
minúsculas sendo captadas pela minha câmera. E, então, uma chave.
Uma chave?
Em cima da pasta. Escorregou quando a abri, mas era tão estranha que
me chamou atenção mesmo de lado. Como um objeto amaldiçoado,
procurando os dedos do desatento. Uma estrela de seis pontas esculpida em
sua base. Era tetra, quatro segredos em seus dentes.Isso não pertencia à minha mãe.
O que diabos estava fazendo ali?
— E você está remexendo nas minhas coisas de novo. — Meu pai
surgiu, me fazendo pular.
— Só vim trazer o café.
— Mandei deixar na recepção, não na minha sala! — Sua mão bateu
forte contra a mesa, por cima dos papéis.
— Procurando pela mãe?
— Organizando documentos antigos — falou e engoli em seco, lutando
contra a raiva.
— Nós vamos ficar quanto tempo até pular em outro galho? —
perguntei firme, segurando o celular contra o peito, me referindo ao seu
deslocamento constante entre as delegacias da vida.
— Pergunte ao diretor geral. Se ele olhar para a sua cara, considere
uma vitória.
Diante daquilo, me retirei. Não valia a pena debater com o meu pai e,
se insistisse, com certeza iria ser humilhada ou pior.
Cansei de esconder os machucados pelo corpo causados por uma
simples pergunta. E cansei de me mostrar forte, mesmo depois do primeiro
golpe, era o que ele precisava para continuar.
Dias atuais
A chave.
Pisquei algumas vezes. Sirenes, buzinas, barulhos ambientes, todos
assobiavam desde o cume da cidade, como um aviso de que tudo estava em movimento, menos eu.
O sono me tomava. Dias mal dormidos, fome e sede. Eu já via vultos
furtivos, a tontura era parte da rotina. Fechei os olhos.
A chave…
Senti meu cérebro pinicar. Precisava me levantar e tentar fazer alguma
coisa. Mas o quê? Meu corpo se via preso em nuances vivas todas as vezes
que eu apagava. Era como agarrar uma passagem para outra realidade.
Uma realidade onde tudo de ruim me acometia, como algo
predestinado.
— Levanta, Brianna! Ficou acordada até que horas? — meu pai
berrou, ao meu lado.
Minha cama com o cobertor cor-de-rosa mesclava entre uma bagunça e
algo impecável.
— Eu não dormi, não consegui… tinha uma chave. — Franzi o cenho.
— Yume não estará aqui para sempre. Faça alguma coisa que seja útil
e ao menos arrume essa joça de quarto!
Pisquei.
Em meio segundo, estávamos na sala.
O carpete alvo sob meus pés pequenos reluzia com gotas de sangue
vermelho. Meu nariz ardia.
— Eu mandei limpar o sangue! Quer que eu acerte seu nariz de novo?
— Não pai, vou limpar! — Minha voz tremeu, me abaixei.
Tudo girou, de novo.
Era a casa de Mavi. Daquela vez, o cenário me deixou um pouco mais
confortável.
Até que uma mão fria tocou em meu ombro.
— Bri, ele quer falar com você. — Mavila estendeu o telefone na
minha direção. Inerte. Séria.
— Quem é?
— Ele disse que vai matar você.
— Ele? — Não me respondeu mais. Dei alguns passos em sua direção.
— Eu preciso sair daqui, Mavi, mas antes… — Olhei nos olhos dela. — A
chave. — Estendi a mão.
— Qual chave? — Piscou algumas vezes, a franjinha engraçada que
sua mãe fazia em seu cabelo se mexeu junto dos cílios. — Você não precisa
de chaves para abrir portas. Você morreu, Brianna.
Abri os olhos. Eu estava sufocando até perceber que era só mais um pesadelo.
Só um pesadelo…
Contrário do que o imbecil dizia, ele não aparecia em nenhum. As
únicas coisas que eu via eram inúmeras faces do monstro que me fez crescer
debaixo de suas asas, e a chave.
A maldita chave da qual me lembrei de onde tinha visto e que não saía
da minha cabeça, enquanto tentava relacioná-la a Aaron Walker e sua cópia
quase idêntica, no molho que ele tinha pendurado no cós da calça.
Me recostei de novo. A pele tremendo. Conseguir descansar naquele
chão duro, sem sentir os braços, parecia ser impossível, mas o cansaço me
vencia de novo e de novo.
A cada cinco minutos.
Meu olhos pesaram. Não queria, mas estavam tentando fechar. Eu não
resistiria, sabia e provei disso. Era o cansaço vencendo minha vontade, meu
medo.
Alguns minutos se passaram. Sem pesadelos.
Minha carne latejava suplicando para que tivesse mais alguns minutos
com os olhos fechados, mas eu os abri tão rápido quanto a força da porta
sendo arrombada.
Meu coração deu um salto, comecei a ter uma crise de pânico.
— Brianna? — Uma voz soou estranha em meio aos meus gritos.
Meus olhos se arregalaram quando quem quer que fosse apareceu. Era
o senhor Jamar, o antigo delegado do Brooklyn.
— Sou eu! — Ele abaixou a arma que mantinha em uma mira de linha
reta e se aproximou de mim, jogando um tecido denso sobre meus ombros. —
Você vai ficar bem. — Seus olhos travavam uma dança entre me inspecionar
e avaliar as correntes.
Comecei a regular a respiração com um pouco de dificuldade, minha
garganta arranhava a cada mísera tentativa de engolir saliva. O delegado
Jamar trabalhou depressa, em poucos segundos minhas mãos estavam livres e
permiti meu tronco cair para frente, mole, sem forças para me manter firme.
— Vamos sair daqui. — Ele segurou meus braços e começou a me
levantar. — Você precisa vir comigo.
— Eu não vou — sussurrei e ele parou no caminho, seu rosto se virou
para me olhar com calma. Continuei: — Eu tenho que voltar para a
universidade.
O homem me encarou como se eu fosse uma louca.E eu era. Mas era uma louca que faria tudo para encontrar a mãe.
A chave me daria respostas. O Alien me daria respostas. Existia alguma
relação. Não era pura coincidência, não podia ser, e eu precisava descobrir
mais.
— Preciso descobrir qual a relação — respondi. — Vou ficar, sou a
capitã dessa merda de navio — completei e o homem franziu o cenho. Meus
olhos se reviraram sozinhos, me forçando a desligar.
— Pode fazer o que quiser depois, mas agora tem que vir comigo. Foi
sorte ter te encontrado tão rápido. Sermos pegos não é uma opção — falou,
olhando em meus olhos e não tive tempo para debater, porque tudo ficou
escuro.
Apaguei.
Só voltei a acordar depois do que pareceu ser séculos, no sofá em uma
casa grande. Era dia e parecia ser a manhã fria de uma quinta-feira qualquer.
Minha mente girava, meu corpo estava repleto de suor. Não fazia ideia
de que lugar era aquele até ver o velho arrastando os pés até mim e me
lembrar, mesmo que quase vagamente, do que havia acontecido.
O tempo em que passei oscilando entre o mundo real e os delírios de
exaustão me levaram a perguntar qual era a data, e quando descobri que
aquele desgraçado me manteve presa por duas semanas, quase voltei a
desmaiar.
Devagar, o homem me acomodou sentada e buscou roupas —
masculinas —, água e comida. Me viu atacar tudo como um monstrinho
faminto.
— Espero que não tenha achado que eu estava delirando — falei
enquanto mastigava um pedaço de lasanha à bolonhesa. — Vou ficar na
universidade. — Quase engoli o copo junto da água fresca, para obrigar a
comida a se acomodar no estômago dolorido.
— Quem sou eu para dizer o contrário? — questionou. — Se quer
voltar, fique à vontade. — Se abaixou para olhar em meus olhos enquanto,
desta vez, eu engolia um pedaço de torta. — Só não seja pega de novo.
— Eu não vou — respondi.
— O que é tão importante para que volte para os pés de Aaron Walker?
— Não vou voltar para os pés daquele desgraçado. — Dei a ele uma
careta. — E são meus assuntos. — Impus limites. Ninguém deveria saber
qual era minha intenção.
A testa riscada por linhas de surpresa suavizou e ele riu.— Igualzinha a seu pai.
Ele se levantou e começou a procurar alguma coisa na gaveta da sala
cinzenta. Fiquei ali olhando, pensando que estava sendo fácil demais.
— Não vai mesmo tentar me impedir?
Era bom demais para ser verdade.
Ele pareceu finalmente ter encontrado o que estava procurando e veio
até mim.
— Você toma suas próprias decisões, mocinha. E acredite se quiser,
mas esse era o pedido que estava pensando em como fazer a você.
— Você quer que eu volte para lá? — Pude ver o desenho da minha
confusão em seus olhos.
— Não só eu. — Levantou o envelope que tirou do fundo da gaveta. —
Antes de ir, seu pai me mandou entregar isso a você. — Com o olhar
semicerrado, ele me entregou e se recostou no estofado ao meu lado, como se
esperasse que eu lesse. — Eu o alertei sobre a universidade, sabia? Falei
quem são os alunos da Libert University, naquele mesmo dia que você saiu
para o alojamento. Me fiz de bobo, porque era óbvio que ele tinha
conhecimento do lugar onde estava enfiando você, eu só queria saber o
porquê. — Olhou para o envelope nas minhas mãos. — Concordei com ele
pela primeira vez desde que o conheci. — Me olhou sério.
— E por que além de ler, só o está me dando agora?
— Porque quando avaliei sua ficha de inscrição percebi que ao menos
uma coisa decente ele fez: escondeu que você era filha dele. Você não
precisava se envolver em nada dessas coisas ou se colocar em perigo, caso a
camuflagem funcionasse, mas pelo visto as coisas não deram muito certo.
Logo, acho que está na hora de você saber a intenção do seu pai e colocar
isso em prática, já que está determinada a voltar para lá.
E a intenção de Magnus Abernathy estava escrita por extenso, seguindo
sua tara em me mandar usar folhas para pontilhar ou anotar, dizendo as
seguintes palavras:
"Você tem uma lista em branco e uma caneta barata. Entre lá, faça o
dossiê de cada filhote de meliante e entregue em minhas mãos, sabendo que
levará meu sobrenome aos livros da história da justiça. Iremos riscar um a
um junto às suas famílias e limpar esse lugar de uma vez por todas.
Espero que não me decepcione".
Dobrei aquele papel na força do ódio.
— Então essa era a intenção dele? — esbravejei entredentes. — Ele prometeu procurar pela minha mãe! Afirmou que viria a trabalho e que eu
teria um lugar para continuar os estudos aqui enquanto… — Amassei meu
rosto, impaciente. — Ele me trouxe para cá com planos para mim? De me
transformar em um de seus soldados?
O velho me estudou com cautela, mantendo silêncio como se esperasse
pelo cessar da minha indignação.
Não iria passar. Nunca iria.
No fim, Magnus Abernathy havia me ludibriado. Tinha conseguido,
mais uma vez, me enganar para fazer o que ele queria. E o pior era saber que
voltar para lá era um desejo meu, mas ao mesmo tempo dele também. Eu
estaria cumprindo suas ordens, mesmo sem intenção de o fazer, e isso me
fazia ferver.
Me levantei, sentindo fraqueza nas pernas. Queria sair dali como um
raio, cortando desde os céu ao inferno nomeado Libert University, com a
convicção de que era eu quem me mandava, não meu pai.
— Viu do que eles são capazes, menina. Já que vai voltar para lá, volte
com uma missão. — Jamar colocou uma arma na minha mão. O metal frio
enviou arrepios pela minha pele. Era a melhor arma em que eu tinha tocado
na vida. — Seu pai me disse que sabe atirar. Acredito que tenha aprendido
com o melhor.
— Aprendi sozinha. — Virei o rosto de lado. Abri o zíper da mochila
que me acompanhou desde o dia em que pisei na universidade, ao canto do
meu cárcere e agora ali. Puxei a arma e a coloquei na mochila, dois
hambúrgueres e uma coca dividiam espaço com ela no segundo instante.
Meus dedos amassaram o bilhete e o atirei nos pés do velho.
— Vou entender como um “sim” à ordem de seu pai. — Ignorei-o,
investindo força para atravessar a porta principal. — Você estará fazendo um
favor à Manhattan! — Seus passos desenharam o mesmo percurso que eu
fazia. — Se soubermos mais sobre eles, chegaremos aos que estão acima
deles. É o início do cintilar da justiça neste lugar!
— Justiça essa que você não foi capaz de manter no Brooklyn. — Sorri.
— Mas não faz mal, meu pai também fugiu.
— Seu pai não fugiu, ele continua lutando. Essa ordem é a prova.
— Errado! — Dei a ele o pior dentre os meus olhares. — Ele fugiu e
colocou uma carga nas minhas costas. Aquela merda de bilhete é a prova.
Impulsionei a quase corrida. Não queria ouvir sequer vestígios da voz
dele.
— Cuidado ao entrar mais uma vez naquele lugar, Abernathy. Espero
que esteja ciente de que a Libert University não forma profissionais, mas
criminosos.
Segui, colocando forças nos pés com os olhos atentos em algum táxi.
Manhattan que se foda. Os criminosos que se ferrem. Meu pai que
suma! É o que ele faz de melhor.
Me arrastar até a Libert não seria uma tarefa fácil, mas, com tudo que
eu tinha nas mãos, era hora de fazer o que o Delegado Abernathy não teve
capacidade de fazer.
E, sim, anotaria os nomes de cada um daqueles imbecis em uma lista.
Mas não para o meu pai ou seu ego, para mim. Por mim. Para eliminar um
por um, na ordem que me confrontassem.
Aaron Walker estava no topo dela.
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AO CAIR DA NOITE
FanfictionLivro 1 O homem mais poderoso dos EUA te ofereceu um emprego como babá. Ele precisa de ajuda para cuidar de sua doce filha, que acabou de perder a mãe. Só tem um problema. Ele nunca está em casa. Você o encontrou só algumas vezes - e há meses isso n...
