AARON WALKER dêem ⭐
EU A ENCONTREI
Descobri que ela havia sumido pela manhã, quando passei no prédio
para deixar comida o suficiente para que não morresse de fome, e me deparei
com suas correntes jogadas ao chão.
Mas, naquele momento, a tarde sem sol de Manhattan anunciava, além
de mais neve, a genuína devastação do lugar quando coloquei os olhos em
Brianna.
Depois de não ter tido nada do porco Jamar, além da afirmação de que
ela tinha pegado um táxi e sumido, achei que teria mais trabalho para a
encontrar. Mas estava ali, na minha frente. Olhando para mim com aqueles
olhos oblíquos.
Me convenci de que não era uma miragem quando senti seu cheiro, de
longe; seu medo envolvido por um império de tentativas de ser forte.
A ratinha fujona longe do seu lugar. Como se não soubesse a quem
pertencia, como se pudesse fazer escolhas, me desafiar.
— Aquela é a Abernathy? Aqui na universidade? — perguntou
Benedete e, ao confirmar por si mesma, franziu o cenho. — Essa garota não bate bem.
— Pegue meu carro e o traga até mim. Agora que a encontrei, nós
vamos dar uma volta — falei, vidrado nela, e comecei a caminhar em sua
direção com os olhos semicerrados, maxilar travado e uma única pergunta
correndo feito um animal pela minha cabeça:
Por que voltou para mim?
Seus olhos vacilaram quando me viram em movimento, e ela começou
a fugir.
— Nem tente! Já vi você. — Segui sua corrida desajeitada. — Não vai
falar comigo? Vai continuar fugindo de mim? — Ergui a voz alta, sabia que
estava me ouvindo, mas as pessoas que estavam mais à frente, não.
E foi na tentativa de passar por um desses aglomerados que ela se
mostrou uma ratinha coagida.
Era a gangue dos caras do Câmbio, infelizes mexicanos que eu
precisava puxar as rédeas vez ou outra. Brianna estava no centro, rodeada
pelos imbecis que a encaravam como carne fresca.
Inspirei fundo, soltando uma risada alta no final. Pisei com vontade até
lá e entrei na roda. Brandon e Ryus se juntaram a mim, formando uma
barreira ao redor dela.
Nossa presença foi o suficiente para desencorajar uns cinco, que já
começavam a se afastar como os cães fracos que eram, mas isso ainda não
deu segurança a ela. Seu corpo tremia. Eu via, mesmo que tentasse esconder.
Eram uns onze caras, não a julgaria por sentir medo.
Encarei o que parecia ser o líder daquela merda como quem pergunta
“o que está pegando aqui?”.
— A filhinha do delegado aí — um deles falou. — Essa garota não é
bem-vinda aqui, Alien. — Olhou para ela. — Por que não volta pro buraco de
onde veio? Ninguém aqui é obrigado a dividir o mesmo ar que a filha de um
porco!
— Vai se foder! — ela respondeu ao nível e, antes que uma fagulha de
riso escapasse dos meus lábios, me coloquei na frente do infeliz que deu um
passo em sua direção.
— Sabe o que eu fiz com o último filhinho de porco que encontrei,
vadia? — ele vociferou.
— O mesmo que eu vou fazer com você se não calar a porra da boca
agora. — Cuspi as palavras olhando no olho. Assisti a quando recuou com
ódio.Todos me olhavam sérios, até que o corajoso líder ergueu a voz.
— Ela vai servir de comida pra todo mundo aqui e vazar, ou então
morre.
Silêncio.
Ninguém moveu um músculo diante de mim. Quando ele fechou a
boca, ergui os olhos. Não os meus, os dos meus demônios. Os que fizeram
com que me chamassem de Alien.
O canto dos meus olhos voltaram a arder como o inferno. Os últimos
caras se afastaram, deixando-o sozinho na minha frente.
— Acho que não ouvi direito. — Cruzei os braços e dei mais alguns
passos na sua direção. Meu corpo fervia para um caralho. Eu estava louco
para descarregar tudo na cara dele, bastava proferir mais uma vogal.
— Eu disse que… — A frase morreu quando dei um soco no olho. Ele
levantou para receber uma cabeçada, que com certeza partiu o nariz em dois.
Senti o osso do miserável cortar minha testa.
Os outros não ousaram me impedir, e só parei quando ele estava no
chão, sem levantar mais.
— Mais alguém? — vociferei, o sangue do infeliz escorrendo pelo meu
rosto.
— Tá de brincadeira, Alien? — Um dos que se dispersaram abriu os
braços, indignado.
— Quer que eu prove que não? — Ao som da minha ameaça, ele
recusou. — Tá vendo isso aqui? — Ergui o pingente. — É o sangue do que
me pertence. Se alguém sequer olhar para ela nesse lugar, fica cego ainda
vivo. Eu arranco os olhos com minhas próprias mãos.
Antes que eu saísse, o quase morto agarrou o meu pé. Virei o calcanhar
e minha sola acertou o crânio do infeliz, mantendo a cabeça dele contra o
chão quente. Ele riu.
— Vai me matar, Alien? — Segurei-o pelo colarinho e o ergui para
olhar nos olhos. — Por uma vadia filha de um porco?
— Ela é minha chave de vingança — grunhi. — Se proferir mais uma
palavra a respeito dela, mato você. — Externei o inferno que me dominava e
ele parou de sorrir.
— Foda-se. Faço e falo o que eu quiser.
Bastou.
Benedete estava estacionando dentro do campus, ao meu lado, como
pedi. Aproveitei e atirei o infeliz no chão. Abri o fundo do carro, peguei minhas cordas e lacei o pescoço do merdinha. A outra ponta foi amarrada na
traseira da lataria.
— Meu Deus, o que você vai fazer? — Brianna parecia estar atordoada.
— Quietinha. — Ryus a manteve calada, enquanto eu tomava o lugar
da ruiva no volante. — Você não vai querer intervir. Ninguém interfere —
falou e, pelo meu retrovisor, vi os muitos que estavam com o cara assistindo
de longe.
Quando Benedete bateu no capô, acelerei. As rodas giraram depressa e,
pelo retrovisor, assisti ao corpo se debater pelo asfalto. Abri o teto móvel, o
vento batia em meus cabelos. Inspirei e soltei o aroma que transcendia o
poder, nas minhas mãos, na minha cabeça.
O carro ficou mais leve. Percebi que a corda se arrastava sozinha com a
ponta estilhaçada por uma lâmina. Ele se libertou. Mas não iria muito longe.
Não naquele estado.
Pisei no freio, girei as mãos, mudei a marcha. As rodas giraram dando
ré. Avistei-o se arrastar para longe da pista e só parei quando ouvi o barulho
do seu corpo bater no chão.
Manobrei, passei pelos portões do campus e estacionei no mesmo
lugar, olhando para a Abernathy, que parecia estar paralisada. Meus pés se
moveram para fora do carro no mesmo instante. Segui até lá, passando pelos
rostos contorcidos dos caras que saíam para buscar o infeliz jogado no
asfalto.
— Tudo certo, babacas? — Meus amigos acenaram, saindo dali em
seguida.
Peguei-a, joguei no ombro e comecei a voltar para o carro debaixo dos
muitos olhares assustados, que também se dispersavam aos poucos.
Aquele era só mais um recado dado. Algo que soava como uma bela
ameaça a quem tentasse chegar perto, e que não ousaria denunciar, ou
exporiam coisas similares já feitas por eles mesmos.
Estávamos bem com a demonstração de poder. Eles se lembravam de
seus lugares.
Brianna, no entanto, não parecia estar bem. Debatia-se como um peixe
fora d’água em meus braços. Não parou até que a colocasse no chão.
— Eu não precisava de ajuda! — grunhiu, ajustando a roupa no corpo,
sua voz trêmula era um traço de medo inegável. — E não é como se eu esteja
salva agora — balbuciou, dando um passo para trás.
— Não te ajudei — falei. — Eu te tomei. Deixei claro quem é o seu dono. — Seus olhos cintilavam, diferentes. — Quanto à segunda questão,
você está certa, mas agora sabe que só eu posso te assustar.
— Vai pro inferno! — Seus pés embolaram em uma trama de fuga, mas
eu me adiantei.
— Ora se não é a ratinha que fugiu do meu porão. — Segurei pelo
cabelo e a fiz virar.
— Me solta!
— Só não entendi o porquê de ter fugido e voltado pra cá. Quer os
parabéns pela petulância ou os pêsames por não conseguir ficar longe de
mim? — sussurrei, olhando seu rosto.
— Voltei, porque não devo nada a você, e deveria agradecer por eu não
acabar com a sua raça!
— Oh… está me ameaçando, ratinha?
— Posso fazer pior se quiser. — Empurrei-a um pouco mais contra a
parede. Ela suspirou.
— Quero ver você tentar. — Diante do meu olhar, ela passou a ofegar
devagar. Ergui o queixo, olhando ao redor enquanto a trazia para perto do
meu corpo.
— Por que não me deixa em paz? Viu que aquela merda toda não
adiantou. Você me manteve lá por dias e não teve sequer vestígios de que ele
viria. Já não é o suficiente? — constatou, impaciente.
— Não, não é. Você é a facilitação do meu caminho. — Passei o dedo
em sua bochecha. — Talvez eu só não tenha te torturado o suficiente, ou
precise variar as estratégias.
— Pois engula suas estratégias! — grunhiu.
— Vou fazer você engolir a língua, se falar comigo assim de novo. —
Senti minha voz reverberar pelas narinas em um rosnado baixo.
— Que poder acha que tem sobre mim? — Franziu as sobrancelhas. —
Você só pode ser maluco!
— Ainda não entendeu que pego tudo que quero, ratinha?
— Não sou qualquer coisa para que me possua…. — Ela recuou um
passo, seu rosto revelando um misto de medo e determinação. — Não sou
sua, Aaron. Nunca serei. — Bati a mão na parede atrás da cabeça dela.
Engoliu as palavras. Por um instante. — Você não me assusta. Eu sei o que
você é capaz de fazer, mas não vou me curvar diante de você.
Um sorriso cínico brincou em meus lábios
— Você deveria ter medo, Brianna — murmurei, meus olhos fixos nos dela. — Porque não tenho limites quando se trata do que é meu.
— Não sou sua.
— Quero você, tenho você — pontuei e ela olhou no fundo dos meus
olhos. — É assim que as coisas funcionam.
— Não! — rebateu, a ponta do nariz erguida.
— Ah, é sim — rosnei, colocando meu rosto acima do dela. Sua
respiração pulsava, cortada pelo nervosismo que crescia junto à minha
aproximação.
— Não! — Outro protesto, daquela vez sua voz tremeu quando me viu
mais perto.
— Eu disse “sim”. — Colei meu corpo no dela e senti sua pele arrepiar,
as sobrancelhas franziram quando enfiei os dedos em sua nuca para terminar
a frase. — Nem mesmo você pode negar que me pertence. Em hipótese
alguma, sob nenhuma circunstância. É minha ferramenta, ratinha. A isca para
atrair o infeliz, o meio para chegar a um fim, simples assim. — Seus olhos se
abriram um pouco mais e senti que esmoreceu sob meus dedos.
— Sai de perto de mim! — Ergueu a mão e acertou o meu rosto.
O barulho reverberou pelo lugar, ela se encolheu quando percebeu o
que fez.
Eu a joguei contra a parede com mais força, arrancando um gemido
baixinho que atingiu meus ouvidos tão rápido quanto o som de surpresa dos
poucos alunos que circulavam por ali às pressas.
— Gosto disso, ratinha, acredite, gosto que me provoquem, mas precisa
saber… — Colei os lábios em seus ouvidos. — Só permito que tentem me
arranhar dentro de um quarto. Não me faça descontar a minha raiva em você
em público. Seria um tanto quanto inapropriado, até para mim.
— Vai pro inferno!
— De novo? Hoje, não — falei, segurando seus braços. — Hoje, você
vai comigo até o seu salvador.
— O quê?
— Delegado Jamar, conhece? — Comecei a arrastá-la até o meu carro.
— Vamos fazer uma segunda visita ao homem que interveio nos meus planos
e tirou você de onde coloquei. — Empurrei-a para dentro do carro. — Estou
com o distintivo dele. — Tirei-o do bolso e o joguei no colo dela, para vê-la
pular. — Esse sangue é uma lembrança da primeira conversa, em que ele não
me disse nada de útil, mas a segunda… — Suspirei. — Você vai ver com
seus próprios olhos.Antes que ela falasse mais alguma coisa, bati a porta e caminhei até a
frente, mas parei ali, com a mão na maçaneta, tentando validar a sensação de
que algo parecia estar fora do lugar.
Aquilo conseguiu me deixar em alerta por um instante. Não seria a
primeira vez que um infeliz procurava por uma retaliação depois de ter
levado uma coça, e esse poderia ser o caso.
No entanto, antes que eu pudesse reagir, fui surpreendido por uma
sombra se movendo rapidamente em minha direção. Em seguida, fui agarrado
e jogado à força dentro de outro carro que surgiu de repente.
Nunca imaginaria que um saco na cabeça, mãos e pés atados e alguns
longos minutos de viagem me aguardavam pelos próximos trinta minutos,
mas lá estava. Eu diria que o tempo que passei me debatendo feito um animal
ali no fundo só não foi tão desgastante para mim quanto foi para o motorista.
Eu balançava o carro, como um touro com os sentidos em alerta máximo.
Mesmo sem enxergar, o som abafado dos pneus contra o asfalto e a
sensação de movimento constante me indicavam que eu ainda estava sendo
levado a algum lugar. Assim como me indicaram quando o carro parou.
Me empurraram por um percurso silencioso marcado por minhas
tentativas de romper as cordas que atavam minhas mãos com os próprios
dentes, até que de repente, em um só golpe, puxaram o pano que cobria
minha cabeça.
Fui jogado em uma cadeira enquanto a luz do ambiente me cegava por
um momento. Quando finalmente consegui focar, percebi que estava dentro
de um espaço escuro e opressivo, iluminado apenas por uma luz fraca e
amarelada de uma lâmpada pendurada no teto. O lugar era desconhecido para
mim, suas paredes escuras e sujas pareciam se fechar ao meu redor, mas o
filho da puta de terno, gravata e pentelho grisalho de pé na minha frente?
Esse eu conhecia desde que o filho passou a andar comigo.
— Ora, ora… — Minha voz reverberou, entornada de sarcasmo. — Se
não é o aclamado da nação... — Sorri, abrindo um pouco as pernas. — Aí,
governador… parece que os bastidores da política são mais sujos do que eu
pensava.
— Não tão sujos quanto suas festinhas rotineiras — falou e estreitei os
olhos, tornando o tom sério.
— O que você quer?
Mantive os olhos atentos e segurei firme no banco quando senti mais
movimentos perto do carro. Eu estava preparada para me arremessar em
quem quer que surgisse que ouvi a primeira pessoa falar.
— Cadê ele? — Era a garota ruiva.
— O comunicador, Bene. — O loiro ergueu o dispositivo que o Alien
usava e olhou para mim.
— Onde ele está? Viu quem o levou? — o que chamavam de Brandon
perguntou enquanto a garota me puxava para fora do carro.
— Eles foram rápidos, eu estava dentro do carro.
— Vamos levar ela — um deles determinou.
— O quê? Mas pra onde? — Puxei meu braço da mão apertada da
garota e os três me encararam como uma matilha separada de seu alfa.
— Você vai ficar com a gente até ele voltar e vai responder a tudo que
perguntarmos — ela sibilou, sua boca vermelha como os fios de cabelo e
intensa como os raios do sol. — Para o seu bem, ratinha.
— É melhor não me chamar assim. — Encarei, elevando o tom de
ameaça.
— Por quê? Só dá autoridade ao seu dono? — Pisquei algumas vezes.
As palavras fugiram da minha cabeça quando me vi sob seu olhar risonho. —
Que fofa! Dá pra ver o porquê do Alien ter tanto ciúmes. — Olhou para o
loiro. — Quero uma igual, Ryus.
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AO CAIR DA NOITE
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