AARON WALKER dêem ⭐
EU A PERDI
Tive certeza de que quase causei um ataque cardíaco em Ryus quando
bati a porta do meu carro como um animal.
Apertei o tecido da camisa na mão e marchei até ele, nos fundos do
campus, onde estava fumando.
— Tá virado, cara? — Me encarou de longe, ciente de que aquilo não
era eu, e, como confirmação, joguei-o contra a parede em um único golpe.
— Quem foi? — Senti minhas narinas se dilatarem, meus olhos
arderem como se banhados ao fogo.
— Segura a onda, porra! — balbuciou. As sobrancelhas quase
tampando os olhos de tão franzidas. Só não tanto quanto as minhas. — O que
que tá pegando?
Não tinha sido ele, percebi no instante que me encarou com aquela cara
de quem estava perdido.
Sem deixar ao menos uma palavra, avancei para a sala de aula de
Brendon e Benedete, os aspirantes a matemáticos. Puxei-os para fora e os empurrei contra a parede também.
— Quem foi? Quem libertou ela? — rosnei tal como um animal.
Brendon tentou argumentar, mas eu não estava disposto a ouvir nada
além de um nome. Um culpado. Minha paciência havia se esgotado e já era
substituída por uma ira incontrolável.
— Quem libertou Brianna? — Minha voz era um trovão, ecoando pelo
corredor vazio.
— Ninguém, Alien! Pra que diabos alguém aqui faria isso? —
Benedete tentou cobrir meu tom de voz. — Poderia ao menos contar essa
história direito antes de tentar nos matar?
— Pelo visto a garota sumiu — Ryus se adiantou.
— Ela conseguiu fugir? Da cobertura? — A ruiva franziu o cenho em
descrença.
— Ela não iria sair sozinha daquela merda! — vociferei.
— Quem mais sabia? — Brandon perguntou e uma chave girou na
minha cabeça.
Jamar.
Fechei os olhos, sentindo a raiva ganhar uma forma diferente dentro de
mim.
Como aquele filho da puta descobriu a agulha no palheiro? Eu fiz
questão de usar a cobertura por ser impenetrável, impensável. O último lugar
em que procurariam por alguém. O mistério perfeito para atrair o porco
Abernathy e deixá-lo sem rumo, tateando no meio do campo, para que eu o
atacasse.
— Vou matar aquele velho infeliz! Mas, antes, mato os homens de
John — grunhi entre dentes, me lembrando dos infelizes que mandei ficar de
olho nele.
— Está trabalhando com os caras da gangue do seu irmão? — Ryus
perguntou.
— Mandei ficarem de olho no Jamar, mas pelo visto foram passados
para trás.
— Olha, ele agora dá ordens e os peões obedecem — cantarolou
Benedete.
— Todos nós queremos o mesmo, Benedete: a morte do novo delegado.
E não é como se eles fossem diferentes de nós. — Minha voz era áspera.
Contida por um fio. Ela ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Ainda acho melhor ouvir a gente, ir com calma, pensar antes de fazer merda. — Brandon se posicionou.
— Passo. — Me virei para sair. Eu já não tinha atenção em mais nada
além da procura pela fujona.
— Aonde você vai, cara?
— Ensinar àquele porco o que acontece com quem interfere em meus
planos e depois… — Puxei as chaves no bolso, caminhando na direção do
meu carro. — Caçar a minha presa.
BRIANNA:
Os olhares julgadores das pessoas não eram tão extravagantes como
pensei que seriam.
Vai ver a roupa do velho é uma boa camuflagem.
Olhei para as minhas mãos. Os últimos trocados que eu tinha pagaram
meu almoço, enquanto me via aos arredores da Libert University. Relutando,
repensando.
Em minha cabeça, não deveria ter dúvidas. Não quando se tratava da
mãe, quando existia a chance de saber mais sobre o que aconteceu. Mas só
seria possível se encarasse o Alien de frente. Pelo modo como o via rasgar
aquela pista de carro, como um louco prestes a matar qualquer um que
surgisse à sua frente, ele já sabia. Com certeza sabia que fugi, e estava me
procurando.
Mas eu era Brianna Abernathy. Já tinha aturado muito na vida, mesmo
sendo jovem. Não seria um filhote de criminoso que me coagiria. Afinal,
agora ele tinha provas de que me prender não traria meu pai até aqui.
Quanto mais rápido for, mais cedo tudo acaba.
Cruzei a entrada do campus com a cabeça baixa, me vendo com a árdua
missão de chegar ao alojamento sem ser vista por muitas pessoas. Por incrível
que pareça, consegui. Caindo pelos cantos, zonza, fedendo e completamente bagunçada, mas consegui.
Bati na porta do quarto 13, era o que eu estaria dividindo com Meg,
caso não tivesse sumido na primeira noite.
— Quem é? — perguntou do outro lado.
— Se não abrir agora, eu derrubo essa porta e te atiro pela janela! —
gritei e, em segundos, ouvi seus passos desesperados.
Ela abriu a porta com força, o vento que bateu em mim ameaçou me
derrubar.
— Brianna?
Meg me afogou em pedidos de desculpas. Encarei o teto cor-de-rosa do
quarto padrão com duas camas dispostas de cada lado e um tapete felpudo
redondo debaixo de uma escrivaninha única.
Ela estava contribuindo para minha exaustão. Desculpas por não ter
intervindo naquela noite, por não ter procurado por mim fora do campus, por
não ter acionado a polícia… era uma avalanche de repetições que só me fazia
querer fechar os olhos e me entregar ao sono. Foquei na sensação de banho
tomado. Parecia de outro mundo. Só não era melhor do que a pomada gelada
sobre a minha pele vermelha.
Enquanto Meg massageava meus punhos, insistindo que aquilo era o
mínimo por ter me deixado na mão, suas súplicas pelo meu perdão deram
lugar às muitas perguntas que faziam sua língua coçar na boca.
— Então quer dizer que ele te amarrou com correntes? — A expressão
perplexa era notável, mesmo que estivesse concentrada em enfaixar minha
pele.
Um rubor subiu pelo meu rosto e precisei escancarar as narinas para
ventilar o cérebro.— E ele te ameaçou nos corredores? — rebati com outra pergunta.
— Deu a entender que queria disseminar a informação do seu sumiço,
queria atrair a atenção do seu pai — falou, cautelosa.
— O Alien está perdendo tempo se acha que meu pai vai aparecer para
me salvar.
— Então não foi ele quem…
— Me libertou? — Ri com vontade. — Até parece! Só cheguei aqui
por conta do senhor Jamar. Ele me procurou por conta própria.
— Brianna… — Ela piscou algumas vezes, como se só naquele
momento sua ficha estivesse caindo. — Que caralho você está fazendo aqui?
— A voz soou estridente em meus tímpanos sensíveis. — Aaron Walker te
sequestrou, torturou por duas semanas, e quando foge, decide voltar para
dentro do covil dele? Isso é, no mínimo…
— Loucura, eu sei — completei e me remexi sobre a cama. — Estou
disposta a receber o título.
— Mas por quê? Pra quê arriscar tanto? Pedir para morrer? — Franzi a
testa na última pergunta. Era como se eu fosse insignificante diante dele.
E era um inferno, porque era justamente como me sentia quando aquele
imbecil de quase dois metros me encarava de cima. Mas nem tudo que se
sente é a verdade absoluta. Eu era tão forte quanto ele, e sabia disso, ou não
estaria ali.
— Voltei, porque Aaron pode ter a chave de um problema que procuro
resolver há anos, literalmente. E ele já provou que não valho o esforço. Como
você disse, fiquei duas semanas em cárcere e meu pai nem mesmo mandou
alguém me procurar.
Ela se aproximou, diante do meu timbre meio desanimado.
— Espero que saiba que eu iria à polícia, só estava tentando encontrar
coragem e…
— Eu sei, Meg. Você não precisa se preocupar — afirmei. — Ele
precisa.
Ela riu, encolhendo os cantos da boca e me olhando um pouco sem
graça.
— Você fala como se pudesse abater todos eles de uma vez. Você é
louca!
— Se eu conhecer melhor cada um deles, talvez os possa derrubar, sim
— falei e ela semicerrou os olhos. — Não sou louca, só sou a filha do
delegado, e peço encarecidamente por mais informações, queridíssima veterana.
Ergueu as sobrancelhas.
— Achei que tínhamos planejado um tour pela universidade, não uma
noite de fofocas sobre o mal que ronda este lugar.
— A exploração pelo castelo fantasmagórico pode esperar. — Me
ajeitei na cama, mantendo ereto o corpo cansado. — Vamos começar pelo
líder. Quem é Aaron Walker? Ele tem pais? Qual é mesmo a idade e quando
ele entrou aqui?
— Calma, garota, você acabou de sair de um cativeiro. — Franziu o
cenho. — No centro de Manhattan, dentro de um quarto luxuoso de uma
cobertura. — Voltou a olhar para mim. — Mas era um cativeiro! —
Suspirou. — Para começar, ele tem vinte e três anos e vive com a mãe
doente. O pai era podre de rico, um grande influente no meio econômico, mas
dizem que os abandonou — cochichou. — Soube que ele tinha um padrasto,
mas o cara também foi embora.
— Então estou sendo alvo de um delinquente riquinho psicopata com
síndrome de abandono?
— Digamos que essa pode ser uma das trocentas definições para Aaron
Walker. — Ela se levantou.— Quer alguma coisa? Acho que a conversa vai
ser longa…
— Vou precisar de um celular. Você tem um reserva? — Ela parou na
porta, olhando para mim com a testa franzida.
— Estava falando sobre comida, Brianna. Qual é o seu problema,
garota? — Riu, desconfiada.
Eu tinha muitos problemas, mas ela não precisa saber de nenhum deles.
Pelo menos, não agora.Megan me manteve deitada naquela cama por uma semana. Repito:
fiquei de cama por uma semana. E, sim, admitia que não havia sido por falta
de razão, eu mal ficava de pé e passava mal se fosse ao banheiro sozinha.
Foram os piores dias, a sensação de que estava parada no tempo em
desolação.
Por horas, fiquei observando o telefone novo que Meg me emprestou.
Continha tudo que perdi no meu antigo aparelho. Esse era o benefício de ter
salvado todos os arquivos na nuvem.
Pela milésima vez, pressionei os lábios com um pouco de força, abri a
galeria, segui até a pasta de imagens registradas naquela data e lá estava. Me
lembrava de que não havia conseguido ler muito dos documentos, a
qualidade tinha ficado péssima com o meu nervosismo, mas a chave? Era
igual.
Era um passo mais perto dela, de saber o que havia acontecido. Se
aquela chave fazia parte da investigação e Aaron tinha algo parecido, eu não
poderia ignorar. Teria de descobrir que tipo de porta maldita ela abria, por
qual caminho iria me levar.
Ali era meu lugar, apesar do medo e da incerteza; aquele era o lugar.
Fechei os olhos, soltando um suspiro suave. Havia chegado o momento
em que eu tentava criar coragem para um monte de coisas, admito, e elas iam
desde colocar o pé fora do alojamento e, em algum momento, dar de cara
com Aaron Walker pelos corredores da universidade a abrir o aplicativo de
mensagens e xingar até a última geração do meu pai.
Ele me colocou no meio dos lobos, sem meu consentimento. Disse que
viríamos pela minha mãe, me deu esperanças. Eu não iria ajudá-lo em nada.
Fechei a aba da galeria e abri o aplicativo de mensagens.
Eu:
Pai?
Não vai mesmo me responder?
Perda de tempo, Brianna. Perda de tempo.
Joguei o aparelho de lado. Minha mente flutuando pelos últimos
acontecimentos, fazendo com que eu nutrisse ainda mais raiva por ele. Alien.
Ergui o corpo totalmente fraco e me inclinei ao espelho. As faixas nos
punhos, alvas como neve, contrastavam com minha pele bronzeada. Meus
cabelos lavados já secavam. Rosto Limpo. Cheiro de banho, a febre que oscilava desde o início da semana já me dava trégua, e uma vontade imensa
de sair daquele cubículo me tomava.
Era um risco. Mas um ao qual me submeteria mais cedo ou mais tarde.
Naquele momento, preferi que fosse mais cedo. Terminaria logo, ou não
terminaria nunca, mas eu saberia em breve.
Pisar no batente do lugar me remeteu à liberdade que senti quando saí
do cativeiro, como chamava Meg. Segui, confiante, passando pelos
corredores. Os olhares carregados me acompanhavam em maior número
agora. Secando minha pele, averiguando meus passos, poderia dizer que até
mesmo contavam quantas vezes meus cílios batiam.
Tudo piorou quando cheguei a um dos pátios na frente do prédio da
universidade. O lugar onde me aterrorizaram. A imagem que me trazia
remorsos e lembranças ruins, mas aos quais eu deveria me acostumar e
enfrentar, ser forte.
Um som repetido de passos rápidos me alcançou enquanto tinha os
olhos inertes nos umbrais da Libert.
— Brianna! — Era Meg. Ela parecia estar tremendo. — O que você
está fazendo aqui?
— O que acha? — perguntei, minha expressão oscilando entre
confusão e riso.
— O que está fazendo aqui fora? — ciciou entredentes.
— Vou ficar, Megan. — Pisquei algumas vezes. Ela me encarava como
quem olharia uma pessoa com um parafuso a menos. — Achou que eu estava
alucinando?
Era a única explicação para tamanha surpresa.
— Você chegou naquele estado, falou tudo o que passou, parecia meio
distante, ficou de cama por uma semana… eu… não levei a sério! Achei que
seu cérebro apagaria assim que tivesse a oportunidade, estive pensando em
como te tirar daqui ou…
— Não preciso de ajuda, Meg. Sei me virar. — Cruzei os braços. Não
era uma escolha, era uma obrigação estar ali. — Não vai ser um maluco com
problemas com o meu pai que vai me fazer ficar escondida como uma rata
por aí.
— Você não entendeu. — Ela riu, nervosa. — Aqui não é mais seguro,
Brianna. Você é o único vestígio da lei no meio de…
— Acha que vão me caçar? Me amarrar? — Me aproximei dela. — Eu
não tenho o que o Alien quer e não devo nada a ninguém aqui, logo não tenho o que temer — falei, tentando me convencer daquilo. Afinal, eu era filha de
um delegado, isso bastava para que eu fosse massacrada.
— E o que pensa em fazer agora? Assistir à sua aula de anatomia, como
se não se visse no lugar daqueles porcos estirados sobre as mesas? —
perguntou.
Bati os cílios. Havia um ruído estranhamente familiar se unindo à voz
dela.
— Responde, Brianna! Vai fingir que nada aconteceu, ou pode
acontecer, e continuar vagando pelo matadouro?
Uma sensação gélida percorreu meus ossos. Virei a cabeça, procurando
por algo que nem eu sabia o que era.
— O que você tem?
Senti o sopro do vento nos cabelos. O tempo pareceu escurecer, meus
olhos se abriram um pouco mais, como se pudesse alcançar um raio maior,
me dar mais detalhes. Minhas narinas, farejando o cheiro familiar, me
fizeram sentir ameaçada.
Ameaçada. Como uma presa.
Firmei o pé, levantei o olhar mais adiante e afirmei o meu lugar.
Eu era, sim. Era uma droga de presa indefesa diante do olhar perverso
dele, meu predador. Com os braços cruzados, no ápice da penumbra, do outro
lado do campus.
Aaron havia, finalmente, me encontrado.
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AO CAIR DA NOITE
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