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BRIANNA ABERNATHY
Combustão

Seus olhos fixos na camisa que eu vestia já diziam muita coisa, mas foi
quando me puxou para perto de si que tudo ficou ainda mais claro. Os dedos
seguraram o tecido da roupa com força, vi sua testa franzir e as sobrancelhas
quase taparam os olhos.
— Tira isso. — Saiu como um rosnado baixo. Seu rosto me mostrou o
que parecia ser resquícios de algo indecifrável. — Tira isso, agora! —
Segurou o tecido e puxou para cima e me empurrou para o quarto.
— Ficou maluco? — Não consegui lutar contra sua força. Fiquei de
sutiã e calcinha ali, enquanto Brandon tentava falar com ele, sem obter
sucesso algum. Usei os braços para reforçar o trabalho do pouco tecido das
minhas peças íntimas, sendo guiada até a cama por ele.
Abriu o guarda-roupas e puxou uma de suas camisas. Ainda envolvido
por um silêncio mórbido, ele a atirou em mim, a expressão era contida por
algo maior, mas eu poderia jurar que conhecia aquilo. Se me perguntassem,eu diria que era uma das inúmeras faces do ciúme, trajada de armadura
sombria, envolvida por uma aura de raiva e adrenalina desenfreada. Mas era o
Alien, podia ser tudo, menos isso…
Comecei a me vestir depressa para tentar impedir que as coisas
piorassem, mas, quando alcancei a porta, era tarde. A chave girou por fora,
me mantendo presa longe dos dois, naquele quarto, em que só ouvia suas
vozes.
— Aaron, me deixa sair! — Era em vão, mas queria tentar. — Abre
essa porta! — Bati com força contra a madeira, mas fui ignorada.
— Agora, nós podemos conversar. — Seu tom sério ressoou como um
murmúrio seco e, seguido dele, o barulho alto de um soco me fez morder os
lábios com força. Sapatos rangeram sob a porcelana e a confusão que teve
início dizia que eles estavam brigando feio.
— Parem com isso! — Segurei a maçaneta e comecei a chacoalhar. —
Abre essa porta! — Quando gritei pela segunda vez, se fez silêncio. Eles
estavam ofegantes.
Inclinei contra a madeira e coloquei um olho no buraco da fechadura. O
tronco do Aaron tomava quase todo meu campo de visão e, além dele, eu só
via meia dúzia de corajosos assistindo a tudo do outro lado do corredor da
fraternidade.
— Não rolou, cara! — Brandon vociferou do outro lado, sua voz
parecia vir de baixo, como se estivesse no chão.
— Mas você queria, e duvido que não tenha tentado! — Rebateu com a
pergunta que, se fosse respondida de forma sincera, avaliando a situação,
causaria uma morte no Campus.
— Eu só me habituei à nossa dinâmica, porra! — Era o fim do cara.
— Falei para não tocar nela! — Seu tom de voz voltou a aumentar.
Tampei a boca quando ele virou um vulto e me fez sentir, pela fresta da porta,
que se aproximava de Brandon com uma força inumana.
— Ei, ei, pega leve, cara. O que tá rolando? — Os passos rápidos do
Ryus ecoaram pelo lugar.
Ryus! Ele vai apartar a briga!
Estava apostando no caladão, mesmo sabendo que, se tentasse intervir,
existiam grandes chances de ele apanhar também.
— Vou matar esse filho da puta!
— Não na minha frente. — Foi a vez da voz de Benedete anunciar sua
chegada. — Qual o motivo da briga, crianças? — Ignorada.— Me conhece, porra. Sabe que eu teria dito se algo acontecesse. —
Pelo suspiro, Brandon também sentia raiva. Me desesperei à procura de outro
jeito para assistir àquilo, já que não restava ninguém na linha do buraco da
fechadura. Ele continuou: — Só achei melhor que ela tivesse onde dormir a
ficar ao relento, caralho! A garota apenas tomou um banho e vestiu uma
camisa para dormir. — Olhei por baixo da porta, seus pés estavam próximos,
eles pareciam estar cara a cara. — Sei que marcou aquela boceta como sua
exclusividade. Não mexi nela, mas também não posso dizer que não queria,
você me conhece. — Os pés se aproximaram um pouco mais, tensão se
alastrava pelo lugar diante de um silêncio perturbador, em que os dois se
encaravam.
O que me fez borbulhar, no entanto, foi aquela última fala do Brandon
babaca. Senti o sangue subir à cabeça e quando pensei em esmurrar a porta,
Benedete ergueu a voz.
— Que pouca ideia é essa de brigar por mulher? Já estão de fato
comprando como propriedade?
— O Alien que tá virado — Brandon rosnou. — Ele só quer ela para
um fim, não deveria se importar tanto.
— Quero ela até depois do fim. — Aaron fez a voz reverberar pelo
lugar, o silêncio sequencial deu a entender que deixou aquelas palavras
escaparem sem pensar. Sua conclusão trouxe à tona a verdadeira intenção. —
Até depois do fim, para acabar com ela e todos os vestígios que indiquem que
existiu um dia. — O tom de voz abaixou e pareceu falar entredentes. — Se
tentar entrar aqui pelas próximas vinte e quatro horas, será um homem morto.
— Ele bateu na porta com força, me fazendo pular para longe. — E você,
curta o castigo. volto mais tarde.
— O quê? — Pulei de pé. — Abre essa porta ou eu vou…
— Vai o quê? — A pergunta ressoou por trás da madeira e me
aproximei um pouco mais dela.
— Acabo com você!
— Adoro te ver tentar, ratinha. — Percebi quando se afastaram e quase
arranquei meus cabelos de tanta raiva.
Eu odiava ficar trancafiada. Aquele infeliz fazia de propósito porque,
com certeza, sabia disso.Passar o dia presa no quarto dos dois marmanjos aspirantes a
criminosos só não foi de todo mal, porque novamente explorei cada cantinho
daquele lugar sombrio e incrivelmente limpo. Se aquele quarto fosse
minúsculo como os da irmandade, com certeza eu já teria tido um treco, mas
era enorme — até nisso os filhos da mãe tinham vantagem.
Tirando as drogas, bebidas e uma coleção de chaves velhas de carros —
com certeza, inúteis — eles tinham um bom gosto para música e uns jogos
legais em um PC gamer. Detalhe: somente jogos de corrida de carros — com
certeza, pertenciam ao Alien do inferno — mas, ainda assim, era legal. Me
fazia lembrar da época em que eu jogava com a Mavi, ouvindo rock no
último volume enquanto seus pais trabalhavam fora.
Se eu não estivesse ouvindo músicas, fuçando mais do lugar, dormindo
ou testando jogos de última geração, eu estava comendo alguma coisa e
torcendo para não ter nada ali.
Meu café da manhã tinha sido três barras de cereal que encontrei em
uma das gavetas de Brandon. O almoço, um hambúrguer meio mordido com
a embalagem da Booking no canto da geladeira, que encheu os meus olhos ao
me fazer lembrar do gosto, de quando aquele infeliz me manteve presa na
última vez. Mesmo que não fosse minha praia, tomei duas latinhas de bebida
alcoólica antes do anoitecer, só para aliviar e fazer a coragem de massacrar
aquele infeliz dobrar de tamanho.
Parecia ser madrugada quando ouvi a chave girar por fora. Me
aproximei da porta e, quando ele pisou no batente, avancei para esmurrar seu
peito.
— Some da minha frente! — Minha voz saiu firme e lutei, tentando
passar pela porta. Aaron sequer se abalou, me deu um olhar matador e, em
vez de ceder, segurou meus braços com uma única mão. Fechou a porta e trancou a fechadura, indo na direção de suas gavetas em total silêncio.
Estava suado e sem camisa, a máscara pendurada no cós da calça
anunciava ter voltado de mais uma de suas corridas clandestinas. Ele não
tinha cheiro de drogas ou álcool, mas me inebriou só de passar por mim. Os
músculos em suas costas me fizeram engolir em seco de tão flexionados,
enquanto ele explorava a parte de baixo da estante. Pela gaveta, eu já sabia o
que estava procurando, vi lá quando estava fuçando suas coisas, mas, ainda
assim, um arrepio subiu a minha espinha quando as pegou nas mãos.
Correntes.
— Vamos brincar de cativeiro de novo? — ciciei, vendo-o desenroscar
o volume de argolas entrelaçadas barulhentas e, como esperado, não obtive
resposta alguma. — Por que você age assim? — Minha voz expressava
confusão e dúvidas caóticas, mas não tinha medo daquele jeito dele, só raiva.
Suas mãos empurraram minhas costas contra a parede e laçaram meus
punhos com as correntes. Nunca pude contra aquela força, por isso nem
mesmo insisti em lutar.
— Acorrentar as pessoas virou sua linguagem de amor, Alien? — Seus
dedos trabalhavam de forma rápida, estava concentrado ali. — Acha que tem
o direito de ficar magoado? — Percebi que o ritmo diminuiu, continuei. —
Sei que quase nos matou naquela pista, porque chamei a polícia naquela
noite, e está fazendo isso agora por conta do Brandon. — Ele me fez parar de
falar, apertando minhas bochechas com força.
— Olha bem pra minha cara e diz se pareço alguém que se chateia com
as ações de uma vadia como você — murmurou, me fuzilando com aqueles
olhos de pura escuridão. Arranquei o rosto de seu poder e cerrei os dentes. —
O que vê se chama irritabilidade por ter perdido uma corrida importante e ter
passado o dia inteiro resolvendo burocracias. — Puxou as correntes,
induzindo meus braços para frente. — Agora, cala a boquinha e me deixa
trabalhar — pontuou e minha raiva borbulhou no peito.
Decidi fazer a única coisa que estava ao meu alcance: tirar aquele
merda do sério até vê-lo explodir.
— Me sinto uma idiota por ter tido a oportunidade de ir para cama com
o seu amigo e desperdiçado — falei, encarando a carranca que ele formava no
rosto. — Se eu soubesse que passaria por isso pela manhã, teria valido mais a
pena.
— É tão otária assim? — Riu, sacando meu plano como o infeliz astuto
que era.
— O que você acha? — Ergui as sobrancelhas.
— Acho que está perdendo seu tempo e a dádiva de poder escolher
ficar calada.
— Não tenho culpa se as imagens do que eu e Brandon não vivemos
são tão vívidas e intensas na minha mente quanto as nuances de quase morte
que vivenciei naquele carro desenfreado ontem. — Suspirei. — Ele quase me
carregou nos ombros para este quarto…
Aaron passou as pontas das correntes por um gancho preso no teto,
meus braços foram puxados para cima e a camiseta que eu usava esticou,
deixando a calcinha à mostra e fazendo meus seios balançarem.
— Vou te dar motivos para parar de falar em poucos minutos —
grunhiu satisfeito em me ver presa.
— E por que isso te afeta? — Deixei o rosto no vão dos braços
suspensos, fitando-o.
— Não me afeta — declarou, formando uma seriedade perturbadora à
face. A linha na testa, no entanto, ainda estava lá, e pelo maxilar super
marcado, pude perceber que pressionava os dentes.
— Não foi o que pareceu quando brigou com seu melhor amigo
naquele corredor.
— Briguei pela tentativa de traição da confiança que eu tinha nele —
grunhiu. — Dei ordens para que ninguém chegasse perto de nenhuma
maneira, porque tenho muito em jogo, e você é a chave dos meus problemas.
— O que vai fazer? Me torturar para provar esse ponto? — Ergui a
sobrancelha. — Preferiria a tortura do Brandon, em uma cama…
Bastou para que ele quase corresse até mim.
— O que está tentando fazer, vadia? — Saiu entredentes.
— Acho que você sabe.

Dêem ⭐

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